Segundo comunicado da Guarda de Finanças italiana, a investigação - descrita como "complexa" - foi conduzida pela polícia econômica e financeira de Palermo e permitiu reconstruir "um patrimônio considerável", fruto do reinvestimento de grandes quantias obtidas por atividades de narcotráfico realizadas desde os anos 1980 sob comando da Cosa Nostra.
Parte desses fluxos financeiros, acumulados ao longo de mais de 40 anos, era sistematicamente destinada a Matteo Messina Denaro, um dos principais líderes da Cosa Nostra. O mafioso foi capturado em janeiro de 2023, em Palermo, após permanecer três décadas foragido, enquanto fazia tratamento contra um câncer. Líder do clã de Castelvetrano, na Sicília, ele acumulava seis condenações à prisão perpétua e morreu poucos meses após ser detido, aos 61 anos.
De acordo com as autoridades italianas, os recursos ilícitos "foram progressivamente reinseridos nos circuitos da economia legal" e hoje estão distribuídos em "uma multiplicidade de instrumentos financeiros, participações acionárias, contas bancárias, holdings e outros veículos financeiros" localizados principalmente na Espanha, Luxemburgo, principado de Mônaco, ilhas Cayman, Líbano e Gibraltar. Além desses países e da Itália, operações também estão em andamento em Andorra e na Suíça.
O procurador nacional antimáfia da Itália, Giovanni Melillo, classificou a operação como "de grande importância estratégica". Durante coletiva de imprensa em Palermo, ele afirmou que o objetivo não era apenas "identificar e retirar de uma organização ainda poderosa como a Cosa Nostra uma parte significativa das riquezas acumuladas ilegalmente ao longo de décadas de tráfico e exploração parasitária do território", mas também dificultar a reorganização da máfia após a morte de Messina Denaro.
Busca por esconderijos secretos
Os investigadores identificaram oito empresas estrangeiras utilizadas para investimentos imobiliários e gestão patrimonial, além de inúmeras contas bancárias e carteiras de títulos avaliadas em cerca de € 12,5 milhões. A operação também apreendeu participações de alto valor em um banco libanês e investimentos em metais preciosos, incluindo mais de 12 quilos de ouro.
"Os imóveis identificados, 22 ao todo, muitos deles verdadeiros complexos hoteleiros de luxo localizados entre Marbella, Benahavís e Puerto Banús, em algumas das áreas mais exclusivas da Costa del Sol, na Espanha, possuem valor excepcional", informou a polícia italiana.
Para localizar bens ocultos, os agentes utilizaram meios aéreos, drones e scanners térmicos na busca por compartimentos secretos e cavidades escondidas. Especialistas em análise computacional também participaram da investigação para rastrear carteiras digitais e criptomoedas.
A investigação, que levou à prisão preventiva de três pessoas, começou após uma denúncia das autoridades de Andorra envolvendo uma mulher natural da cidade siciliana de Campobello di Mazara, considerada detentora de "recursos econômicos significativos". Segundo a Guarda de Finanças, verificações posteriores mostraram que ela havia sido casada com um traficante de drogas de alta periculosidade, condenado diversas vezes e com fortes ligações com a Cosa Nostra.
Matteo Messina Denaro era considerado um dos chefes mais violentos da máfia siciliana, retratada na cultura popular por filmes como O Poderoso Chefão. Ele foi condenado à prisão perpétua à revelia por participação nos assassinatos dos juízes antimáfia Giovanni Falcone e Paolo Borsellino, em 1992, além de atentados a bomba em Roma, Florença e Milão em 1993.
Uma das condenações mais brutais atribuídas ao mafioso refere-se ao sequestro e assassinato do filho de 12 anos de uma testemunha do caso Falcone. O menino foi estrangulado, e seu corpo posteriormente dissolvido em ácido.
Com AFP