Frutas encolhem e verduras somem das prateleiras: França vive impacto das ondas de calor na agricultura

A França vive neste ano uma situação sem precedentes. Após mais de 50 dias de ondas de calor desde junho, um recorde no país, agricultores relatam queda acentuada na produção de hortaliças, dificuldades financeiras e perdas que já se refletem nas prateleiras dos supermercados. O verão de 2026 já ultrapassou os marcos registrados em 2003 e 2022, dois anos que ficaram conhecidos pelos episódios extremos de calor e seca.

19 ago 2026 - 11h52
(atualizado às 12h28)

Segundo análise da AFP com base em dados da agência meteorológica Météo-France, o país registrou 52 dias de ondas de calor desde meados de junho, um recorde desde o início das medições, em 1947. O número supera os 33 dias registrados em 2022 e os 22 dias observados durante o verão de 2003.

Ainda de acordo com a análise, várias ondas de calor se sucederam desde junho, em um contexto de seca generalizada, incêndios florestais e temperaturas recordes em boa parte da Europa Ocidental.

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As consequências da crise climática, porém, já não se limitam aos termômetros. Elas começam a aparecer também nas prateleiras dos supermercados e feiras francesas.

Seca reduz produção de hortaliças

Uma reportagem do canal TF1 mostrou que, na prática, a falta de chuva atingiu fortemente a produção agrícola em diversas regiões do país. Produtores relatam perdas importantes na colheita de hortaliças como couve-flor, brócolis, alcachofra e alface. Segundo a emissora, agricultores estimam que a produção tenha recuado até 70% em algumas áreas afetadas pela seca.

A escassez de água fez com que muitas plantações deixassem de crescer ou até regredissem, fenômeno descrito por agricultores como uma espécie de "marcha à ré" das saladas, que deixam de se desenvolver e chegam a encolher sob o efeito do calor extremo. A variedade de verduras é cada vez menor e, em alguns supermercados, elas já começam a desaparecer das prateleiras.

A situação também preocupa para os próximos meses. Ainda de acordo com o canal, culturas de inverno, especialmente a couve-flor, já apresentam perdas importantes devido ao déficit hídrico. Em algumas lavouras, parte dos vegetais secou antes mesmo de completar seu desenvolvimento.

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Frutas menores nas prateleiras

A Franceinfo mostra que a mudança já pode ser percebida pelos consumidores. Frutas e legumes chegam aos mercados menores do que o habitual e, em alguns casos, com aparência menos atraente. Um produtor entrevistado pela emissora relatou que muitas couves-flores não cresceram adequadamente por falta de umidade e pelas temperaturas excessivamente elevadas.

Na região da Drôme, no sudeste francês, produtores de pêssego afirmam colher frutas menores do que o normal. "Hoje temos frutas com quase metade do tamanho", explica um pomicultor ao portal de notícias.

Diante dessa realidade, a principal federação da grande distribuição francesa anunciou que os supermercados aceitarão mais facilmente produtos fora dos padrões tradicionais de tamanho e aparência. A medida busca evitar desperdícios e compensar parte das perdas provocadas pela estiagem, segundo a Franceinfo.

À RFI, Juliana Schittini, chef brasileira em um restaurante de Paris, afirma que a diferença é pouco perceptível nos produtos entregues ao estabelecimento, que trabalha apenas com ingredientes orgânicos. Segundo ela, as hortaliças continuam chegando com boa qualidade. No dia a dia, porém, a situação é diferente.

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"Nos grandes supermercados, onde a demanda é muito alta, acho que realmente fica difícil manter a mesma qualidade com um período de seca como o que estamos vivendo. Nos últimos tempos, nem sempre encontro frutas e legumes de boa qualidade no supermercado perto da minha casa", relata.

Agricultores e criadores de animais enfrentam perdas crescentes

Enquanto isso, produtores rurais enfrentam dificuldades cada vez maiores. Em entrevista à rádio Ici Gironde, o presidente da Câmara de Agricultura da Gironda, Jean-Samuel Eynard, afirmou que "quase todas as produções" agrícolas do departamento serão afetadas este ano.

Segundo ele, os impactos vão além da Gironda e atingem boa parte do sudoeste francês. Localizada na região de Bordeaux, a Gironda foi uma das áreas mais afetadas pelos grandes incêndios florestais registrados neste verão.

Os produtores enfrentam simultaneamente a falta de água, os efeitos dos incêndios, a queda dos preços do leite e da carne e o aumento dos custos de produção. Criadores de animais já relatam escassez de forragem para alimentar os rebanhos.

Esta fotografia mostra vacas em uma pastagem ressecada pela onda de calor em Saint-Pierre-des-Ifs, na região da Normandia, no noroeste da França, em 18 de agosto de 2026.
Esta fotografia mostra vacas em uma pastagem ressecada pela onda de calor em Saint-Pierre-des-Ifs, na região da Normandia, no noroeste da França, em 18 de agosto de 2026.
Foto: RFI

Vinhos e turismo também sofrem

No setor vitivinícola, Eynard prevê uma colheita menor do que a do ano passado, que ele próprio classificou como "catastrófica".

O dirigente agrícola alertou ainda para o desgaste psicológico dos produtores. Segundo ele, muitos agricultores já não pedem ajuda para retomar a produção, mas para encerrar suas atividades e mudar de profissão.

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Além das perdas agrícolas, os produtores que dependem do turismo também foram afetados pelas evacuações provocadas pelos incêndios e pela redução do fluxo de visitantes, informou a rádio Ici Gironde.

Uma agricultura sob pressão climática

Para especialistas, a situação reforça a necessidade de adaptação da agricultura francesa a um clima cada vez mais quente e seco. Entre as medidas discutidas estão a ampliação dos sistemas de armazenamento de água e novos investimentos em irrigação, soluções que exigem recursos elevados e que muitos produtores afirmam não ter condições de financiar sozinhos.

O verão de 2026 poderá entrar para a história como o mais quente já registrado na França. Para agricultores e consumidores, porém, seus efeitos já são concretos: frutas menores, hortaliças mais escassas e um setor agrícola que tenta se adaptar a uma nova realidade climática marcada por eventos extremos cada vez mais frequentes.

A RFI é uma rádio francesa e agência de notícias que transmite para o mundo todo em francês e em outros 15 idiomas.
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