Brasil precisa de uma política industrial para se adaptar a acordo UE-Mercosul, diz professora

Depois de mais de 25 anos de negociações, o acordo comercial entre a União Europeia e o Mercosul deverá ser assinado oficialmente neste sábado (17), em Assunção, no Paraguai, e depois será ratificado pelo Parlamento Europeu. Aprovado por 21 dos 27 países do bloco europeu no dia 9 de janeiro, o tratado prevê a criação de um mercado comum de mais de 720 milhões de pessoas. Para entender melhor o impacto dessa medida, a RFI conversou com Cristina Helena Pinto de Mello, professora de Economia da graduação e do mestrado da PUC-SP.

16 jan 2026 - 13h46

RFI: Até agora, falou-se muito sobre as repercussões do acordo no setor agrícola, mas durante as negociações o Brasil lutou para defender a indústria brasileira da concorrência europeia. Esse tratado traz oportunidades para a indústria brasileira?

Cristina Helena Pinto de Mello, professora de Economia da graduação e mestrado da PUC de São Paulo.
Cristina Helena Pinto de Mello, professora de Economia da graduação e mestrado da PUC de São Paulo.
Foto: © arquivo pessoal / RFI

Cristina Helena: Sem um projeto industrial claro, esse acordo corre o risco de consolidar algumas das especializações já existentes. Falta ao Brasil uma agenda positiva para a área de indústrias e de serviços. Essa é uma fragilidade peculiar do caso brasileiro e da América Latina. Alguns países têm estratégias um pouco mais definidas, como o Paraguai e a Argentina, mas o Brasil seguramente não tem. Esse acordo deve trazer muito aprendizado para o Mercosul. Por exemplo, a Alemanha tem uma indústria muito forte de máquinas e equipamentos, e o acordo tende a consolidar ainda mais esse setor alemão. Ao mesmo tempo, pode reduzir o espaço das indústrias brasileiras do mesmo segmento. O ideal seria que, numa perspectiva multilateral, construíssemos cadeias produtivas integradas. Mas falta ao Brasil uma agenda doméstica e um plano consistente de reindustrialização. Entramos, portanto, de forma frágil nesse processo.

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RFI: As pequenas e médias empresas brasileiras estão preparadas para concorrer no mercado europeu?

Cristina Helena: Seguramente não. Tampouco estão preparadas para identificar oportunidades de integração em cadeias produtivas com indústrias europeias. Os países europeus construíram, por meio de acordos complexos, um mercado altamente integrado. Mas isso ainda é um campo de aprendizado para o Mercosul. Os países do bloco precisam aprender a lidar com esse tipo de custo político em nome de um projeto de longo prazo.

RFI: Alguns pontos em que o Brasil poderia se beneficiar são a transição energética e o agronegócio sustentável. A senhora acha que o país está preparado?

Cristina Helena: Sim. O Brasil vem há bastante tempo trabalhando sua agropecuária com critérios e padrões internacionais. A agricultura brasileira é competitiva, produtiva e profissionalizada. Além disso, o país tem uma capacidade de produção de energia limpa inigualável.

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RFI: O acordo entre a União Europeia e o Mercosul cria previsibilidade para investimentos no atual ambiente de retorno do protecionismo e de instabilidade geopolítica?

Cristina Helena: Acredito que sim. Ele abre espaços importantes de previsibilidade em relação aos acordos tarifários e de integração de mercado. Essa previsibilidade e essa segurança estão se perdendo no cenário global, especialmente em razão da atuação do presidente norte-americano, Donald Trump, que costuma ser bastante intempestivo em suas decisões. A União Europeia, ao contrário, tem uma governança sólida e uma estrutura política de construção de acordos que não é intempestiva. Isso confere maior estabilidade a acordos firmados com o bloco europeu.

RFI: Maior integração comercial favorece protagonismo político?

Cristina Helena: Diria que sim. O Brasil, sobretudo nos últimos anos, vem se colocando como uma voz importante na América Latina em defesa da democracia. Também é um ator político relevante internacionalmente, já que fala a partir de um espaço regional significativo, com projeção global. Isso é oportuno porque nos coloca numa posição que evita alinhar-se automaticamente às rivalidades entre Estados Unidos e China.

RFI: Como a senhora avalia a resistência da França ao acordo UE-Mercosul? Os agricultores estão preocupados, mas setores industriais, bancos, consultorias e empresas de energia franceses estão de olho no novo mercado.

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Cristina Helena: A França sempre foi cuidadosa. O multilateralismo, para o país, é uma questão comercial e também uma arquitetura política que permite preservar uma margem de manobra nacional. Vejo que a França tem sido muito cautelosa em atender aos seus interesses internos.

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