Júlia Valente, correspondente da RFI em Milão
A primeira cúpula bilateral entre o presidente francês, Emmanuel Macron, e a primeira-ministra da Itália, Giorgia Meloni, acontece nesta quinta-feira (25), em Antibes, no sul da França. Embora os dois líderes se encontrem com frequência em diversas ocasiões, esta é a primeira vez que os governos organizam uma cúpula bilateral para discutir exclusivamente a relação entre Itália e França.
A expectativa é que o encontro sirva para descongelar a parceria entre Roma e Paris e relançar uma cooperação que perdeu força nos últimos anos. Em 2021, ainda durante o governo de Mario Draghi, os dois países assinaram o Tratado do Quirinale, com o objetivo de reforçar a cooperação em áreas como defesa, migração, cultura e energia. O acordo também previa a realização de uma cúpula anual para acompanhar o avanço dessa parceria. No entanto, Meloni assumiu o cargo de primeira-ministra no ano seguinte à assinatura do tratado, e as divergências políticas com Macron acabaram contribuindo para que o acordo, apesar de estar em vigor, não apresentasse novos avanços.
Meloni dirige um governo de direita, liderado pela extrema direita, enquanto Macron é um centrista que governa com a direita, com uma agenda econômica liberal. Por isso, a cúpula é vista como uma oportunidade para destravar esse tratado e definir um roteiro para reforçar a cooperação entre os dois países. Cada delegação será representada por nove ministros, em discussões que devem abranger diversos temas.
Defesa e segurança
No centro dos debates deve estar o fortalecimento da defesa europeia e da cooperação entre as indústrias de defesa da França e da Itália. Há ainda a expectativa de avanços em acordos ligados à segurança no Mediterrâneo.
Em entrevista à imprensa italiana, Giorgia Meloni indicou que também estará em pauta o futuro da Unifil, a missão de paz da ONU no Líbano. O mandato da missão termina no fim deste ano e, então, está prevista a retirada gradual das tropas. Em meio às tensões na região, porém, Itália e França devem buscar uma cooperação para manter a presença internacional no sul do Líbano.
Na véspera, Macron e Meloni se reuniram em Berlim
A cúpula bilateral acontece um dia depois de Macron e Meloni participarem de uma reunião com Alemanha, Reino Unido e Polônia - grupo chamado de E5. O foco foi a preparação para a cúpula da OTAN, que acontece nos dias 7 e 8 de julho, em Ankara, na Turquia. O encontro contou também com a participação remota do secretário-geral da aliança, Mark Rutte.
O objetivo era demonstrar unidade entre as principais potências europeias antes da reunião da OTAN. Dois temas estiveram no centro das discussões: o reforço da defesa europeia e a guerra na Ucrânia.
A questão ucraniana vinha sendo discutida principalmente pelo chamado E3, formado por França, Alemanha e Reino Unido. A exclusão de Roma incomodava Meloni, que defende um formato mais amplo e representativo dos países europeus. Por isso, a participação da Itália no encontro de quarta-feira também teve um peso simbólico importante.
Em relação à Ucrânia, no entanto, ainda existem diferenças entre Macron e Meloni. O presidente francês não descarta o envio de tropas europeias após um eventual cessar-fogo e defende uma adesão mais rápida de Kiev à União Europeia.
A premiê italiana, por outro lado, adota uma posição mais cautelosa e se opõe às duas propostas. Sobre a entrada da Ucrânia no bloco, Meloni defende que o processo siga as regras tradicionais, sem prejudicar países dos Bálcãs que aguardam há anos para ingressar na União Europeia.
França e Itália sinalizam deixar as divergências de lado
A relação entre Emmanuel Macron e Giorgia Meloni foi marcada por divergências nos últimos anos. Macron defende uma Europa mais integrada, enquanto Meloni adota uma linha mais nacionalista.
Ainda assim, a premiê italiana moderou o discurso desde que chegou ao poder. Apesar das diferenças com Macron, evitou apoiar abertamente adversários políticos do francês ideologicamente mais próximos a ela, como Marine Le Pen e Jordan Bardella.
Mesmo assim, os dois líderes acumularam momentos de tensão ao longo dos últimos anos. Um dos episódios mais delicados foi a polêmica sobre o direito ao aborto durante a cúpula do G7 realizada na Puglia, em 2024. A ausência de uma referência explícita ao tema no documento final desagradou Emmanuel Macron, que fez críticas ao governo italiano.
Outro ponto de atrito foi a tentativa de Meloni de se apresentar como uma ponte entre Donald Trump e os países europeus, estratégia que nunca foi vista com muito entusiasmo pelo governo francês.
Por isso, a cúpula desta quinta-feira é interpretada como um gesto importante de reaproximação. O encontro sinaliza que Roma e Paris estão dispostas a deixar de lado parte das divergências dos últimos anos para fortalecer a cooperação entre os dois países.