Segundo análise da AFP com base em dados da agência meteorológica Météo-France, o país registrou 52 dias de ondas de calor desde meados de junho, um recorde desde o início das medições, em 1947. O número supera os 33 dias registrados em 2022 e os 22 dias observados durante o verão de 2003.
Ainda de acordo com a análise, várias ondas de calor se sucederam desde junho, em um contexto de seca generalizada, incêndios florestais e temperaturas recordes em boa parte da Europa Ocidental.
As consequências da crise climática, porém, já não se limitam aos termômetros. Elas começam a aparecer também nas prateleiras dos supermercados e feiras francesas.
Seca reduz produção de hortaliças
Uma reportagem do canal TF1 mostrou que, na prática, a falta de chuva atingiu fortemente a produção agrícola em diversas regiões do país. Produtores relatam perdas importantes na colheita de hortaliças como couve-flor, brócolis, alcachofra e alface. Segundo a emissora, agricultores estimam que a produção tenha recuado até 70% em algumas áreas afetadas pela seca.
A escassez de água fez com que muitas plantações deixassem de crescer ou até regredissem, fenômeno descrito por agricultores como uma espécie de "marcha à ré" das saladas, que deixam de se desenvolver e chegam a encolher sob o efeito do calor extremo. A variedade de verduras é cada vez menor e, em alguns supermercados, elas já começam a desaparecer das prateleiras.
A situação também preocupa para os próximos meses. Ainda de acordo com o canal, culturas de inverno, especialmente a couve-flor, já apresentam perdas importantes devido ao déficit hídrico. Em algumas lavouras, parte dos vegetais secou antes mesmo de completar seu desenvolvimento.
Frutas menores nas prateleiras
A Franceinfo mostra que a mudança já pode ser percebida pelos consumidores. Frutas e legumes chegam aos mercados menores do que o habitual e, em alguns casos, com aparência menos atraente. Um produtor entrevistado pela emissora relatou que muitas couves-flores não cresceram adequadamente por falta de umidade e pelas temperaturas excessivamente elevadas.
Na região da Drôme, no sudeste francês, produtores de pêssego afirmam colher frutas menores do que o normal. "Hoje temos frutas com quase metade do tamanho", explica um pomicultor ao portal de notícias.
Diante dessa realidade, a principal federação da grande distribuição francesa anunciou que os supermercados aceitarão mais facilmente produtos fora dos padrões tradicionais de tamanho e aparência. A medida busca evitar desperdícios e compensar parte das perdas provocadas pela estiagem, segundo a Franceinfo.
À RFI, Juliana Schittini, chef brasileira em um restaurante de Paris, afirma que a diferença é pouco perceptível nos produtos entregues ao estabelecimento, que trabalha apenas com ingredientes orgânicos. Segundo ela, as hortaliças continuam chegando com boa qualidade. No dia a dia, porém, a situação é diferente.
"Nos grandes supermercados, onde a demanda é muito alta, acho que realmente fica difícil manter a mesma qualidade com um período de seca como o que estamos vivendo. Nos últimos tempos, nem sempre encontro frutas e legumes de boa qualidade no supermercado perto da minha casa", relata.
Agricultores e criadores de animais enfrentam perdas crescentes
Enquanto isso, produtores rurais enfrentam dificuldades cada vez maiores. Em entrevista à rádio Ici Gironde, o presidente da Câmara de Agricultura da Gironda, Jean-Samuel Eynard, afirmou que "quase todas as produções" agrícolas do departamento serão afetadas este ano.
Segundo ele, os impactos vão além da Gironda e atingem boa parte do sudoeste francês. Localizada na região de Bordeaux, a Gironda foi uma das áreas mais afetadas pelos grandes incêndios florestais registrados neste verão.
Os produtores enfrentam simultaneamente a falta de água, os efeitos dos incêndios, a queda dos preços do leite e da carne e o aumento dos custos de produção. Criadores de animais já relatam escassez de forragem para alimentar os rebanhos.
Vinhos e turismo também sofrem
No setor vitivinícola, Eynard prevê uma colheita menor do que a do ano passado, que ele próprio classificou como "catastrófica".
O dirigente agrícola alertou ainda para o desgaste psicológico dos produtores. Segundo ele, muitos agricultores já não pedem ajuda para retomar a produção, mas para encerrar suas atividades e mudar de profissão.
Além das perdas agrícolas, os produtores que dependem do turismo também foram afetados pelas evacuações provocadas pelos incêndios e pela redução do fluxo de visitantes, informou a rádio Ici Gironde.
Uma agricultura sob pressão climática
Para especialistas, a situação reforça a necessidade de adaptação da agricultura francesa a um clima cada vez mais quente e seco. Entre as medidas discutidas estão a ampliação dos sistemas de armazenamento de água e novos investimentos em irrigação, soluções que exigem recursos elevados e que muitos produtores afirmam não ter condições de financiar sozinhos.
O verão de 2026 poderá entrar para a história como o mais quente já registrado na França. Para agricultores e consumidores, porém, seus efeitos já são concretos: frutas menores, hortaliças mais escassas e um setor agrícola que tenta se adaptar a uma nova realidade climática marcada por eventos extremos cada vez mais frequentes.