O Kremlin sinalizou a possível retomada de negociações de paz em outubro, impulsionada pela visita de enviados dos EUA a Moscou e Kiev. Apesar da perspectiva diplomática, a Rússia intensificou os bombardeios contra a infraestrutura ucraniana, com cerca de mil drones lançados em 24 horas. As ações atingiram prédios residenciais e a malha ferroviária, incluindo um trem que seguia para a Polônia, em uma estratégia denunciada por Kiev como uma ofensiva sistêmica para desgastar a população civil.
Com informações de Lucas Lazo, correspondente da RFI na Ucrânia
A possibilidade de retomada das negociações trilaterais sobre o conflito na Ucrânia voltou ao debate neste domingo (13), após o porta‑voz do Kremlin, Dmitri Peskov, afirmar que outubro pode marcar a reabertura dos diálogos entre Kiev, Moscou e Washington. A sinalização ocorre em meio a novas ondas de ataques russos, que atingiram ferrovias, cidades do sul e áreas próximas à fronteira polonesa. A companhia ferroviária Ukrzaliznytsia descreveu uma "ataque sistêmico" contra o sistema de transporte do país, enquanto autoridades ucranianas alertam para riscos crescentes à infraestrutura civil.
Peskov afirmou que "não se pode excluir o mês de outubro" como possível data para retomada das conversas, citando esforços diplomáticos que haviam sido interrompidos após a eclosão da guerra no Oriente Médio, em fevereiro de 2026. As negociações voltaram a ganhar impulso com a visita, no fim de semana, dos enviados especiais do presidente Donald Trump, Jared Kushner e Steve Witkoff, que estiveram em Moscou e, pela primeira vez, em Kiev. "Espero poder anunciar em algumas semanas quais serão os próximos passos", disse Kushner em videoconferência no fórum Yalta European Strategy.
O presidente ucraniano Volodymyr Zelensky havia declarado, dias antes, que esperava a retomada dos diálogos ainda em setembro. Os ciclos anteriores de conversas resultaram apenas em trocas de corpos e prisioneiros, sem avanços sobre territórios parcialmente ocupados pela Rússia, cuja anexação é reivindicada pelo Kremlin. A questão territorial permanece o principal bloqueio diplomático.
Novas ofensivas e ataques ao sistema ferroviário
Um drone russo atingiu, neste domingo, um trem com destino a Varsóvia a dois quilômetros da fronteira polonesa, sem deixar vítimas. O serviço ferroviário PKP Intercity informou que o trem transportava 206 passageiros na rota Kiev‑Varsóvia. Zelensky afirmou que Moscou "atingiu deliberadamente" o trem e que uma "ataque sistêmico" contra o sistema ferroviário está em curso. "Nosso centro de monitoramento e nossos funcionários estão em alerta máximo", disse a Ukrzaliznytsia, alertando para atrasos e possíveis evacuações de passageiros.
Evacuações de trens têm se tornado mais frequentes, segundo autoridades locais. Dois outros pontos ferroviários foram atingidos nesta manhã no oeste do país. Varsóvia informou que outro drone russo atingiu a área próxima ao posto‑fronteira de Dorohusk‑Yagodyn. O ministro polonês do Interior, Marcin Kierwinski, afirmou que um dos drones lançados por Moscou atingiu a região de Volínia. "Todos os serviços necessários estão mobilizados", disse Zelensky, acrescentando que uma estação de serviço foi danificada.
Zelensky relatou ainda ataques em outras regiões. Em Odessa, ao menos cinco pessoas ficaram feridas após uma ofensiva russa na manhã deste domingo, segundo autoridades citadas pela Reuters. "Bairros residenciais foram danificados em vários distritos da cidade. As autoridades avaliam a extensão total dos danos", afirmou Serhi Lysak, chefe da administração militar local. A Força Aérea ucraniana informou que cerca de mil drones foram lançados contra o país nas últimas 24 horas, principalmente no oeste.
Estratégia de desgaste e impacto sobre civis
Zelensky denunciou que a Rússia busca destruir "tudo o que torna o cotidiano mais suportável" para a população. Entre os alvos estão depósitos de alimentos e medicamentos, trens de passageiros, prédios residenciais e infraestrutura energética. A estratégia, segundo autoridades ucranianas, visa ampliar o desgaste civil e pressionar o governo em meio às negociações.
A intensificação dos ataques tem impacto direto na economia. Segundo estimativas divulgadas pela AFP, o PIB ucraniano pode ser reduzido em 1,5 ponto em 2026 devido às ofensivas contra setores estratégicos. A Rússia devastou grande parte da infraestrutura energética desde o início da invasão, em fevereiro de 2022, e ampliou ataques com mísseis e drones a jato desde o verão. A Ucrânia enfrenta dificuldades para interceptar esses equipamentos.
As ofensivas também bloquearam exportações de grãos pelo mar Negro, fonte essencial de receita para o país, e atingiram empresas metalúrgicas e cadeias logísticas, incluindo ferrovias e grandes depósitos. A aproximação do inverno aumenta a preocupação sobre a capacidade de manter serviços básicos. Autoridades alertam para um período "muito difícil", com risco de novos apagões e interrupções de transporte.
Diplomacia em meio ao conflito
A retomada das negociações trilaterais depende de avanços diplomáticos e da capacidade de estabilizar áreas críticas. A visita de Kushner e Witkoff foi interpretada como tentativa de reativar canais de diálogo sob mediação americana. Moscou, porém, mantém exigências sobre territórios ocupados, enquanto Kiev insiste na integridade territorial como condição para qualquer acordo.
A guerra, que já dura mais de quatro anos e meio, continua a redefinir alianças regionais e a pressionar estruturas civis. A combinação de ataques sistemáticos e incertezas diplomáticas mantém o país em estado de alerta. A expectativa sobre outubro, mencionada por Peskov, adiciona novo elemento ao cenário, mas não reduz a intensidade das ofensivas russas.
RFI com agências