O que começou como uma inocente guerra de bolas de neve durante a nevasca em Nova York (EUA), se transformou em um embate entre o prefeito Zohran Mamdani e o comando da polícia da cidade.
Um vídeo gravado na tarde de segunda-feira (23/2), no Washington Square Park, mostra uma guerra de bolas de neve após uma forte tempestade de inverno que, segundo as imagens, terminou com frequentadores aparentemente atirando bolas de neve contra policiais que estavam no local.
Mamdani afirmou mais tarde que os envolvidos não deveriam responder a acusações criminais e pediu para que os moradores de Nova York tratassem os policiais com respeito. Mas sua resposta o colocou em confronto com os líderes da polícia, que definiram suas declarações como "vergonhosas".
Na terça-feira (24/2), o Departamento de Polícia de Nova York (NYPD, na sigla em inglês) divulgou fotos de quatro pessoas que, segundo a corporação, agrediram policiais com bolas de neve, causando ferimentos.
"Eu quero ser muito clara", escreveu a comissária da polícia de Nova York, Jessica Tisch, nas redes sociais no dia da confusão: "O comportamento retratado é vergonhoso e criminoso".
Vídeos virais da guerra de bolas de neve circularam nas redes sociais TikTok e X nos dias seguintes à tempestade que despejou cerca de 50 centímetros de neve sobre a cidade. O Washington Square Park, em Greenwich Village, bairro de Manhattan, costuma reunir grandes multidões em dias de neve, com atividades e guerras de bolas de neve, incluindo outra realizada poucas semanas antes, durante a última grande tempestade.
Mas o tom do confronto de segunda-feira mudou. Após a chegada de policiais do NYPD, acionados por chamadas ao número de emergência 911, vídeos mostram pessoas gritando palavrões e atirando bolas de neve enquanto os policiais retornavam às viaturas.
O departamento agora procura quatro homens descritos como tendo aproximadamente entre 18 e 20 anos.
Um porta-voz do NYPD afirmou que eles "atingiram intencionalmente os policiais várias vezes com neve e gelo na cabeça, no pescoço e no rosto, causando ferimentos". Os policiais foram levados ao hospital e estão em condição estável.
Em entrevista coletiva na terça-feira (24/02), Mamdani disse ter visto vídeos do incidente e afirmou que, em sua avaliação, não cabem acusações.
"Pelos vídeos que vi, parecia crianças em uma guerra de bolas de neve", declarou Mamdani.
Em uma publicação posterior nas redes sociais, o prefeito incentivou os moradores a respeitar os policiais e outros funcionários municipais.
"Os policiais, assim como todos os servidores da cidade, estiveram nas ruas durante uma nevasca histórica, mantendo os nova-iorquinos seguros e os carros em movimento. Tratem-nos com respeito", disse. "Se alguém vai levar uma bola de neve, sou eu."
Na quarta-feira (25/02), Mamdani voltou a afirmar que o que viu "foi uma guerra de bolas de neve", reconhecendo que "saiu do controle, mas que foi isso que aconteceu".
O prefeito também incentivou, em tom de brincadeira, que estudantes da rede municipal jogassem bolas de neve nele por ter reaberto as escolas após a nevasca. No entanto, para alguns críticos a tentativa de aliviar o clima não surtiu efeito.
"A resposta do prefeito é um fracasso completo de liderança. Isso não foi apenas uma 'guerra de bolas de neve'. Isso foi uma agressão — cometida por adultos atirando pedaços de gelo e pedras — que levou dois policiais ao hospital com ferimentos na cabeça e no rosto", afirmou, em comunicado na terça-feira (24/02), Patrick Hendry, presidente da Police Benevolent Association (PBA).
"O prefeito enviou uma mensagem vergonhosa a todos os policiais que servem esta cidade e uma mensagem perigosa a qualquer pessoa que possa estar pensando em atacar um policial no futuro."
A SBA, uma associação de sargentos da polícia, concordou. "Hoje são bolas de neve. Amanhã podem ser pedras, garrafas ou algo pior", afirmou o presidente do sindicato, Vincent Vallelong.
Este foi o primeiro grande embate dos sindicatos com o prefeito, que, antes de tomar posse, pediu desculpas por comentários anteriores nos quais chamou o NYPD de "racista" e "uma ameaça à segurança pública". Durante sua campanha à Prefeitura, adversários o retrataram repetidamente como hostil à polícia e leniente em relação à segurança pública.
Após ser eleito em novembro, Mamdani pediu a Tisch, nomeada pelo ex-prefeito Eric Adams, que permanecesse no cargo. A permanência de Tisch, amplamente popular entre moderados e líderes empresariais, foi vista por alguns como uma tentativa de Mamdani de dissipar preocupações de que adotaria postura branda contra o crime.
A tensão entre prefeitos e sindicatos policiais não é um fenômeno novo, afirmou Basil Smikle, estrategista político e ex-diretor executivo do Partido Democrata estadual, especialmente quando esses prefeitos têm histórico de defender reformas no sistema de Justiça criminal.
"O prefeito está trilhando uma linha tênue ao não alimentar narrativas sobre jovens negros e pardos nesta cidade, o que é importante", disse. Mas acrescentou: "Os próprios policiais e a PBA sempre serão sensíveis a qualquer percepção de que o prefeito não está defendendo a polícia."
Como exemplo, Smikle citou o ex-prefeito de Nova York Bill de Blasio, cuja relação com sindicatos policiais se tornou hostil após ele apontar disparidades raciais na atuação policial. O então presidente da PBA acusou De Blasio de ter "sangue" nas mãos depois que dois policiais foram mortos a tiros durante seu mandato.
Segundo Smikle, a retórica anterior de Mamdani faz com que qualquer comentário que ele faça sobre a polícia seja analisado sob escrutínio.
"Alguns podem encarar esse incidente como algo relativamente inocente, mas é difícil dissociá-lo do que pode facilmente ser interpretado como animosidade contra a polícia", afirmou. "Ele sempre será visto à luz dessas declarações anteriores."