A França lidera uma revolução na moda focada em transparência, rastreabilidade e circularidade, com inovações como o passaporte digital de produtos. Segundo Alexandra Farah, o mercado de luxo desacelera enquanto a moda ultrarrápida sofre forte pressão regulatória por impactos ambientais. O setor vive uma transição histórica, transferindo a responsabilidade ecológica para os produtores e adotando inteligência artificial para remodelar as cadeias de produção e consumo globais.
Maria Paula Carvalho, da RFI
Em entrevista à RFI, Farah afirmou que a França ocupa posição de destaque nesse processo por liderar iniciativas voltadas à transparência, rastreabilidade e economia circular. Segundo ela, as novas exigências regulatórias prometem alterar profundamente a forma como roupas e acessórios são produzidos, vendidos e descartados.
"A França está encabeçando esse movimento. Estamos no meio de uma revolução industrial baseada na transparência, na circularidade e em uma indústria mais moderna", resume.
Entre as mudanças mais significativas está a criação do chamado passaporte digital do produto. A ferramenta permitirá que consumidores tenham acesso a informações detalhadas sobre a origem das peças, matérias-primas utilizadas, emissão de carbono e processos produtivos.
A medida surge em um momento de questionamento crescente sobre os bastidores do mercado de luxo. Escândalos recentes envolvendo condições de produção e a enorme diferença entre custos de fabricação e preços finais ao consumidor contribuíram para desgastar a imagem de algumas grandes marcas.
Farah observa que o setor ainda sente os efeitos do chamado revenge buying, fenômeno registrado após a pandemia, quando consumidores voltaram às compras de forma intensa após os períodos de confinamento. Agora, porém, os sinais apontam para desaceleração.
"As marcas cresceram muito naquele período, mas hoje várias delas enfrentam queda nas vendas. Algumas registram recuos significativos em comparação com anos anteriores", afirma a jornalista, que já atuou em diversos veículos de comunicação, incluindo revistas, rádio e televisão. "A avenida Montaigne, endereço do luxo francês, está vazia", aponta.
A pressão sobre a fast fashion
Se o mercado de luxo enfrenta desafios, a moda ultrarrápida também está sob crescente escrutínio. Plataformas digitais capazes de lançar milhares de modelos por dia transformaram radicalmente o consumo de vestuário.
Farah cita o caso da gigante chinesa Shein para ilustrar a velocidade inédita do setor. Segundo ela, algoritmos e inteligência artificial permitem testar pequenas quantidades de produtos e ampliar rapidamente a produção quando determinado item viraliza nas redes sociais.
O impacto ambiental desse modelo preocupa reguladores europeus. A jornalista destaca que, durante muito tempo, a responsabilidade pelo consumo sustentável foi atribuída exclusivamente ao comprador. Agora, o foco começa a se deslocar para a cadeia produtiva.
"Não adianta colocar toda a responsabilidade sobre o consumidor. As pessoas compram o que está disponível e acessível. A responsabilidade precisa recair também sobre quem produz e coloca esses produtos no mercado", defende.
Na Europa, novas regras vêm sendo implementadas para monitorar não apenas roupas, mas também embalagens utilizadas pelos mais diversos setores da economia. A meta é reduzir o desperdício e tornar os processos mais transparentes.
Moda reflete mudanças sociais
Para Alexandra Farah, a moda nunca pode ser analisada isoladamente. As tendências de vestuário refletem transformações políticas, econômicas e culturais em escala global.
Ela cita como exemplo o retorno de peças clássicas e de maior durabilidade, como os sapatos de couro, observado entre jovens consumidores na Europa após décadas de predominância dos tênis. O movimento, segundo ela, não está relacionado somente à busca por produtos mais duráveis, mas também reflete um contexto social marcado por comportamentos mais conservadores.
"A moda responde ao que está acontecendo no mundo. Ela não é uma bolha", afirma.
O olhar sobre o Brasil
Ao comparar o cenário europeu com o brasileiro, Farah ressalta a diversidade regional do país e destaca características específicas do consumo nacional. Em sua avaliação, fatores como clima tropical e menor poder aquisitivo médio influenciam diretamente os hábitos de compra.
"A gente não tem o mesmo perfil de consumo visto em países europeus. A gente gosta de corpo, pele, cabelo. O brasileiro tende a ter uma relação mais prática com a roupa", observa.
Ela lembra que o Brasil possui uma cadeia têxtil completa, capaz de produzir desde a matéria-prima até o produto final. Apesar disso, enfrenta desafios próprios ligados à produção agrícola e à competitividade diante do avanço das plataformas internacionais de moda.
Inteligência artificial e o futuro da indústria
Além de acompanhar as transformações do mercado, Alexandra Farah trabalha atualmente em um novo livro dedicado aos bastidores da produção de moda. O projeto, desenvolvido em parceria com Ricardo Nascimento, um pesquisador baseado em Londres, busca traduzir para profissionais e consumidores as profundas mudanças em curso na indústria.
A publicação abordará temas como inteligência artificial, rastreabilidade, novos materiais e circularidade. Segundo a jornalista, o desenvolvimento do livro levou anos justamente porque as transformações regulatórias e tecnológicas continuam acontecendo em ritmo acelerado.
Hoje, afirma, ferramentas de inteligência artificial já são utilizadas em áreas como logística, design, pesquisa de tendências e reciclagem têxtil.
"Estamos vivendo uma transição histórica. A inteligência artificial está presente em praticamente todas as etapas da cadeia da moda", diz.
Para Farah, o futuro do setor dependerá da capacidade de equilibrar inovação tecnológica, responsabilidade ambiental e transparência. E, nessa corrida, a França aparece como um dos principais laboratórios mundiais das mudanças que deverão chegar em breve a outros mercados.
"Quando a moda muda, ela está refletindo mudanças muito maiores que estão acontecendo na sociedade", conclui.