Márcia Bechara, enviada especial a Avignon
Nem mesmo os gritos de comemoração dos gols da seleção francesa — na vitória contra o Marrocos por 2 a 0, na quinta-feira, ali pelas dez da noite (hora local) — interromperam o pacto silencioso que a trupe de Gwenaël Morin estabeleceu com o público nos jardins da Maison de Jean Vilar, em Avignon, no sul da França. O futebol da Copa do Mundo avançava pelas ruas de Avignon como uma onda sonora, mas a cena, instalada diante da fachada neoclássica do prédio, permanecia firme, como se o espetáculo tivesse criado seu próprio clima, impermeável ao ruído exterior. A cada explosão da torcida, os atores apenas respiravam, ajustavam o corpo, deixavam a vibração atravessar o espaço e seguiam, como se a vida ao redor fosse mais um elemento da dramaturgia.
Essa permeabilidade — rara, precisa, quase artesanal — não pode ser confundida com improviso. É uma escolha estética que Morin cultiva há anos. Sua pesquisa, marcada pelo projeto do "Théâtre Permanent", consolidou essa prática: um teatro que não se protege, que acolhe interferências externas como parte da dramaturgia, e que se deixa atravessar pelo mundo sem perder o eixo. Ontem, isso se tornou evidente. Os atores absorviam as vibrações da cidade com naturalidade, incorporando-as ao fluxo da peça como quem reconhece que o teatro é um organismo vivo, onde existe lugar para se rir, inclusive, da própria tragédia.
A fusão entre cena e entorno produziu uma intimidade inesperada. A história concebida por Eugene O'Neill — a releitura norte‑americana do mito dos Atridas, transposta para a Nova Inglaterra logo após a Guerra de Secessão — ganhou uma espessura nova quando interpelada por essa "vida real" que insistia em participar. A família Mannon, com sua cadeia de culpa, desejo, repressão e fatalidade, parecia ainda mais próxima quando os atores, experientes e atentos, deixavam que o ambiente interferisse na tensão dramática. O resultado foi um diálogo ampliado com a plateia, que não apenas assistia à tragédia, mas a vivia junto com ela, como se a casa maldita imaginada por O'Neill tivesse se expandido para incluir todos nós naquele jardim.
O elenco — Fabien-Aïssa Busetta, Virginie Colemyn, Kady Duffy, Julian Eggerickx, Barbara Jung e Grégoire Monsaingeon — sustenta a tensão contínua que caracteriza a trilogia. Cada gesto é calibrado para manter o drama em estado de crise, sem permitir que a cena se estabilize. É um teatro que se move no limite, como se cada palavra pudesse alterar o destino dos personagens.
Quando a tragédia norte‑americana reencontra o mito grego
O'Neill escreveu Mourning Becomes Electra em 1931 como uma tentativa de transplantar a Orestia para o solo norte‑americano. Em vez de deuses, ele instala a psicologia moderna: culpa, desejo, repressão, incesto e fatalidade familiar tornam-se forças tão determinantes quanto as divindades da tragédia antiga. A trilogia original — Homecoming, The Hunted e The Haunted — acompanha a espiral de destruição da família Mannon, culminando no autoencarceramento de Lavinia, a Electra moderna, que decide viver para sempre dentro da casa, como guardiã da própria maldição.
Morin preserva essa estrutura com rigor. Ele mantém o texto integral, inclusive seus trechos mais sombrios, que abordam incesto, suicídio e violência familiar. A escolha é estética e política: não suavizar a tragédia, não proteger o público, não transformar a dor em alegoria e, sobretudo, apostar na ironia que nasce cultivada pela cumplicidade com a plateia. A montagem, em cartaz no Festival de Avignon, assume a densidade de O'Neill e a devolve ao espectador sem filtros.
Nos jardins da Maison Jean Vilar, essa fidelidade ao texto ganha outra camada. A ausência de cenário — marca do trabalho de Morin — transforma o espaço em organismo vivo. A casa dos Mannon, que no texto é quase um personagem, aparece aqui como uma presença imaginária, construída pela relação entre os corpos, a luz e o entorno. A fachada neoclássica do prédio funciona como contraponto silencioso, sugerindo uma arquitetura moral que aprisiona os personagens.
A montagem, com 3h30 de duração, aposta numa fisicalidade intensa. Os atores se deslocam pelo jardim como se buscassem saídas que não existem. Morin encerra com esta obra seu ciclo avinhonês "Desmontar as muralhas para terminar a ponte", projeto que buscou aproximar o teatro da cidade, desfazendo fronteiras entre palco e rua. O luto cai bem em Electra aparece como culminação desse percurso: uma tragédia que, embora situada na América pós‑Guerra Civil, ressoa com debates contemporâneos sobre violência estrutural, heranças familiares e a impossibilidade de escapar de narrativas que nos precedem.
A montagem fica em cartaz até o dia 17 de julho no Festival de Avignon.