Estratégica para o petróleo do Irã, ilha de Kharg entra no radar como alvo na guerra no Oriente Médio

O presidente do Parlamento iraniano, Mohammad Bagher Ghalibaf, afirmou nesta quinta-feira (12) que Teerã "abandonará toda moderação" se os Estados Unidos e Israel atacarem suas ilhas no Golfo. Enquanto o preço do barril de petróleo bruto ultrapassava a marca simbólica de US$ 100, a pequena ilha de Kharg, no Golfo Pérsico, voltou ao centro das discussões em Washington.

12 mar 2026 - 08h27

"Abandonaremos toda moderação" e "derramaremos o sangue dos invasores" no Golfo, escreveu Bagher Ghalibaf no X. Ele não especificou a quais ilhas se referia, mas o site americano Axios noticiou no sábado (7) que autoridades dos EUA discutiram diversas opções para aumentar a pressão sobre Teerã.

Uma imagem de satélite da ilha de Kharg, que abriga o principal terminal petrolífero do Irã.
Uma imagem de satélite da ilha de Kharg, que abriga o principal terminal petrolífero do Irã.
Foto: © Google Maps / RFI

Além de uma possível operação para garantir o controle do estoque iraniano de urânio altamente enriquecido, teria sido considerada também a opção de assumir o domínio da ilha de Kharg, centro petrolífero estratégico do Irã.

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"Toda a infraestrutura energética da ilha de Kharg deve ser destruída para levar a economia iraniana à ruína", declarou, no mesmo dia, o ex-primeiro-ministro israelense Yair Lapid.

Localizada a menos de 25 quilômetros da costa iraniana e a cerca de 480 quilômetros ao norte do Estreito de Ormuz, essa faixa de terra de oito quilômetros de extensão abriga o principal terminal petrolífero do país. Em Kharg estão as instalações de armazenamento e carregamento do petróleo transportado por oleoduto a partir de campos do sudoeste do Irã, incluindo Ahvaz, Marun e Gachsaran, que tem como principal destino a China.

Crucial na economia petrolífera iraniana

"Entre 90% e 95% das exportações de petróleo iranianas passam pela ilha de Kharg", explica Emmanuel Hache, diretor de pesquisa do Instituto de Relações Internacionais e Estratégicas (IRIS). "Bombardeá-la ou tomar seu controle simplesmente impediria o Irã de exportar seu petróleo."

O setor petrolífero iraniano, que representa cerca de US$ 50 bilhões, segundo o especialista em previsão energética e geopolítica de recursos naturais, permanece uma das principais fontes de receita do país. "Grande parte desses recursos é controlada pela Guarda Revolucionária, o que financia o aparato militar e de segurança do regime. Portanto, se as exportações via Kharg forem paralisadas, é potencialmente o próprio regime que ficará paralisado", avalia o pesquisador.

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Apesar das sanções internacionais, o Irã continua produzindo cerca de quatro milhões de barris de petróleo por dia e exportando, em média, entre um e um milhão e meio de barris, segundo dados da empresa especializada Kpler.

Nos dias que antecederam os ataques dos EUA e de Israel, Teerã acelerou significativamente seus embarques de petróleo a partir de Kharg. De acordo com um memorando do JP Morgan citado pela Reuters, as exportações ultrapassaram três milhões de barris por dia entre 15 e 20 de fevereiro, quase o triplo da taxa usual.

Alvo estratégico

A importância estratégica de Kharg não é nova. Em um relatório desclassificado da década de 1980, a CIA já descrevia as instalações petrolíferas da ilha como "as mais vitais do sistema petrolífero iraniano", essenciais para o funcionamento da economia e para o financiamento do esforço de guerra contra o Iraque.

Durante a Guerra Irã-Iraque, a ilha foi alvo frequente da chamada "guerra dos petroleiros", quando ambos os lados buscavam interromper as exportações de energia do adversário. As instalações foram danificadas, mas rapidamente reconstruídas.

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Por ora, contudo, a ilha permanece intocada pelos ataques. "Os Estados Unidos e Israel podem não ter desejado bombardear a ilha de Kharg para evitar o agravamento das tensões nos mercados de petróleo. Sabemos que sempre que a infraestrutura petrolífera é alvejada no Golfo, os preços sobem", comentou Emmanuel Hache.

Embora o Estreito de Ormuz esteja amplamente bloqueado e o tráfego marítimo na região severamente restrito, a Bloomberg noticiou, ainda no sábado, que superpetroleiros continuavam a carregar petróleo na ilha e que alguns petroleiros iranianos haviam atravessado o estreito sem incidentes nos últimos dias.

Risco de escalada

Além da pressão econômica, a ilha também poderia ter relevância em cenários militares, segundo Emmanuel Hache. "Poderíamos até imaginar os Estados Unidos protegendo parte de sua frota ao redor da ilha, que serviria como uma espécie de zona de amortecimento para a Marinha dos EUA", afirma.

Um ataque direto a Kharg também poderia desencadear uma grande escalada regional. Para o JP Morgan, citado pela Reuters, "um ataque direto interromperia imediatamente a maior parte das exportações de petróleo bruto iraniano, o que provavelmente desencadearia sérias retaliações no Estreito de Ormuz ou contra a infraestrutura energética regional".

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