Documento oficial do Vaticano quebra paradigma e inclui relatos de homens gays

Português e americano exaltaram homossexualidade como 'dádiva de Deus'

5 mai 2026 - 13h17
(atualizado às 13h55)

Um documento oficial divulgado pelo Vaticano exibe relatos detalhados de duas pessoas LGBTQIA+, um fato potencialmente inédito na história da Igreja Católica.

Cardeais durante missa do Sínodo dos Bispos, no Vaticano
Cardeais durante missa do Sínodo dos Bispos, no Vaticano
Foto: ANSA / Ansa - Brasil

Trata-se de um relatório de um grupo de trabalho do Sínodo dos Bispos sobre "questões doutrinais, pastorais e éticas emergentes", que inclui extensas declarações de dois homens gays, um dos Estados Unidos e outro de Portugal.

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"É um avanço importante para a Igreja Católica", celebrou o padre jesuíta americano James Martin, paladino dos direitos de minorias sexuais.

"O relatório inclui o testemunho de dois católicos LGBTQ. Pelo que sei, é a primeira vez que histórias tão detalhadas de pessoas LGBTQ são colocadas em um relatório oficial do Vaticano", acrescentou o prelado.

Em seu testemunho, o cidadão americano citado no documento afirma que sua sexualidade "não é uma perversão, um transtorno ou uma cruz, mas sim uma dádiva de Deus". "Tenho um casamento feliz e saudável e estou prosperando como um católico assumidamente gay. Foram necessários anos de oração, terapia e uma comunidade acolhedora para chegar até aqui, mas agradeço a Deus pela minha sexualidade e pela minha posição na vida", diz.

Segundo ele, que não teve o nome divulgado, ser homossexual é um "modo poderoso e bonito de refletir a imagem de Deus no mundo". "Ser gay me torna mais empático, atencioso, apaixonado por justiça e criativo. Claro, também tenho meus defeitos, inseguranças e pecados, mas estes não têm relação com minha orientação sexual", acrescenta.

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No relato, o americano conta que conheceu seu atual marido há cinco anos e que o casamento o ajudou a ser um "discípulo de Cristo", após ele ter iniciado sua primeira relação homoafetiva somente aos 28. Além disso, cita o uso do termo "viadagem" pelo finado papa Francisco como exemplo de homofobia e transfobia na Igreja Católica, bem como a postura do Vaticano de "reduzir as pessoas transgênero e suas experiências a uma 'ideologia'".

"Sempre que me sinto desencorajado, eu volto para a minha paróquia local. É fácil ficar com raiva de uma igreja institucional que parece não me conhecer. É muito mais difícil ficar com raiva dos meus irmãos católicos que amo e que me amam", declara.

Já o português relata que conheceu seu marido aos 19 anos de idade, duas décadas atrás, e que ambos compartilham uma vida de fé, serviço e amor". "Minha sexualidade não define minha vida, mas é parte intrínseca de mim; sem reconhecê-la, não posso ser completo", salienta.

Ele também conta que, certa vez, foi aconselhado na Igreja a se casar com uma mulher para "encontrar paz", já que o matrimônio não é "apenas sobre sexualidade". "Senti-me ofendido: era uma sugestão para prejudicar uma mulher, roubando-lhe a chance de ser completamente amada e desejada, tudo para cumprir uma expectativa social", diz.

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Segundo o português, o "momento decisivo" de sua vida aconteceu ao perceber que o "verdadeiro pecado" não era seu "amor", mas sim sua "falta de confiança no desejo de Cristo de uma vida plena" para ele. "Jesus nos quer íntegros, não quebrados ou escondidos", afirma.

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