Onda de calor transforma ar-condicionado em pauta política na França

A corrida por uma solução para o calor extremo divide a classe política na França. Enquanto alguns líderes defendem o ar-condicionado como uma ferramenta indispensável de adaptação às mudanças climáticas, outros alertam que sua adoção em larga escala pode agravar o problema ao aumentar o consumo de energia e contribuir para o aquecimento global. Diante da intensidade das ondas de calor, porém, muitos têm sido obrigados a rever suas posições sobre o tema.

24 jun 2026 - 14h41

Por muito tempo desprezado pelos franceses, o ar-condicionado passou a ocupar o centro do debate no país nos últimos meses. Com os termômetros ultrapassando os 40°C em algumas regiões, um assunto que normalmente se limitava à escolha de marcas e modelos transformou-se em pauta política.

Na França, o ar-condicionado continua sendo raro nas residências e praticamente inexistente em hospitais, estabelecimentos de ensino e outros edifícios públicos. A onda de calor dos últimos dias levou o governo a fechar escolas, colocar hospitais em estado de alerta e recomendar que as empresas permitissem o trabalho remoto sempre que possível.

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A situação é particularmente difícil para pacientes e profissionais de saúde, que, em muitos casos, permanecem em prédios mal isolados e sem sistemas de refrigeração adequados. Em diversos setores, os trabalhadores também tiveram jornadas adaptadas, com interrupção de obras durante as horas mais quentes do dia, e sofrem com maior desgaste físico, além dos impactos econômicos provocados pelas altas temperaturas.

Nesse contexto, a procura por aparelhos de ar-condicionado e ventiladores disparou. O grupo Carrefour informou ter vendido, na última segunda-feira (22), "mil vezes mais" unidades do que o habitual na França.

Oposições

Com o governo sob pressão por medidas para enfrentar a onda de calor, a questão chegou à classe política.

"A questão não é ser a favor ou contra o ar-condicionado, mas sim a favor ou contra sua adoção em larga escala", declarou Manuel Bompard, coordenador nacional do partido de esquerda radical A França Insubmissa (LFI), à rádio RTL no domingo (21). Segundo ele, a prioridade deveria ser equipar residências de idosos, hospitais e escolas que atendem populações vulneráveis.

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Ao mesmo tempo, o deputado ressaltou que os aparelhos intensificam o calor nas cidades e utilizam gases com efeito estufa mais potentes do que o CO₂. "Instalá-lo em todos os lugares agravaria justamente o problema que pretendemos resolver", argumentou.

Na direção oposta, o partido de extrema direita Reunião Nacional defende um amplo programa de instalação de ar-condicionado. Marine Le Pen apresentou a proposta há cerca de um ano, embora ainda não tenha detalhado sua implementação nem os custos envolvidos. "Se eu for eleita presidente, implementarei um plano massivo de ar-condicionado", afirmou recentemente durante uma feira de tecnologia em Paris.

A proposta recebeu críticas dos ecologistas. A secretária nacional dos Verdes, Marine Tondelier, declarou no domingo à emissora LCI que o ar-condicionado não deve ser tratado nem como um tabu nem como uma solução universal. Ela reconheceu, porém, que já existem locais onde é difícil viver sem ele. "Se você climatizar casas que não são isoladas, não vai chegar muito longe", afirmou. Para ela, a prioridade continua sendo adaptar as cidades a um clima cada vez mais quente.

Pessoas carregando ventiladores em caixas saem de uma filial parisiense de loja de eletrônicos enquanto as temperaturas sobem em Paris durante uma onda de calor que afeta grande parte da França, 23 de junho de 2026.
Pessoas carregando ventiladores em caixas saem de uma filial parisiense de loja de eletrônicos enquanto as temperaturas sobem em Paris durante uma onda de calor que afeta grande parte da França, 23 de junho de 2026.
Foto: RFI

A mesma linha é defendida por Jean-Luc Mélenchon, líder da França Insubmissa e potencial candidato à Presidência, que sustenta que a instalação generalizada de aparelhos tende a ampliar os impactos ambientais associados às mudanças climáticas.

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O governo procura adotar uma posição intermediária. Como o ar-condicionado consome grandes quantidades de energia, "a ideia não é instalá-lo em todos os lugares em detrimento de qualquer outra solução, mas utilizá-lo apenas quando for necessário e possível", afirmou Vincent Jeanbrun, ministro da Habitação e dos Assuntos Urbanos, na Assembleia Nacional. Segundo ele, o tema deve ser tratado "sem dogmatismo".

Os especialistas, no entanto, concordam que adaptações devem ser feitas de maneira urgente e para isso são necessários investimentos. "Se adaptar é também antecipar com investimentos nas construções, nas infraestruturas, nas redes para que possam ser resilientes a estas temperaturas", disse à RFI Robert Vautard, meteorologista do IPCC, o grupo de especialistas sobre o clima da ONU. 

A RFI é uma rádio francesa e agência de notícias que transmite para o mundo todo em francês e em outros 15 idiomas.
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