Autentificação de mensagens antissemitas atribuídas a líder da extrema direita francesa gera polêmica

Após ter sido acusado de propagar uma "mentira descarada", o site de investigação francês Mediapart revelou na noite de quinta-feira (1°) supostas provas de mensagens de cunho antissemita que teriam sido escritas pelo presidente do partido Reunião Nacional (RN) e eurodeputado, Jordan Bardella. O escândalo abala a extrema direita a poucos meses da eleição presidencial francesa.

2 out 2026 - 12h46
Resumo
O site Mediapart divulgou mensagens antissemitas atribuídas a Jordan Bardella, líder da extrema direita francesa, enviadas entre 2013 e 2015 via Facebook. O veículo sustenta a autenticidade do material com base em dados validados judicialmente, e-mails e detalhes biográficos. Bardella e sua aliada Marine Le Pen negam veementemente as acusações, alegando montagem e prometendo processos por difamação. O escândalo gerou forte repúdio da classe política em meio à corrida eleitoral de 2027.

Três dias após as primeiras revelações, o site publicou prints de supostas conversas comprometedoras de Bardella, de 31 anos, em um momento em que a legenda avança nas pesquisas de intenção de voto para as eleições presidenciais francesas de 2027. "Temos 100% de certeza sobre o que publicamos", afirma Fabrice Arfi, jornalista da equipe de investigação do veículo.

O presidente do Reunião Nacional denunciou "montagens grosseiras", "prints manipuláveis" e que não provam a sua autoria. "Essas não são provas e não resistirão nem por um segundo diante de um tribunal", declarou. Bardella promete apresentar uma queixa por falsificação e uso de documento falsificado, além da ação por difamação já registrada. 

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No foco do escândalo, estão mensagens atribuídas a ele, que datam de 2013 e 2015. Na época, Bardella era um jovem militante do então Frente Nacional, que seria renomeado Reunião Nacional em 2018.

Fontes entrevistadas pelo site, próximas a Bardella, apontam que neste período ele demonstrava forte interesse por teorias antissemitas e conspiracionistas relacionadas aos judeus e a Israel.

Entre os trechos revelados pela reportagem na segunda-feira (28), Bardella teria escrito que "o judeu tem que dominar outros povos, esmagá-los e roubá-los. Um sionista é necessariamente um judeu, e profundamente judeu". Em outras mensagens, teria acrescentado: "É isso que eles querem, uma Nova Ordem Mundial dominada por Israel, com Jerusalém, é claro, como capital" e que, na França, os "ministérios mais importantes" estão sob "a responsabilidade de pessoas que atuam em prol dos interesses de Israel".  

Verificação das acusações

Em uma longa reportagem publicada em seu site, o Mediapart explica ter conversado com 18 pessoas ao longo de sua investigação. Os trechos revelados fariam parte de conversas de Bardella no chat do Facebook, transferidas por duas fontes diferentes, que faziam parte do círculo do então militante, e sem "nenhuma relação entre elas".

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Em entrevista à emissora Franceinfo, o jornalista Fabrice Arfi explicou que a apuração teve início no primeiro semestre deste ano. Segundo ele, a reportagem do Mediapart recebeu inicialmente capturas de tela dessas mensagens, antes de consultar a íntegra das conversas para poder validar a veracidade do conteúdo. 

O Mediapart pediu inicialmente para uma das fontes solicitar à Meta, empresa que gerencia o Facebook, a cópia das conversas, o que permitiu ao site conferir a data original de publicação, para atestar que elas não tivessem sido modificadas posteriormene. O veículo afirma ainda que essa extração de dados foi validada por um oficial de justiça em 29 de setembro.

Outro cuidado do Mediapart diz respeito à verificação do perfil relacionado às mensagens para descartar que as publicações pudessem constar de um perfil falso com o nome Jordan Bardella. Segundo o site, elementos biográficos revelados nas conversas pelo usuário da conta em questão demonstram que o perfil pertencia ao hoje presidente do maior partido de extrema direita da França.

Nas mensagens verificadas, o autor afirma, por exemplo, que a mãe nasceu na Itália e o pai na França, e menciona uma entrevista concedida ao jornal Le Parisien em 2013 em que atribui sua reprovação no processo seletivo da Sciences Po de Paris ao alto custo dos cursos preparatórios particulares - um episódio que Bardella só viria revelar em sua autobiografia, publicada em 2024.

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O veículo afirma ainda ter autenticado dois endereços de e-mail relacionados ao perfil que pertenceram a Jordan Bardella entre 2012 e 2014. "O primeiro endereço, cujo identificador contém o nome e o sobrenome de Jordan Bardella, aparece em uma lista de filiados da Frente Nacional da Juventude (FNJ), cuja autenticidade pudemos confirmar", explica o Mediapart. Um segundo endereço ligado à conta corresponde ao que era utilizado pelo militante em suas atividades políticas em Seine-Saint-Denis, na região parisiense. 

Classe política reage às novas revelações

A classe política francesa reage em peso aos prints revelados pelo Mediapart e as explicações do site sobre seu trabalho de investigação.

"É preciso esperar para ver o que a Justiça vai dizer antes de tomar uma posição", afirmou o presidente do partido de direita Os Republicanos ao canal BFMTV. Segundo ele, as declarações atribuídas a Bardella podem ser "arrasadoras e lamentáveis", "caso sejam "verdadeiras".

"Será que queremos um primeiro-ministro que não só é antissemita, mas que também mente para os franceses diante de provas que o comprometem?", questionou o ministro da Justiça, Gérald Darmanin, em entrevista à rádio RTL. O político centrista refere-se ao fato de Bardella ser apontado como o futuro premiê da França, no caso de vitória da candidata do Reunião Nacional, Marine Le Pen, nas eleições presidenciais de 2027.

"Temos aqui um duplo problema: o antissemitismo e a mentira na política. Nenhum dos dois é perdoável", afirmou à mesma rádio o líder do Partido Socialista francês, Olivier Faure. 

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Logo que a primeira reportagem do Mediapart foi publicada, Marine Le Pen denunciou uma suposta "armação" e saiu em defesa de seu aliado político. "Espero que todas as pessoas citadas entrem imediatamente com uma ação por difamação contra o Mediapart, que me parece estar fazendo acusações simplesmente insanas", afirmou a líder da extrema direita. 

Apesar de ter sido questionado no último sábado (26) pela equipe do site antes da publicação da primeira reportagem, Bardella não teria informado à direção de campanha do partido. Segundo o jornal Le Monde, há rumores de que Le Pen também tenha sido surpreendida pelas revelações. 

O diário afirma que Bardella jurou à sua equipe e a Marine Le Pen que jamais havia proferido qualquer declaração antissemita, em público ou no privado, tanto quando era menor de idade quanto depois de adulto. Le Monde publica que a confirmação foi suficiente para que os representantes do RN apostassem numa estratégia de comunicação que consiste em afirmar repetidamente que o presidente do partido é "incapaz" de ser ou de ter sido antissemita, e atacar duramente o Mediapart pelas revelações.

A RFI é uma rádio francesa e agência de notícias que transmite para o mundo todo em francês e em outros 15 idiomas.
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