Para proteger seu patrimônio agrícola da guerra contra a Rússia, a Ucrânia enviou 773 amostras de sementes para a Reserva Global de Svalbard, no Ártico norueguês. Conhecida como a "Arca de Noé" vegetal, a instalação subterrânea e ultrarresistente preserva a diversidade genética global contra conflitos e crises climáticas. A medida visa salvaguardar espécies estratégicas cruciais para a segurança alimentar mundial e garantir a futura reconstrução da produção do país no pós-guerra.
No extremo norte do planeta, a mais de mil quilômetros do Polo Norte, existe uma instalação projetada para sobreviver a guerras, desastres naturais, crises climáticas e até falhas tecnológicas. Escavada no interior de uma montanha do arquipélago norueguês de Svalbard, a Reserva Global de Sementes abriga mais de 1,4 milhão de amostras vegetais vindas de todos os continentes.
O local costuma ser descrito como uma espécie de "Arca de Noé" da agricultura mundial. Seu objetivo é simples e ambicioso ao mesmo tempo: preservar a diversidade genética das plantas cultivadas pela humanidade caso coleções nacionais sejam destruídas por conflitos, catástrofes ou acidentes.
Foi para esse refúgio polar que a Ucrânia decidiu enviar, pela primeira vez desde o início da invasão russa em fevereiro de 2022, uma parte de seu patrimônio genético agrícola.
Ao todo, foram depositadas 773 amostras de sementes, incluindo diferentes variedades de girassol, cereais, trigo-sarraceno e plantas utilizadas na alimentação de animais.
A decisão reflete uma preocupação crescente das autoridades e dos cientistas ucranianos. O país é um dos maiores produtores agrícolas do mundo e ocupa papel central no fornecimento internacional de grãos, óleos vegetais e outros produtos alimentares. Sua riqueza agrícola não se resume, porém, aos campos cultivados atualmente. Ela está também armazenada em bancos genéticos que preservam milhares de variedades desenvolvidas ao longo de décadas.
Segundo dados da Organização das Nações Unidas para a Alimentação e Agricultura (FAO), a coleção genética ucraniana reúne cerca de 154 mil amostras pertencentes a aproximadamente 2.000 espécies vegetais diferentes.
Um tesouro ameaçado pela guerra
A guerra tornou essa riqueza particularmente vulnerável. Uma parte importante do acervo genético do país era mantida em Kharkiv, no leste da Ucrânia, cidade que sofreu repetidos ataques desde os primeiros meses da invasão russa. Embora a coleção tenha sido transferida para regiões mais seguras do oeste ucraniano, longe da linha de frente, especialistas continuaram preocupados com os riscos associados ao conflito.
A preservação de sementes raramente ganha destaque em meio às notícias diárias sobre bombardeios, ofensivas militares ou negociações diplomáticas. No entanto, essas coleções desempenham papel fundamental para o futuro da agricultura. Cada variedade armazenada contém características genéticas únicas. Algumas apresentam maior resistência a secas. Outras suportam temperaturas extremas, pragas ou doenças específicas. Em um contexto de aquecimento global e eventos climáticos cada vez mais frequentes, essa diversidade é considerada estratégica para a segurança alimentar global.
Perder essas coleções significaria perder décadas, e em alguns casos séculos, de adaptação das plantas às condições ambientais. É justamente por isso que países ameaçados por guerras ou desastres frequentemente recorrem a Svalbard como uma camada adicional de proteção.
Um cofre construído para resistir ao "fim do mundo"
A localização da reserva não foi escolhida por acaso. Svalbard está situada no Ártico norueguês, uma das regiões mais isoladas e seguras do planeta. O complexo foi construído dentro de uma montanha e protegido por espessas camadas de rocha. Seu sistema de armazenamento utiliza baixíssimas temperaturas para garantir a conservação das sementes por longos períodos.
Mesmo que os equipamentos de refrigeração parem de funcionar, o ambiente permanece naturalmente frio graças ao permafrost, o solo permanentemente congelado característico das regiões polares. A instalação foi concebida para suportar cenários extremos, desde conflitos armados até desastres naturais de grandes proporções.
A robustez do projeto já foi colocada à prova. Em 2016, o derretimento de gelo provocado pelo aumento das temperaturas no Ártico permitiu a infiltração de água no túnel de acesso da reserva. As sementes armazenadas não foram atingidas, mas o incidente levou as autoridades norueguesas a realizar uma ampla obra de reforço da estrutura, com investimentos estimados em cerca de € 20 milhões.
O episódio chamou atenção para um paradoxo: a instalação criada para proteger a agricultura das mudanças climáticas também precisa se adaptar aos efeitos do próprio aquecimento global.
Segurança alimentar
A chegada das sementes ucranianas a Svalbard possui um significado que vai além da preservação científica. Desde o início da invasão russa, a agricultura tornou-se um dos principais campos de disputa econômica do conflito. Ataques a portos, dificuldades de exportação, destruição de silos e danos a áreas cultiváveis afetaram um setor responsável por abastecer dezenas de países.
Em diversas regiões da África, do Oriente Médio e da Ásia, o trigo, o milho e o óleo de girassol produzidos na Ucrânia desempenham papel importante na segurança alimentar. Proteger o patrimônio genético agrícola do país significa também preservar recursos que poderão ser necessários para reconstruir a produção após a guerra.
A decisão de enviar parte da coleção nacional para o Ártico revela uma preocupação de longo prazo. Em meio a um conflito que já dura mais de quatro anos, autoridades e pesquisadores tentam garantir não apenas a sobrevivência das colheitas atuais, mas também das sementes que poderão abastecer os campos das próximas décadas.