Derrota eleitoral de Trump dá a parceiros comerciais dos EUA margem para resistir

4 nov 2026 - 08h27
Resumo
A vitória democrata no Congresso dos EUA, motivada pela insatisfação com a inflação e as tarifas de Donald Trump, enfraqueceu politicamente o presidente e abriu margem para parceiros comerciais resistirem às suas pressões. Países como Japão, Coreia do Sul e Índia ganham tempo para reavaliar investimentos prometidos sob ameaça tributária. A China também pode usar esse momento para obter vantagens diplomáticas, embora analistas alertem que Trump pode reagir intensificando exigências externas.

Uma reação contra o Partido Republicano do presidente dos ‌Estados Unidos, Donald Trump, motivada pelo aumento do custo de vida nas eleições de meio de mandato, pode encorajar países em todo o mundo a resistir às políticas comerciais agressivas de Trump, que elevaram os preços para os consumidores norte-americanos.

Os democratas conquistaram a maioria tanto no Senado quanto na Câmara dos Deputados dos EUA na terça-feira, quando os eleitores norte-americanos deram uma reprimenda contundente às políticas de Trump, especificamente às tarifas e à guerra contra o Irã, que eles culpam pela inflação persistente.

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Isso poderia dar aos países mais motivos para adiar as promessas de investimento que fizeram para evitar as tarifas e conceder à China, rival econômica dos EUA, uma ⁠vantagem percebida nas negociações comerciais em andamento, afirmaram analistas políticos e economistas.

A próxima grande viagem internacional de Trump será à Ásia no final deste mês, onde ele deve se ‌reunir com líderes do Sudeste Asiático nas Filipinas e, em seguida, participar do Fórum de Cooperação Econômica Ásia-Pacífico (Apec) em Shenzhen, na China.

O Japão e a Coreia do Sul, os aliados mais próximos dos Estados Unidos na Ásia, prometeram US$550 bilhões e US$350 bilhões, respectivamente, em investimentos nos EUA no ano passado, por meio de ‌acordos firmados com Trump.

"Os democratas parecem perceber que os compromissos de investimento foram impostos aos aliados", disse ‌Heo Yoon, professor de economia da Universidade Sogang, em Seul, acrescentando que os países podem agora sentir menos pressão para cumprir tais compromissos.

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Mas outros alertaram que ⁠Trump, criticado em seu próprio país, poderia pressionar ainda mais os aliados no exterior, forçando-os a cumprir os investimentos prometidos para mostrar que suas políticas estão funcionando.

"A questão das tarifas não acabou. Se a resposta do Japão for lenta, os apelos por tarifas adicionais podem ressurgir", disse Kazuhiro Maeshima, professor de política dos EUA na Universidade Sophia, em Tóquio.

A Coreia do Sul tornou-se um alvo da ira de Trump contra países que, segundo ele, não cumpriram as promessas de investimento feitas para evitar as tarifas que, segundo ele, são necessárias para reequilibrar o comércio dos EUA tanto com aliados quanto com rivais. Mais recentemente, Seul rebateu as afirmações de Trump de ‌que teria concordado em financiar o Alaska LNG, um projeto de gasoduto de gás natural liquefeito.

Embora Trump ainda possa exercer poder executivo sobre a política tarifária, Ban Kil-joo, professor ‌de relações internacionais da Academia Diplomática Nacional da Coreia, ⁠disse que o escrutínio do Congresso dos EUA ⁠sobre tais projetos poderia dar a Seul "mais tempo valioso" para analisá-los e avaliá-los.

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TRUMP CONTROLADO OU DESENFREADO?

Para países como a Índia, que ainda estão negociando acordos comerciais com os Estados Unidos, ⁠os resultados das eleições de meio de mandato poderiam servir de incentivo para adotar uma postura de ‌esperar para ver, segundo analistas.

O ministro do Comércio da ‌Índia afirmou no início deste mês que a primeira fase de um acordo comercial entre a Índia e os EUA estava nos estágios finais de elaboração, mas reiterou que Nova Délhi só seguiria adiante se garantisse uma vantagem sobre os exportadores concorrentes.

Nova Délhi e Washington chegaram a um acordo em fevereiro sobre um quadro que reduziu de 50% para 18% a tarifa punitiva sobre a maioria dos produtos indianos, imposta em agosto do ano passado após o ⁠fracasso de uma rodada anterior de negociações.

Após as eleições de meio de mandato, a Casa Branca pode enfrentar maior pressão para evitar um retorno às guerras comerciais, que poderiam elevar ainda mais os custos para os consumidores norte-americanos, afirmou Tommy Xie, chefe de pesquisa macroeconômica para a Ásia do OCBC Bank.

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Outros, no entanto, alertaram contra a possibilidade de Trump se tornar mais flexível.

"Países como a Índia devem permanecer cautelosos. Uma vitória democrata não tornará necessariamente Trump mais flexível em relação a qualquer país", disse Rajiv Bhatia, ex-diplomata indiano e membro do Gateway House, um centro de estudos.

Bhatia acrescentou ‌que a Índia deve se preparar melhor diplomaticamente e se envolver mais ativamente com o Congresso dos EUA para pressionar por suas preocupações em relação ao comércio, tarifas e questões relacionadas a vistos.

A China, que firmou uma frágil trégua comercial com os Estados Unidos que expira em janeiro, estará pensando em maneiras de ⁠usar a fragilidade política de Trump para fortalecer sua posição nas negociações comerciais, afirmaram analistas.

"Xi Jinping reconhecerá que a autoridade de Trump foi bastante enfraquecida por esses resultados e, sem dúvida, estará pensando em maneiras de explorar isso", disse Saul Eslake, economista da Corinna Economic Advisory, na Austrália.

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Mas outros afirmaram que as dificuldades de Trump não são necessariamente uma boa notícia para Pequim.

O presidente dos EUA não mediu esforços para melhorar as relações com Xi — incluindo recebê-lo para uma luxuosa visita de Estado no mês passado — e um Congresso controlado pelos democratas pode limitar sua capacidade de oferecer incentivos para acordos futuros.

"É improvável que os democratas deem carta branca a Trump para negociar com Pequim", disse Alicia Garcia-Herrero, economista-chefe para a Ásia-Pacífico da Natixis, acrescentando que eles já haviam criticado as cúpulas de Trump com Xi por apresentarem conteúdo limitado em questões-chave como a inteligência artificial.

É mais provável que um Congresso democrata apoie controles mais rígidos sobre as exportações de tecnologia e um escrutínio mais rigoroso das cadeias de suprimentos de IA e chips, o que dará a Trump menos flexibilidade para fazer concessões que afetem esses segmentos de alto crescimento, acrescentou ela.

A porta-voz do Ministério das Relações Exteriores da China, Mao Ning, disse aos repórteres nesta quarta-feira que as eleições de meio de mandato são um assunto interno dos Estados Unidos e que Pequim continuará a lidar com as divergências e a ampliar a cooperação com Washington.

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