Crise na Alemanha: rumor sobre queda de Merz monopoliza debate após avanço da extrema direita

A Alemanha vive nesta segunda-feira (1º) uma onda de especulações sobre a possível substituição do chanceler Friedrich Merz, apenas um ano após sua chegada ao poder. Enfraquecido por pesquisas negativas - com 86% dos alemães que rejeitam seu mandato - e por conflitos dentro da coalizão, o chefe do governo enfrenta rumores de que poderia ser trocado por Hendrick Wüst, líder regional conservador mais popular e visto como alternativa capaz de conter o avanço da extrema direita no país.

1 jun 2026 - 15h13

A política alemã entrou em ebulição após a circulação de rumores sobre a possível substituição do chanceler Friedrich Merz, líder conservador que assumiu o governo há apenas um ano. A especulação ganhou força depois de novas pesquisas mostrarem um nível de impopularidade sem precedentes para um chefe de governo no país desde o pós-guerra.

O chanceler alemão Friedrich Merz em 5 de maio de 2026.
O chanceler alemão Friedrich Merz em 5 de maio de 2026.
Foto: © Christian Mang / Reuters / RFI

Segundo o instituto Forsa, apenas 14% dos alemães afirmam estar satisfeitos com o desempenho de Merz. O número contrasta com o tom confiante que marcou sua campanha para as eleições legislativas de fevereiro de 2025, quando prometia reativar o crescimento econômico e melhorar o padrão de vida da população. Um ano depois, especialistas apontam que as reformas anunciadas não avançaram.

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Aiko Wagner, cientista político da Universidade Livre de Berlim, afirma que áreas centrais da política pública seguem paralisadas. "Não houve avanços relevantes em política fiscal, aposentadorias, seguro de dependência ou seguro de saúde", disse. Para analistas, a percepção de imobilismo tem alimentado frustração entre eleitores e ampliado tensões dentro da coalizão governista.

As relações entre o partido conservador CDU/CSU e os parceiros social-democratas do SPD, que compõem a coalizão, tornaram-se particularmente turbulentas. Divergências sobre orçamento, políticas sociais e imigração têm sido expostas publicamente, contribuindo para a sensação de instabilidade. Esse desgaste abriu espaço para o crescimento da extrema direita.

O último levantamento do Forsa mostra a AfD, partido de extrema direita, com 27% das intenções de voto - cinco pontos acima da CDU/CSU, que aparece com 22%. O avanço da sigla, historicamente associada a posições anti-imigração e críticas à União Europeia, tem pressionado ainda mais a coalizão.

Rumor sobre Wüst expõe fragilidade interna da coalizão

Foi nesse contexto que surgiu a especulação sobre uma possível troca de comando no governo. A imprensa alemã passou a discutir a hipótese de substituir Merz por Hendrick Wüst, governador da Renânia do Norte-Vestfália, região mais populosa do país e tradicional bastião conservador. Aos 50 anos, Wüst é considerado mais popular e aparece em terceiro lugar no ranking de líderes políticos do instituto Insa, enquanto Merz ocupa apenas a 20ª posição.

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Jornais como Die Welt e Berliner Morgenpost estamparam manchetes perguntando: "Wüst no lugar de Merz?". A simples circulação dessa hipótese já foi suficiente para intensificar o debate sobre a estabilidade do governo. Embora a Constituição alemã permita a troca de chanceler sem novas eleições - por meio de um voto de desconfiança construtivo no Parlamento -, especialistas consideram o cenário improvável e politicamente arriscado.

Há apenas um precedente na história recente: em 1966, o conservador Ludwig Erhard renunciou e foi substituído por Kurt Kiesinger, também da CDU, em meio a uma crise econômica. O episódio, porém, ocorreu em um contexto político muito diferente, quando a Alemanha Ocidental ainda consolidava suas instituições democráticas.

O porta-voz do governo, Stefan Kornelius, tentou encerrar a discussão ao afirmar que não comentaria "especulações sem fundamento". A declaração, no entanto, não impediu que o tema continuasse a dominar o noticiário. Para parte da imprensa, o silêncio oficial apenas reforça a percepção de fragilidade.

CDU e CSU tentam conter danos 

Líderes da CDU e da CSU - partidos irmãos que formam o bloco conservador - manifestaram apoio público a Merz durante um congresso regional na região de Hesse. A demonstração de unidade buscou conter a impressão de que o chanceler estaria isolado dentro do próprio campo político.

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Apontado como possível substituto, Wüst também negou qualquer articulação. "As especulações dos últimos dias são simplesmente absurdas", afirmou. A declaração foi interpretada como tentativa de evitar um confronto direto com Merz, que ainda controla a máquina partidária nacional.

Apesar das negativas, analistas afirmam que a circulação de rumores desse tipo costuma indicar desgaste real. A queda de popularidade de Merz, somada ao avanço da extrema direita e às tensões internas da coalizão, cria um ambiente de incerteza que pode influenciar decisões futuras do partido.

A situação também reacende debates sobre a capacidade da CDU de se renovar. Após anos de hegemonia sob Angela Merkel, o partido enfrenta dificuldades para apresentar uma liderança capaz de unir diferentes correntes internas e responder às mudanças do cenário político alemão, marcado por polarização crescente e desafios econômicos persistentes.

Para especialistas, a pressão sobre Merz deve continuar enquanto não houver sinais concretos de recuperação econômica ou de estabilização política. A coalizão, por sua vez, terá de lidar com a percepção de paralisia, que alimenta o descontentamento e fortalece adversários.

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Com agências

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