Maria Paula Carvalho, de Paris
Organizado pela associação "Os Aprendizes da Esperança" (Les Apprentis de l'Espérance), o encontro na Faculdade de Direito de Malakoff, na Grande Paris, permitiu uma troca de experiências de sucesso nos ramos da sustentabilidade, inovação tecnológica, turismo, patrimônio, ativismo e engajamento social.
O painel foi aberto por representantes da CSSC, a rede Corporate Sustainability in Support of Culture, que tem como objetivo ajudar empresas a integrar a cultura e a diversidade cultural em suas estratégias de desenvolvimento suntentável.
"Avaliamos que tipo de iniciativas a empresa adota para promover mais diversidade nas relações com os empregados, entre eles, e também como a empresa interage com a sociedade nesse aspecto cultural", explica Lilian Hanania, advogada e professora, uma das fundadoras da CSSC. "A empresa tem ligações com comunidades locais? Influencia políticas públicas? Financia artistas ou a indústria criativa do local onde atua?", questiona, apontando alguns padrões a serem medidos para a obtenção do selo IDC, que distingue empresas que integram a diversidade cultural em suas estratégias de sustentabilidade.
"Ainda há poucas empresas que têm essa visão de que a cultura faz parte da sustentabilidade", continua. "Hoje, temos duas empresas brasileiras que receberam esse selo: o escritório de advocacia Machado Meyer, com sede em São Paulo, e uma microempresa, a franquia de sorvetes Mister Mix", de Mogi Guaçu, também em São Paulo, revela. Na França, uma das empresas que aceitaram o desafio de incluir a cultura em suas estratégias é a fabricante de pneus Michelin.
"Existe essa preocupação aqui na França, mas o Brasil está em um momento particularmente favorável para discutir essas questões", explicou Hanania, em entrevista à RFI.
Cadeias de valor na Amazônia
O engenheiro e consultor Tobia Ferraro atua em projetos de inovação social na Amazônia brasileira, com foco na estruturação de cadeias produtivas locais. Em Santarém, iniciativas desse tipo vêm organizando agricultores familiares e comunidades tradicionais em torno de cooperativas e pequenas agroindústrias, permitindo agregar valor à produção, como derivados da mandioca, frutas e produtos da floresta, e conectar essas cadeias ao mercado.
"Um exemplo vem dos seringais do Pará, que decaíram muito e deixaram de ser competitivos em relação ao mercado asiático e mesmo à borracha plantada em São Paulo. Esse setor ficou dormente por muito tempo", conta. Até que uma organização de Santarém, chamada Saúde e Alegria, retomou a produção com o uso de recursos do Fundo Amazônia, explica. "Hoje eles consolidam a borracha extraída pelos seringueiros do território e exploram cadeias de valor amazônicas, como sementes florestais, óleos e manteigas vegetais extraídos de frutos brasileiros", completa.
"É muito importante poder agregar valor a esse tipo de produto agroextrativista, que sustenta 400 famílias da região, espalhadas por 60 comunidades", calcula. "Entre essas comunidades há quilombolas e indígenas, que têm uma riqueza cultural muito grande e que agora podem contar com geração de renda para prosperar", comemora.
Outros saberes
A filósofa brasileira Caroline Isidoro Marinho trabalha na aproximação de diferentes tipos de saberes, como o acadêmico e o popular. Atualmente morando em Toulouse, no sul da França, ela estuda como facilitar o diálogo cultural por meio de ferramentas artísticas, da dança, da música e da oralidade. "Um dos pontos em comum entre Brasil e França são os afetos", continua a pesquisadora, que na França se interessa especialmente pelo universo associativo.
"A minha pesquisa investiga como a forte experiência francesa em trabalho associativo e comunitário pode se unir aos conhecimentos populares para facilitar o diálogo entre os dois países, dentro de práticas pedagógicas", conclui.
Literatura de Cordel como ferramenta de integração
Já a francesa Sophie Foray encontrou na literatura de cordel uma ponte entre a educação no Brasil e na França. Ela promove intercâmbios entre alunos de escolas públicas dos dois países em torno desse tipo de poesia popular brasileira, muito ligada ao Nordeste, feita em versos rimados e tradicionalmente publicada em pequenos folhetos vendidos em feiras.
"O Brasil ainda sofre com uma visão no exterior que é muito estereotipada, especialmente no que diz respeito às culturas do Nordeste", afirma, em entrevista à RFI. "Essas culturas não são reconhecidas como deveriam, apesar de sua riqueza e de serem um exemplo de cultura viva", continua. "Sempre olhamos para o Brasil com um olhar exótico, como se houvesse apenas praias, samba, futebol, mulheres e festas", diz, acrescentando que "o Brasil tem uma história de miscigenação e de antropofagia".
"Eu uso a literatura de cordel como mediação entre as crianças", explica, "pois ela é uma ferramenta muito potente de instrução e de circulação de narrativas populares".