Reunida em Lisboa, a diáspora ucraniana mobiliza mulheres altamente qualificadas — 76% com ensino superior — para planejar a reconstrução do país no pós-guerra. A iniciativa busca aproveitar o capital humano, redes de contato e experiências no exterior sem exigir o retorno físico, atuando na ponte com governos e empresas estrangeiras. O movimento também foca na preservação da identidade cultural e linguística das crianças refugiadas, garantindo sua integração local sem perda dos vínculos com a Ucrânia.
Kseniya Zhornokley, enviada especial da RFI a Lisboa
Elas moram em países como Portugal, Bélgica ou até mesmo dos Estados Unidos, e as organizações às quais pertencem já existiam muito antes da guerra. Nos Estados Unidos, por exemplo, a União Nacional das Mulheres Ucranianas foi fundada há mais de 100 anos.
Hoje, essa diáspora ganhou outra dimensão. Estima-se que entre 20 milhões e 25 milhões de ucranianos vivam fora de seu país, mais de quatro anos depois do início da guerra contra a Rússia. Haveria quase tantos ucranianos no exterior quanto na própria Ucrânia.
A guerra também transformou profundamente essa diáspora. Entre os milhões de ucranianos que deixaram o país desde 2022, um grande número são mulheres e crianças.
Além disso, essa nova diáspora é altamente qualificada. Segundo a Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE), 76% das mulheres que fugiram da Ucrânia possuem diploma de ensino superior. Muitas já tinham carreira e ocupavam cargos qualificados na Ucrânia.
Hoje, após vários anos no exterior, elas também adquiriram outras experiências: falam pelo menos uma língua estrangeira, conhecem o funcionamento e a cultura do país de acolhimento e desenvolveram suas próprias redes de contato nesses locais. Tudo isso representa um importante capital humano para a futura reconstrução da Ucrânia.
Reconstruir sem necessariamente voltar à Ucrânia
Que papel essas mulheres podem desempenhar na reconstrução? Para Mariana Yevsyukova, vice-presidente da Federação Mundial de Organizações de Mulheres Ucranianas, o processo não passa necessariamente pelo retorno à Ucrânia: ela avalia que os cidadãos que permanecerem no exterior também podem se tornar úteis para o seu país.
"Essas pessoas possuem conhecimentos, competências e experiência", ressalta. "É dessa experiência inestimável que precisamos hoje para melhorar nosso país e fazê-lo avançar", declara.
Na prática, a vivência no exterior pode ser aproveitada de várias maneiras: atrair a atenção para a Ucrânia, criar contatos com empresas ou instituições locais, acompanhar projetos e também transmitir práticas profissionais conhecidas nos países europeus. Essas pessoas deixam de trabalhar apenas para os ucranianos e passam a atuar como interlocutoras junto a governos, autoridades locais, meios de comunicação ou empresas dos países onde residem.
Crescer no exterior sem perder o vínculo
Há também a questão da preservação da identidade ucraniana das crianças que crescem no exterior. Reerguer um país não significa apenas refazer estradas, escolas ou moradias: é preciso pessoas para reconstruí-lo.
A questão do capital humano passou a integrar as discussões. Para essas organizações de mulheres presentes em Lisboa, preservar a identidade ucraniana envolve a existência de escolas ucranianas no exterior e o aprendizado do idioma, mas também a transmissão da cultura e das tradições. O objetivo não é impedir que essas crianças se integrem ao país de acolhimento, mas sim que se integrem sem perder o vínculo com a Ucrânia, sem assimilação.
Desde a conferência sobre a reconstrução da Ucrânia realizada em Roma, várias organizações da diáspora vêm trabalhando juntas no âmbito de uma Aliança das Diásporas para a Reconstrução da Ucrânia. A ideia é que, mesmo vivendo no exterior, os ucranianos podem manter vínculos com seu país e participar de seu futuro.