Ataque russo a Kiev leva Reino Unido a ampliar apoio à defesa aérea da Ucrânia

A Rússia retomou na madrugada desta terça-feira (8) os ataques aéreos contra Kiev, matando ao menos duas pessoas e ferindo outras oito, poucas horas depois da partida dos enviados do presidente americano Donald Trump, que tentam reativar as negociações de paz. Diante da nova onda de bombardeios, o Reino Unido anunciou um pacote de 100 milhões de libras esterlinas (cerca de R$ 694 milhões) para fortalecer a defesa aérea da Ucrânia.

8 set 2026 - 05h40
(atualizado às 05h43)
Resumo
Um bombardeio russo contra Kiev deixou dois mortos e causou ampla destruição, ocorrendo logo após a visita de enviados dos EUA para negociar o fim do conflito. Em resposta à ofensiva e à escassez de interceptores na Ucrânia, o Reino Unido anunciou um pacote de 100 milhões de libras para reforçar a defesa aérea do país com mísseis Patriot e drones. Apesar da escalada, Zelensky apontou possíveis aberturas diplomáticas no inverno, enquanto o Kremlin não descarta retomar as conversas trilaterais.

Fortes explosões sacudiram a capital ucraniana durante a noite. Jornalistas da AFP relataram colunas de fumaça e focos de incêndio em diferentes regiões da cidade. O alerta de mísseis permaneceu em vigor por várias horas, obrigando os moradores a procurar abrigo, enquanto a vizinha Polônia colocou sua força aérea em estado de prontidão.

Segundo um balanço preliminar da polícia ucraniana, os bombardeios deixaram ao menos dois mortos e oito feridos. A Promotoria de Kiev informou que os ataques danificaram 14 edifícios residenciais, uma escola, uma clínica, 25 veículos, um supermercado e diversos armazéns logísticos. O Ministério da Defesa da Rússia afirmou ter atingido fábricas de componentes para drones e mísseis, depósitos de munição e instalações militares. Kiev raramente divulga informações sobre danos sofridos por instalações estratégicas.

Publicidade

A nova ofensiva ocorreu logo após a visita dos enviados americanos Steve Witkoff e Jared Kushner, que passaram por Moscou e Kiev no fim de semana, numa tentativa de destravar o diálogo entre russos e ucranianos. O ministro das Relações Exteriores da Ucrânia, Andriy Sybiga, reagiu com indignação. "Assim que os enviados de paz do presidente dos EUA partiram, Putin lançou outro ataque massivo e horrível contra Kiev", escreveu na rede X. "Seus mísseis balísticos falam mais alto do que seus discursos sobre diplomacia."

O ataque foi o primeiro contra Kiev em três noites, após o término de uma breve suspensão recíproca dos bombardeios contra as capitais dos dois países, anunciada durante a passagem dos enviados americanos. Na segunda-feira (7), Witkoff afirmou que sua viagem, primeiro a Moscou e depois a Kiev, produziu "progressos substanciais" rumo à realização de novas negociações trilaterais para encerrar a guerra iniciada pela invasão russa da Ucrânia, em fevereiro de 2022.

Reino Unido anuncia ajuda para proteger cidades ucranianas

Apesar da retomada dos bombardeios, Zelensky insistiu na necessidade de reforçar as capacidades de defesa aérea da Ucrânia. Segundo o presidente, embora o país tenha obtido "resultados muito bons" contra mísseis de cruzeiro, os mísseis balísticos continuam especialmente difíceis de interceptar. Kiev voltou a pedir aos aliados o envio de mais sistemas e mísseis interceptadores.

Em resposta, o Reino Unido anunciou a liberação de 100 milhões de libras esterlinas (cerca de R$ 694 milhões) para reforçar a defesa aérea ucraniana antes do inverno. Os recursos, mobilizados no âmbito de um programa da Otan de apoio a Kiev, financiarão o fornecimento de mísseis interceptores Patriot, munições de grosso calibre e drones. Em comunicado, o Ministério da Defesa britânico afirmou que o pacote ajudará a Ucrânia a se proteger dos "bárbaros ataques russos" esperados nos próximos meses.

Publicidade

O anúncio ocorre num momento em que Kiev alerta para a escassez de interceptores Patriot, considerados os únicos sistemas capazes de neutralizar os mísseis balísticos russos usados com frequência crescente contra a capital ucraniana. Produzidos nos Estados Unidos, esses equipamentos tornaram-se ainda mais estratégicos depois que Washington reduziu significativamente suas entregas à Ucrânia, em razão das necessidades militares americanas ligadas ao conflito com o Irã.

A ajuda deve dominar a reunião do Grupo de Contato para a Defesa da Ucrânia, que reúne cerca de 50 países aliados. O encontro desta terça-feira será copresidido pelo secretário britânico da Defesa, Wes Streeting, e pelo ministro alemão Boris Pistorius, com foco nas necessidades mais urgentes das forças ucranianas diante da intensificação dos ataques russos.

Abertura diplomática

Apesar da nova escalada militar, Zelensky indicou em entrevista ao site americano Axios que uma abertura diplomática pode surgir nos próximos meses. Segundo o presidente ucraniano, Vladimir Putin transmitiu aos enviados americanos disposição para discutir medidas de "desescalada" durante o inverno. Isso poderia incluir uma redução dos ataques em setores considerados estratégicos. "Há ideias relacionadas a energia, grãos, eletricidade, petróleo e gás", afirmou Zelensky.

No inverno passado, a Rússia bombardeou repetidamente as instalações energéticas ucranianas. Os cortes de eletricidade e de aquecimento afetaram milhões de pessoas.

Publicidade

Para Zelensky, o interesse de Moscou em retomar negociações também passa pela relação com Washington. "Putin precisa de Trump" e não quer "desagradá-lo", declarou o dirigente ucraniano ao site americano, numa referência às eleições legislativas de meio de mandato nos Estados Unidos, marcadas para novembro.

Durante sua primeira visita a Kiev, no domingo (6), Witkoff e Kushner se reuniram com Zelensky e também com representantes europeus da França, do Reino Unido e da Alemanha. Um alto funcionário da presidência ucraniana afirmou à AFP que os enviados de Trump apresentaram novas propostas, descritas como "mais eficazes" para encerrar a guerra, sem revelar detalhes.

Na segunda-feira, o Kremlin informou que não descartava uma retomada das negociações trilaterais. O porta-voz da presidência russa, Dmitry Peskov, afirmou, porém, que ainda era cedo para discutir o local e as datas de um eventual encontro.

As rodadas anteriores de negociação esbarraram principalmente na questão territorial. Moscou mantém a reivindicação sobre regiões do leste da Ucrânia que considera anexadas, enquanto Kiev exige a recuperação de seu território. Apesar do impasse, Zelensky afirmou que seu governo se prepara ativamente para uma nova fase de conversas. "As propostas da Ucrânia são construtivas e continuarão sendo", escreveu o presidente em sua página no Facebook.

Publicidade

Com AFP

A RFI é uma rádio francesa e agência de notícias que transmite para o mundo todo em francês e em outros 15 idiomas.
Fique por dentro das principais notícias
Ativar notificações