Após vencer a eleição na Saxônia-Anhalt com 43,8% dos votos, a AfD, de extrema direita, pode assumir o governo estadual devido a uma inédita aliança tácita com o BSW, sigla de esquerda radical. Detentor de cinco assentos decisivos, o BSW planeja se abster na votação parlamentar para viabilizar a vitória do candidato da AfD por maioria simples. Essa articulação quebra o cordão de isolamento contra a extrema direita, impulsionada pela afinidade mútua pró-Rússia e pelo forte apelo anti-imigração.
Gabriel Brust, correspondente da RFI em Düsseldorf, Alemanha
O BSW, cujo nome completo é Aliança Sahra Wagenknecht - Razão e Justiça, tem apenas dois anos de existência e é uma dissidência do partido de esquerda Die Linke, que, por sua vez, terminou a eleição com oito assentos no Parlamento estadual e se opõe frontalmente à AfD.
Até o início da votação, muitos acreditavam que o BSW não conseguiria sequer atingir a cláusula de barreira, que exige votação mínima de 5%. O bom desempenho lhe garantiu não só a entrada no Parlamento, mas também uma posição-chave: nenhum grupo conseguirá formar maioria sem as cinco cadeiras conquistadas pelo partido.
A principal candidata do BSW na Saxônia-Anhalt, Claudia Wittig, disse estar aberta a conversar com a AfD para promover uma mudança de governo no estado, atualmente controlado pela CDU, partido conservador do chanceler Friedrich Merz. Ela descarta formar uma coalizão formal para eleger o candidato da AfD, Ulrich Siegmund, mas diz aceitar uma colaboração para eleger outro nome contra o atual governador da CDU, Sven Schulze.
Como será a colaboração BSW-AfD
Na manhã desta segunda-feira, outro dirigente local do BSW, Thomas Schulz, deixou mais claro como seria essa "colaboração": o partido vai se abster caso haja uma terceira votação no Parlamento para escolher o governador.
Na Saxônia-Anhalt, caso não se alcance maioria absoluta em duas votações seguidas para escolher o governador, o que é bastante provável no cenário atual, na terceira votação basta maioria simples. Com a abstenção do BSW, a AfD elegeria Ulrich Siegmund ao cargo com facilidade, contando com sua maioria simples de 39 votos.
Se essa colaboração se confirmar, será a primeira vez que um partido alemão romperá o chamado Brandmauer, cordão de isolamento imposto à AfD, para viabilizar um governo estadual liderado pelo partido de extrema direita.
No campo ideológico, o que diferencia o BSW dos demais partidos de esquerda é principalmente a pauta de costumes. O partido rejeita a chamada "agenda woke" e as pautas identitárias, tendo posições muito mais restritivas à imigração, mas abraça amplamente a agenda econômica de esquerda, com a defesa dos trabalhadores, dos sindicatos e de uma forte presença do Estado na economia.
Unidos pela Rússia
O que une os dois partidos de extremos opostos, AfD e BSW, é a defesa do fim das sanções à Rússia e de uma aproximação com Moscou. Às vésperas da eleição, a fundadora do BSW, Sahra Wagenknecht, criticou duramente o fechamento de instituições russas na Alemanha: "Estamos queimando todas as pontes para o diálogo".
Em grande medida, a boa votação da AfD e do BSW, ainda que em proporções diferentes, se deve à exploração de um certo saudosismo de parte da população da Saxônia-Anhalt em relação à antiga Alemanha Oriental, alinhada à União Soviética. Soma-se a isso o desemprego elevado na região, formando o cenário que possivelmente levou à vitória da AfD.
O resultado final da apuração indicou a AfD em primeiro lugar, com 43,8% dos votos, seguida pela conservadora CDU, com 17,2%, resultado muito abaixo do esperado, e por uma sequência de partidos mais à esquerda: os social-democratas do SPD, com 9,3%; os Verdes, com 8,9%; o Die Linke, com 8,6%; e o BSW, com 5,1%.
Com 2,6%, o liberal FDP não atingiu o mínimo necessário e ficou fora do Parlamento estadual. A distribuição das cadeiras ficou em 39 para a AfD, 15 para a CDU, oito para cada um dos três partidos SPD, Verdes e Die Linke e, por fim, cinco cadeiras para o BSW.