França promove 'COP do cinema' para enfrentar desafios da inteligência artificial

Os principais representantes da indústria audiovisual mundial se comprometeram nesta segunda-feira (7) a defender o cinema diante dos desafios impostos pela inteligência artificial generativa, pelo streaming e pela mudança dos hábitos de consumo. Organizada pela França e pela Coreia do Sul, a primeira Cúpula Lumière foi concebida nos moldes das grandes conferências internacionais sobre o clima e pretende lançar as bases de uma cooperação global para o setor.

7 set 2026 - 15h05
Resumo
Reunindo líderes globais do audiovisual na França, a cúpula apelidada de "COP do cinema" debateu os impactos da inteligência artificial e a queda de público nas salas de exibição. O encontro resultou na criação da organização Iris, com orçamento de € 30 milhões para apoiar o cinema independente, e em um fundo franco-coreano de € 1 bilhão. Os participantes defenderam a proteção urgente dos direitos autorais frente ao avanço da IA e cobraram maior responsabilidade no setor tecnológico.

O encontro reúne cerca de 220 participantes de 65 países na cidade de Saint-Paul-de-Vence, no sul da França. Entre os participantes estavam representantes de grandes estúdios de Hollywood, plataformas de streaming, emissoras de televisão, exibidores, produtores e cineastas, todos reunidos para discutir o futuro de uma indústria que ainda enfrenta as consequências da pandemia e da transformação digital.

O ator George Clooney, o ministra da Cultura, Esportes e Turismo da Coreia, Chae Hwi-young, a ministra da Cultura da França, Catherine Pégard, e os presidentes da Coreia do Sul, Lee Jae-Myung, e da França, Emmanuel Macron, na abertura da Cúpula Lumière. Em Saint-Paul-de-Vence, França, em 7 de setembro de 2026.
O ator George Clooney, o ministra da Cultura, Esportes e Turismo da Coreia, Chae Hwi-young, a ministra da Cultura da França, Catherine Pégard, e os presidentes da Coreia do Sul, Lee Jae-Myung, e da França, Emmanuel Macron, na abertura da Cúpula Lumière. Em Saint-Paul-de-Vence, França, em 7 de setembro de 2026.
Foto: AFP - VALERY HACHE / RFI

Entre os principais anúncios feitos durante a cúpula está a criação da organização Iris, voltada ao apoio do cinema independente em escala internacional. A iniciativa contará com um orçamento de € 30 milhões e reúne importantes nomes do cinema mundial, como os diretores Pedro Almodóvar, Sofia Coppola, Jafar Panahi e os irmãos Luc e Jean-Pierre Dardenne.

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Outro destaque foi o anúncio de um fundo franco-coreano de um € 1 bilhão para o financiamento da produção audiovisual, além do compromisso dos participantes de reforçar a proteção dos direitos autorais diante do avanço das ferramentas de inteligência artificial.

"As imagens em movimento estão, sem dúvida, passando pelas transformações mais significativas da atualidade", declarou o presidente francês Emmanuel Macron na abertura dos debates.

Segundo ele, o objetivo do encontro é oferecer uma resposta coletiva às profundas mudanças que afetam a produção e a circulação de obras audiovisuais.

O presidente sul-coreano Lee Jae-myung, cujo país é coorganizador da iniciativa, também alertou para os riscos enfrentados pelo setor. "Se não respondermos de maneira eficaz a essas mudanças, sem dúvida enfrentaremos uma crise", afirmou.

Um "Davos do cinema"

Descrita por alguns participantes como um "Davos do cinema", em referência ao Fórum Econômico Mundial realizado na Suíça, a reunião conta com representantes da Sony Pictures, Disney, Netflix, Canal+, além de produtores, distribuidores e exibidores da África, da América Latina e da Ásia.

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Os debates se concentram especialmente no futuro das salas de cinema. Segundo os organizadores, a frequência ao cinema caiu cerca de 40% nos últimos cinco anos, refletindo tanto o impacto da pandemia quanto a crescente concorrência das plataformas digitais e do consumo de vídeos em smartphones.

Para Thierry Frémaux, delegado-geral do Festival de Cannes, um dos principais méritos do encontro foi reunir interlocutores que raramente compartilham o mesmo espaço de discussão. "A própria ideia de podermos reunir tantas pessoas influentes aqui já é uma primeira vitória", afirmou.

Frémaux relatou ainda uma conversa informal com Ted Sarandos, diretor da Netflix, em um gesto simbólico de aproximação entre dois campos que historicamente tiveram relações tensas. O Festival de Cannes continua recusando a participação na competição principal de produções lançadas exclusivamente em plataformas de streaming.

Inteligência artificial no centro das preocupações

A inteligência artificial generativa dominou boa parte das discussões. Diversos participantes manifestaram preocupação com o uso de filmes, séries e outras obras protegidas por direitos autorais para o treinamento de modelos de IA sem autorização dos criadores.

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"Cometeríamos um erro tremendo se essa tecnologia se transformasse em um instrumento destinado a substituir os autores", advertiu Emmanuel Macron.

O presidente sul-coreano defendeu, por sua vez, o desenvolvimento de uma inteligência artificial mais responsável e compatível com a proteção da criação artística.

Chamou a atenção a ausência das principais empresas de inteligência artificial no evento. YouTube também recusou participar do encontro, apesar das críticas frequentes do setor audiovisual, que acusa a plataforma de competir pela atenção do público sem contribuir proporcionalmente para o financiamento da produção cultural.

Um novo multilateralismo para o cinema

Os organizadores assumem explicitamente a inspiração das grandes negociações multilaterais conduzidas pela França durante a COP21, que culminou no Acordo de Paris de 2015 sobre o clima.

"Precisamos de um novo multilateralismo para o cinema e para a imagem em movimento", afirmou Gaëtan Bruel, presidente do Centro Nacional do Cinema da França (CNC) e um dos organizadores da cúpula. "Devemos abordar essas questões com o mesmo método aplicado às mudanças climáticas ou à saúde global."

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A iniciativa recebeu o apoio do cineasta americano Martin Scorsese. Em uma mensagem enviada aos participantes antes do encontro, ele descreveu a Cúpula Lumière como "a discussão global de que todos precisamos".

Além de Scorsese, outras figuras importantes da indústria demonstraram apoio à iniciativa. A presença do ator George Clooney trouxe visibilidade a uma reunião voltada principalmente para questões estruturais e econômicas.

Quase um século depois do Congresso Internacional de Cinematografia realizado em Paris, em 1926, os organizadores esperam que a Cúpula Lumière marque o início de uma cooperação internacional duradoura para enfrentar os desafios de uma indústria confrontada ao mesmo tempo pela revolução tecnológica da inteligência artificial e pela transformação dos hábitos de consumo audiovisual.

Com AFP

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