De volta de Ceuta, jovens marroquinos continuam sonhando com a Europa

Embora a maioria dos cerca de 70 mil migrantes marroquinos que atravessaram ilegalmente a fronteira do enclave espanhol de Ceuta na semana passada já tenha retornado ao Marrocos, muitos continuam determinados a tentar novamente. Apesar das cenas de violência registradas durante e após a travessia, parte desses jovens marroquinos ainda sonha com a possibilidade de construir um futuro em território europeu.

6 ago 2026 - 15h46
(atualizado às 15h52)

Matthias Raynal, correspondente da RFI em Casablanca (Marrocos), com agências

Nos bairros populares de Casablanca, não é difícil encontrar jovens que continuam vendo a Europa como a única saída para escapar do desemprego e da falta de perspectivas. Ali, de 22 anos, estava há apenas seis dias entre os milhares de marroquinos que conseguiram entrar em Ceuta. Sentado em um salão de cabeleireiro da medina de Casablanca, ele relembra a travessia.

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"Eles nos maltrataram. Ainda estamos sofrendo. Agradeço a Deus por estar vivo. Vi a morte com meus próprios olhos", conta.

A medina de Casablanca é um bolsão de pobreza no coração da capital econômica do Marrocos. "Muitos jovens partiram daqui. Eu não me arrependo, quero continuar tentando. Vou continuar pensando na Europa até ficar velho. Nosso país é bonito, mas a Europa é melhor. Se você ficar aqui, pode trabalhar durante 30 anos e ainda assim não sair do lugar, como um hamster girando na roda", avalia. 

Ao lado dele, Mohammed, de 17 anos, já tentou emigrar ilegalmente cinco vezes em apenas um ano. "Já fui preso duas vezes. Não aguento mais. Psicotrópicos, haxixe, álcool... Aqui se consome todo tipo de droga. Como ainda sou menor de idade, indo para a Europa, ainda posso me salvar", espera.

A falta de emprego é um dos principais problemas enfrentados pelos jovens marroquinos. Em 2025, a taxa de desemprego entre as pessoas de 15 a 24 anos chegou a 37% no país.

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Crise migratória mortal

Segundo o Ministério do Interior da Espanha, cerca de 72 mil pessoas entraram em Ceuta durante a crise migratória da semana passada. Aproximadamente 70 mil delas já retornaram ao Marrocos.

Pelo menos 79 migrantes morreram, principalmente por afogamento, segundo o último balanço divulgado pelas autoridades de Ceuta. Do lado marroquino da fronteira, Rabat informou a morte de outras 11 pessoas, elevando para ao menos 90 o número de vítimas da crise migratória.

Escoltados pelo exército espanhol, os migrantes que cruzaram para a Espanha retornam ao Marrocos a partir do enclave espanhol de Ceuta no sábado, 1º de agosto de 2026.
Escoltados pelo exército espanhol, os migrantes que cruzaram para a Espanha retornam ao Marrocos a partir do enclave espanhol de Ceuta no sábado, 1º de agosto de 2026.
Foto: RFI

Menores desacompanhados preocupam autoridades espanholas

A crise migratória também gera preocupação do lado espanhol. O presidente de Ceuta, Juan Jesús Vivas, alertou nesta quarta-feira (5) que a situação dos menores que permaneceram no enclave após a entrada maciça de migrantes na semana passada se tornou "insustentável".

Segundo ele, os centros de acolhimento para menores operam com uma taxa de ocupação 2.600% acima da capacidade considerada crítica. Cerca de 1.100 menores estariam atualmente na cidade autônoma em condições precárias.

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A ONG Save the Children já havia alertado para a superlotação dessas estruturas. A organização afirma que o sistema de proteção de Ceuta acolhe atualmente cerca de mil crianças, apesar de dispor de apenas uma centena de vagas.

Em entrevista à televisão pública espanhola, Juan Jesús Vivas pediu ajuda ao restante do país para administrar a situação. Pela legislação espanhola, outras regiões devem colaborar no acolhimento de menores provenientes de territórios sob forte pressão migratória. Na prática, porém, a medida enfrenta resistência em algumas comunidades autônomas governadas pelo Partido Popular (PP) e pelo partido de extrema direita Vox.

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