Júlia Valente, Correspondente da RFI em Helsinque
Em uma sociedade cada vez mais digital e interdependente, os conflitos também assumem novas formas. Não se trata mais apenas de bombardeios, invasões ou ataques militares convencionais. Ciberataques, campanhas de desinformação e pressões econômicas também podem ser utilizados para influenciar países e sociedades. Esse conjunto de estratégias é conhecido como ameaças híbridas, ações capazes de comprometer a estabilidade política, a segurança nacional e a economia de países em todo o mundo.
Em Helsinque, na Finlândia, está localizada a sede do Centro Europeu de Excelência para o Combate às Ameaças Híbridas (Hybrid CoE). Criada em 2017 em parceria com a União Europeia e a Organização do Tratado do Atlântico Norte (OTAN), em um contexto de crescente preocupação dos governos com o avanço desse tipo de ação, a instituição apoia seus 35 países membros com pesquisas, treinamentos e análises voltados à prevenção e ao combate dessas ameaças.
Martha Turnbull, diretora da área de Influência Híbrida do Hybrid CoE, ressalta que um dos cenários que mais tem registrado o aumento de ameaças híbridas é o período eleitoral. "Vemos uma grande quantidade de desinformação nos cerca de seis meses que antecedem a eleição. Isso se encaixa em um padrão mais amplo que temos observado, no qual esses atores procuram minar a confiança do público no sistema eleitoral e no governo atual", afirma.
Turnbull explica que, à medida que a eleição se aproxima, essas atividades passam a se concentrar em partidos políticos e candidatos específicos, além de tentar desencorajar a participação dos eleitores. "Isso não termina no dia da eleição. Essas atividades continuam nas semanas seguintes, buscando desacreditar os resultados", complementa.
Não são apenas atores externos que impõem ameaças, mas também internos. "No contexto eleitoral atual, observamos que existe uma ligação entre ameaças externas e atores domésticos em muitos países", afirma Turnbull. "Em alguns casos, essa ligação é direta, quando o ator externo orienta diretamente grupos ou indivíduos que estão dentro do país realizando algum tipo de atividade. Em outros casos, a ligação não é tão clara, mas, de forma geral, o que estamos vendo é uma conexão cada vez maior entre esses atores", diz a especialista.
O principal alvo das ameaças híbridas durante períodos eleitorais são justamente os eleitores. Por isso, de acordo com o Hybrid CoE, combater esse fenômeno também envolve fortalecer a educação midiática da população, para que as pessoas consigam identificar e resistir à desinformação.
IA muda o cenário das ameaças híbridas
Além do cenário eleitoral, o avanço da inteligência artificial (IA) vem transformando a forma como ameaças híbridas são produzidas e combatidas. Segundo Turnbull, atores envolvidos nesse tipo de atividade utilizam modelos de linguagem e outras ferramentas de IA para ampliar sua capacidade de atuação, aumentar a escala das operações e acelerar respostas.
"Isso, obviamente, é muito desafiador. Além disso, algumas dessas tecnologias tornam essas atividades muito mais difíceis de rastrear e, consequentemente, mais difíceis de atribuir responsabilidade e de responder a elas", ressalta.
Também existe, no entanto, um aspecto positivo. Governos e instituições vêm utilizando a IA para fortalecer sistemas de monitoramento e resposta a ameaças híbridas. O saldo dessa transformação, porém, ainda é incerto. "Acho que, neste momento, a balança ainda não pendeu claramente para um lado ou para o outro", avalia Turnbull.
Europa vê Rússia como principal preocupação
O Hybrid CoE está localizado em um ponto simbólico. Helsinque fica a menos de 200 quilômetros da fronteira com a Rússia, país apontado por especialistas como a principal fonte de ameaças híbridas ao continente europeu na última década. "Consideramos que a principal ameaça para a Europa vem da Rússia, mas também observamos o aumento de ameaças por parte do Irã e da China", afirma Martha Turnbull.
Desde a invasão em larga escala da Ucrânia pela Rússia, em 2022, o Hybrid CoE afirma ter observado um aumento significativo das atividades relacionadas a ameaças híbridas. "Temos observado uma atividade concentrada, particularmente por parte da Rússia, no campo da desinformação, que busca enfraquecer o apoio à Ucrânia e minar a disposição do país de continuar lutando com o apoio que recebe de seus aliados", diz Turnbull.
Essas ações podem assumir diferentes formas. "Pode ser propaganda para tentar desgastar a população e conquistá-la para o seu lado. Também pode envolver ataques cibernéticos. Pode incluir ainda atividades militares de pequena escala, como cruzar fronteiras, violar espaços aéreos ou interferir em sinais de GPS", ressalta.
Brasil: a desinformação no centro das ameaças híbridas
No Brasil, o tema também vem sendo acompanhado por pesquisadores. O professor de antropologia da Universidade Federal de São Carlos (UFSCar), Piero Leirner, autor do livro "O Brasil no espectro de uma guerra híbrida", afirma que, no contexto político brasileiro, a principal preocupação está em dinâmicas de desinformação.
"Os principais atores que manejaram estratégias híbridas de desinformação e de manipulação política aqui são atores 100% internos, embora ligados a atores externos. Eu acredito que a desinformação não é apenas no sentido de fake news. Isso é uma parte ínfima do problema. Na verdade, é uma estrutura geral que eu chamo de dissonância cognitiva e que muita gente chama de polarização", diz Leirner.
À medida que o Brasil se aproxima das eleições presidenciais de 2026, marcadas para outubro, a desinformação retorna ao centro das atenções no cenário político. Embora as redes sociais tenham ampliado seu alcance e velocidade, o uso dessa estratégia para influenciar o debate público faz parte das campanhas há décadas. Para Leirner, em especial, ataques à credibilidade do sistema eleitoral devem voltar a ocupar espaço no debate público.
O pesquisador avalia ainda que as instituições brasileiras não estão preparadas para prevenir e responder a esse tipo de ameaça. "A principal ameaça é o fato de que as nossas principais instituições políticas estão embebidas nesse ambiente, e elas próprias fazem uso disso [da desinformação]", ressalta.