França: após reunião com ministro, organizações estudantis do ensino médio convocam novos protestos

O movimento dos estudantes do ensino médio cresceu ao longo da semana, e as organizações estudantis convocaram uma terceira jornada de mobilização para terça-feira (6), além de uma grande manifestação nacional. O ministro francês da Educação, Édouard Geffray, recebeu nesta sexta-feira (2) os três principais sindicatos estudantis do país, mas as medidas propostas pelo governo francês decepcionaram os representantes dos alunos.

3 out 2026 - 09h49
Resumo
Estudantes do ensino médio na França convocaram novos protestos após considerarem insuficientes as propostas do Ministério da Educação para resolver problemas de infraestrutura e sobrecarga. A mobilização já afetou centenas de escolas, resultou em confrontos com a polícia e em mais de 5 mil detenções. Com o apoio crescente de universitários, professores e políticos da oposição contra a repressão policial, o movimento pode se intensificar e ganhar a adesão formal de sindicatos de trabalhadores.

As principais queixas dos estudantes franceses envolvem a sobrecarga de trabalho, a falta de infraestrutura dos estabelecimentos e as preocupações com a saúde mental. Eles afirmam que suas reivindicações foram ouvidas, mas que poucas propostas concretas foram apresentadas. O ministro francês anunciou o lançamento de uma plataforma de consulta voltada aos estudantes do ensino médio. A iniciativa foi recebida de forma positiva, apesar de considerada insuficiente.

Representantes de organizações estudantis deixam reunião com o ministro da Educação da França, Édouard Geffray, em Paris; entidades consideraram insuficientes as medidas apresentadas pelo governo e convocaram novos protestos para 6 de outubro.
Representantes de organizações estudantis deixam reunião com o ministro da Educação da França, Édouard Geffray, em Paris; entidades consideraram insuficientes as medidas apresentadas pelo governo e convocaram novos protestos para 6 de outubro.
Foto: AFP - LUDOVIC MARIN / RFI

"Não obtivemos compromissos concretos. Estamos um pouco decepcionados, mas agora precisamos trabalhar junto ao ministério e continuar a mobilização nas escolas para manter a pressão e conseguir medidas efetivas", declarou Louis Letoublon, vice-presidente do sindicato Les Lycéens.

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Os protestos em frente às escolas para exigir melhores condições de ensino e mais recursos para a educação pública, iniciados em 17 de setembro, afetaram 735 estabelecimentos de ensino na sexta-feira, segundo o Ministério da Educação.

A tropa de choque entrou em confronto com manifestantes em várias cidades da França e utilizou gás lacrimogêneo. Cenas de violência marcaram as manifestações, e vídeos que circularam nas redes sociais mostram policiais agredindo adolescentes.

Um dos vídeos, gravado em frente a um liceu situado no 9º distrito de Paris e divulgado pelo jornal francês Le Parisien, mostra professores dando as mãos e se interpondo entre policiais e estudantes para protegê-los. De acordo com o ministro do Interior, Laurent Nuñez, mais de 5 mil pessoas foram detidas desde segunda-feira.

"O objetivo é realizar mobilizações pacíficas para sermos ouvidos, e esses vândalos acabam prejudicando completamente nossa causa ao incendiar nossas escolas", lamentou também Maëlle, aluna do liceu François-Mauriac, em Bordeaux, que foi danificado por um incêndio na quinta-feira (1º).

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Manifestações podem ganhar força

As manifestações devem ganhar ainda mais força se tiverem adesão das universidades, analisa o historiador Stéphane Sirot, especialista em movimentos sociais, em entrevista à RFI. "Se isso acontecer, as organizações sindicais de trabalhadores terão de tomar posição e talvez oferecer algum tipo de apoio", explica.

"Nesse caso, a situação se aproximaria, guardadas as proporções, do movimento de 2006 contra o CPE (Contrato de Primeiro Emprego), derrotado após uma ampla mobilização inicialmente liderada por estudantes do ensino médio. Mas há uma diferença importante: desta vez existe uma multiplicidade de reivindicações, e algumas delas podem abrir espaço para negociações", explica. "Existem algumas universidades onde se observa o início de uma mobilização, mas ela ainda não é tão forte quanto nas escolas de ensino médio", afirma Sirot.

Os estudantes universitários manifestam solidariedade ao movimento. A presidente da União Estudantil, Eloïse Lefebvre Milon, pediu aos universitários que se juntassem aos estudantes do ensino médio. "Compartilhamos as mesmas reivindicações: mais investimentos para a juventude, porque ela representa o futuro do país e não pode continuar sofrendo com tamanho subfinanciamento", declarou. "Os jovens que estão hoje no ensino médio e na universidade serão os trabalhadores de amanhã e aqueles que terão de enfrentar as crises climáticas e sociais. É preciso formá-los à altura desses desafios."

Deputado pede apoio dos adultos

O deputado ecologista Pouria Amirshahi pediu neste sábado (3) que pais e todos os adultos apoiem os estudantes na nova jornada de mobilização prevista para terça-feira, usando um "capacete branco" na cabeça. "Faço um apelo a todos os adultos, sejam pais ou não, e sem interferir de qualquer forma em um movimento que pertence aos estudantes, para que fiquem ao lado deles e demonstrem apoio ao seu legítimo direito de se expressar livremente", escreveu o parlamentar.

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Ele lamentou que, desde o início dos bloqueios, "a única resposta" do governo tenha sido uma "repressão indiscriminada em diversas cidades da França". "Podemos, com um capacete branco na cabeça, mostrar que respeitamos o desejo deles por um futuro melhor", afirmou. Segundo ele, esse gesto remete às manifestações de 1986 contra o projeto de lei Devaquet, quando os chamados "capacetes brancos" se colocavam entre a polícia e os estudantes para protegê-los.

O líder da França Insubmissa, Jean-Luc Mélenchon, acusado pelo governo, pela direita e pela extrema direita de incentivar a violência, também pediu na sexta-feira que a população use, em 6 de outubro, "braçadeiras brancas" para "proteger nossos jovens".

Ao fim de uma nova jornada de bloqueios na sexta-feira, marcada por tensões, as organizações estudantis convocaram a continuidade da mobilização na terça-feira por considerarem insuficientes as medidas apresentadas pelo ministro da Educação. A mobilização também provocou danos materiais em alguns colégios e liceus, com custos estimados em vários milhões de euros pelas regiões de Île-de-France, Grand Est, Hauts-de-France e Auvergne-Rhône-Alpes.

Com agências

A RFI é uma rádio francesa e agência de notícias que transmite para o mundo todo em francês e em outros 15 idiomas.
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