França: transportadoras protestam contra ajuda do governo para aliviar alta dos combustíveis

O pacote do governo francês de cerca de € 70 milhões destinado a agricultores, pescadores e transportadoras — os mais afetados pela alta dos preços dos combustíveis — gera indignação no setor, que nesta segunda‑feira (30) organizou uma operação‑tartaruga no anel viário de Paris.

30 mar 2026 - 10h51

Cerca de cinquenta caminhões e ônibus de turismo, acompanhados por outros veículos, organizaram um buzinaço por volta das 10h, no horário local. A mobilização foi convocada pela Organização dos Transportadores Rodoviários Europeus (Otre). De acordo com a entidade, a ajuda do Estado "não está à altura", citando como exemplo o plano de € 400 milhões liberado após o início da guerra na Ucrânia, em 2022.

Caminhoneiros e motoristas de ônibus reduzem a velocidade na marginal, em Paris, durante protesto contra a alta dos combustíveis, nesta segunda‑feira (30)
Caminhoneiros e motoristas de ônibus reduzem a velocidade na marginal, em Paris, durante protesto contra a alta dos combustíveis, nesta segunda‑feira (30)
Foto: AFP - STEPHANE DE SAKUTIN / RFI

Em abril, as transportadoras terão direito a uma ajuda de cerca de € 50 milhões, destinada a empresas em dificuldade, que receberão o equivalente a € 0,20 por litro de combustível. "Precisaríamos de 50 centavos. Caso contrário, haverá falências. Não dá para continuar trabalhando no prejuízo", afirma Sarah Bahezre, tesoureira da federação de empresas de ônibus independentes e gerente da locadora Ulysse Cars.

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"Viajamos por toda a Europa, rodamos muito, com diesel — que passou de € 1,60 para € 2,30. Imagine!", diz ela, explicando que ainda não pode repassar esse aumento aos contratos, "porque são viagens negociadas anteriormente".

A organização reivindica "uma ajuda direta" para compensar a alta do combustível e "uma ajuda fixa por veículo, seja ônibus ou caminhão". Em entrevista à rádio Europe 1, o ministro dos Transportes, Philippe Tabarot, disse que as ajudas anunciadas poderão ser "eventualmente renovadas, se a situação persistir, em maio ou junho". O ministro rejeitou comparações com o pacote concedido após a invasão da Ucrânia, alegando que "a situação orçamentária do país não é a mesma". 

Desde o início da crise energética provocada pela guerra no Oriente Médio, o governo descarta reduzir impostos sobre combustíveis, que representam entre 50% e 55% do preço final na bomba. O primeiro‑ministro Sébastien Lecornu reiterou na sexta‑feira (27) o compromisso de controlar as contas públicas, "aconteça o que acontecer".

Nesta segunda, o premiês francês recebeu o presidente da FNSEA (Federação Nacional dos Sindicatos de Agricultores), Arnaud Rousseau, também muito insatisfeito com o pacote destinado aos agricultores.

Isenção no diesel

Em abril, os agricultores terão isenção do imposto sobre o diesel não rodoviário (GNR), usado em tratores, com custo estimado em € 14 milhões — o que representa uma redução de "quatro centavos por litro", segundo fonte do governo.

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"Dar apenas quatro centavos quando tivemos um aumento de mais de 60 centavos por litro de combustível... isso são migalhas. Se eu fosse menos educado, diria que é uma palhaçada", criticou na sexta‑feira Luc Smessaert, vice‑presidente da FNSEA, prometendo "ações" caso os agricultores não sejam atendidos.

O presidente do grupo Mousquetaires/Intermarché, Thierry Cotillard, afirmou ao canal francês RMC/BFMTV temer que a pressão inflacionária que pesa sobre categorias como os agricultores acabe sendo repassada "nas próximas semanas" aos industriais. Segundo ele, "esses fornecedores podem chegar e dizer: 'Escutem, Intermarché, Carrefour, Leclerc, não posso continuar vendendo a esse preço'".

Com agências

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