Nos dias 20 e 21 de junho, o streamer Braden Peters, conhecido como Clavicular, transmitiu sua visita à capital francesa para milhares de espectadores. Aos 20 anos, ele ganhou notoriedade com conteúdos voltados ao chamado lookmaxxing, prometendo ensinar jovens homens a maximizar sua atratividade. Em Paris, porém, a experiência revelou um contraste brutal entre sucesso digital e rejeição no espaço público.
Nas ruas da capital francesa, Clavicular tentou reproduzir suas abordagens habituais, dirigindo-se a mulheres desconhecidas enquanto filmava ao vivo. Em tom confiante, apresentava-se como celebridade, esperando provocar interesse ou curiosidade.
Mas o que encontrou foi uma reação fria: conversas breves, respostas educadas e um afastamento rápido. Em um dos vídeos, ele aborda duas jovens francesas e pergunta o que fariam naquela noite. Elas respondem que iriam a um restaurante. Visivelmente decepcionado, ele insiste em convidá-las para uma boate e recebe um "não" direto como resposta.
Durante a Festa da Música, a recepção tornou-se ainda mais hostil, com risos, gestos obscenos e até objetos atirados em sua direção. A sequência de episódios, transmitida em tempo real, transformou-se em um constrangimento público amplamente comentado nas redes.
Um fenômeno que entrou no radar do Senado
O caso ganha outra dimensão no momento em que o masculinismo passa a ser tratado como questão política na França. Um relatório apresentado nesta quarta-feira (24) pela comissão dos direitos das mulheres do Senado descreve o fenômeno como um "risco real para a democracia e a coesão social".
Segundo o documento, esses movimentos não são apenas uma tendência de internet, mas constituem um "movimento social e político" estruturado, que questiona a igualdade entre homens e mulheres e busca deslegitimar a palavra feminina.
A senadora socialista Laurence Rossignol, uma das relatoras, alerta:
"O masculinismo é uma ofensiva maior contra os direitos das mulheres que se desenvolve por meios de comunicação inéditos."
Já as autoras do relatório, as senadoras Béatrice Gosselin, do partido de direita Os Republicanos, e Olivia Richard, da União Centrista, destacam no texto que esses movimentos "representam um risco real para a nossa democracia e nossa coesão social", ao promoverem uma misoginia "violenta e desinibida".
Da subcultura ao fenômeno de massa
As senadoras também chamam atenção para a velocidade de difusão dessas ideias, impulsionadas pelas redes sociais. Os conteúdos masculinistas se misturam a formatos aparentemente banais: vídeos curtos, conselhos de sedução, estética masculina, o que amplia seu alcance, principalmente entre jovens.
Segundo o relatório, trata-se de uma ideologia que deixou de ser marginal na internet para se integrar à cultura digital dominante, com forte presença em plataformas populares.
No TikTok e no YouTube Shorts, um jovem é exposto a conteúdo masculinista após apenas 23 minutos, de acordo com um estudo do University College de Dublin, citado no relatório.
Altamente diversos, os movimentos masculinistas "há muito se estruturam em torno de comunidades identificáveis", como os celibatários involuntários ("incels"), que culpam as mulheres por seu celibato. Mas eles "evoluíram gradualmente para um ecossistema mais amplo e difuso", principalmente por meio da fusão com a "cultura dominante da internet", explica o resumo do relatório.
"Não estamos diante de uma simples moda", afirmam as relatoras, mas de um fenômeno que se estrutura e se organiza, com impacto crescente na sociedade e potencial de radicalização, sobretudo entre homens jovens.
Entre performance e rejeição
É nesse contexto que se insere o caso de Clavicular. Seu conteúdo segue exatamente esses códigos: transformar interações sociais em espetáculo, medir o sucesso em tempo real e aplicar estratégias de sedução padronizadas.
Mas o episódio em Paris evidencia uma fratura: a lógica da performance digital nem sempre encontra aceitação fora das telas. Em um ambiente onde a abordagem direta e filmada de desconhecidos é vista com reserva, seu comportamento foi percebido como intrusivo.
Ao final de sua passagem por Paris, Clavicular acumulou visualizações, mas não o tipo de reconhecimento que esperava. Sua experiência funciona como um retrato das tensões entre cultura digital e realidade social.
Entre o palco das redes e as ruas das grandes cidades, o masculinismo se afirma como um fenômeno em expansão, mas também como um discurso que encontra, cada vez mais, resistência.
Um choque cultural e social
A reação do público, da indiferença à hostilidade, revela também um choque cultural. O que pode gerar engajamento em plataformas online, especialmente nos Estados Unidos, não necessariamente se traduz em reconhecimento social em outros contextos.
O episódio mostra como o masculinismo contemporâneo se alimenta de códigos globais, mas enfrenta limites quando confrontado com normas sociais locais.
Ao tornar o tema objeto de um relatório parlamentar, o Senado francês coloca o masculinismo no centro do debate público. As parlamentares defendem a necessidade de uma resposta coordenada, que envolva regulação das plataformas, prevenção da radicalização e conscientização da sociedade.
"O objetivo é despertar as consciências", insistem as relatoras, diante de um fenômeno que se difunde de maneira insidiosa e cada vez mais difícil de conter.
Risco de radicalização
O crescimento do masculinismo também levanta preocupações crescentes no campo da segurança. No início deste ano, o Alto Conselho para a Igualdade (HCE), ligado ao gabinete do Primeiro-Ministro, defendeu que o fenômeno deve ser tratado como uma verdadeira "questão de segurança pública". A instituição apontou para o risco de violência associado a essas ideologias e recomendou a integração do que chama de "terrorismo misógino" nas doutrinas de segurança.
Na França, essa ameaça já é monitorada pelos serviços de inteligência interna (DGSI). Segundo o relatório do Senado, cerca de uma dezena de indivíduos considerados suscetíveis de radicalização violenta - todos com menos de 21 anos - estão atualmente sob vigilância.
O alerta se tornou ainda mais concreto em julho de 2025, quando o Ministério Público Nacional Antiterrorista indiciou um estudante de 18 anos suspeito de planejar ataques contra mulheres com faca. Foi um caso inédito envolvendo um jovem que se identificava com a ideologia "incel", frequentemente associada a discursos masculinistas online.
Diante desse cenário, as autoridades defendem uma abordagem preventiva. "Assim como fizemos anteriormente com a radicalização islâmica, precisamos decodificar os primeiros sinais de alerta, chamar atenção das famílias e desenvolver contra-narrativas, o que é extremamente difícil", explica a senadora Laurence Rossignol.
Esse conjunto de sinais reforça a preocupação crescente das autoridades francesas: mais do que um fenômeno cultural ou digital, o masculinismo passa a ser encarado como um risco potencial de radicalização, com implicações diretas para a segurança pública.
Com AFP