Michel Paul, correspondente da RFI em Jerusalém
As imagens correram o mundo e provocaram choque e indignação: um soldado israelense, empunhando uma marreta, destrói uma estátua de Cristo dentro de um santuário, no sul do Líbano. A cruz fazia parte de um pequeno altar no jardim de uma família cristã que vive na periferia da aldeia, afirmou Fadi Falfel, padre em Debel (sul). Para além do ato de vandalismo, o episódio levanta questionamentos profundos sobre o que está acontecendo no interior das Forças Armadas de Israel.
Uma série de incidentes desse tipo dentro do Exército israelense seria impensável há dez anos. O primeiro caso: quatro combatentes da guarda de fronteiras, entre eles uma jovem de 19 anos, foram condenados à prisão. O "crime" teria sido organizar um churrasco em uma base isolada, em uma noite de sexta‑feira. A justificativa oficial da punição foi uma "ofensa à religião e ao judaísmo".
Condenados inicialmente a 21 dias de detenção, tiveram as penas reduzidas para 14 dias após recurso e, mais tarde, para apenas sete dias, depois da repercussão negativa na imprensa e das críticas que apontaram falta de proporcionalidade na punição.
Outro episódio chamou atenção durante a maratona de Jerusalém: sob uma onda de calor sufocante, soldados mulheres foram obrigadas a correr usando calças compridas por razões de "pudor", enquanto seus colegas homens competiam de bermuda. Em um terceiro caso, o absurdo alcançou outro patamar: jovens militares recém‑liberadas do serviço foram julgadas e multadas no próprio dia da saída do quartel.
O motivo foi terem trocado o uniforme por roupas civis consideradas "indecorosas" para tirar fotos de despedida. Para o diário de oposição Haaretz, trata‑se da instalação de uma verdadeira polícia dos costumes que se estende até os últimos instantes do serviço militar obrigatório.
Serviços de inteligência também são atingidos
A questão, no entanto, não se limita à vestimenta ou à alimentação. Ela parte da cadeia de comando e se infiltra até mesmo nos serviços de inteligência. A nomeação de David Zini como novo diretor do serviço de segurança interna, o Shin Bet, escolhido pelo primeiro‑ministro Benjamin Netanyahu, concentra as preocupações.
Logo após assumir o cargo, o Monte do Templo passou a ser a imagem de tela de descanso de todos os computadores da agência. Mais grave ainda: sob sua direção, episódios de violência cometidos por colonos contra palestinos deixaram de ser classificados como "terrorismo judaico" e passaram a ser definidos como simples "atritos".
David Zini envia semanalmente comentários sobre a porção da Torá da semana aos chefes de departamento do Shin Bet. Para muitos, trata‑se de um deslizamento ideológico em direção a um modelo messiânico, no qual textos religiosos substituem o código penal.
Símbolos religiosos nos uniformes de combate
Esse deslocamento ideológico encontra reflexo concreto e visível na prática. Símbolos religiosos começaram a aparecer nos próprios uniformes de combate. Fotografias mostram reservistas usando emblemas não regulamentados costurados nas mangas: "Caçadores do Hamas", "Chegou a hora da violência" ou mapas do chamado "Grande Israel". O mais conhecido deles é o distintivo do "Messias".
O próprio chefe do Estado‑Maior arrancou pessoalmente um desses emblemas do braço de um soldado no Líbano, ordenando que fosse guardado "no bolso", mas não exibido no uniforme.
Questionados, alguns reservistas afirmam que não se trata de provocação, mas de expressão da fé pessoal.
Para uma parcela significativa da sociedade israelense, especialmente os setores laicos, isso representa mais um passo rumo ao colapso da ética de um Exército que, entre duas frentes de batalha, trava talvez sua disputa mais decisiva: a de sua própria identidade.
Por que ultraortodoxos seguem rejeitando o serviço militar
O debate é particularmente intenso em Israel, ainda mais no contexto da guerra em Gaza. A questão é como enviar para a linha de frente, de forma massiva, os estudantes da religião judaica, os haredim. Tradicionalmente, eles dedicam a vida ao estudo da Torá e do Talmude, o que lhes garantiu, por décadas, isenção do serviço militar obrigatório.
Desde junho de 2023, no entanto, esse regime de exceção expirou e eles passaram a ser obrigados a se alistar. Mesmo assim, a resposta da comunidade tem sido mínima.
Os haredim - termo que significa "os que temem a Deus", em hebraico - seguem resistindo à convocação. Desde que a Suprema Corte israelense determinou o alistamento, no ano passado, cerca de 24 mil deles teriam recebido ordens de incorporação. A imensa maioria simplesmente não se apresentou.
"Sim, recebi minha convocação. Mas vou continuar estudando. Não cogito ir para o Exército em hipótese alguma", afirma um estudante de 20 anos, encontrado na entrada de uma yeshiva - escola religiosa - em Jerusalém. "Somos guiados pela coluna de fogo da Torá, por algo imenso e divino. Tudo isso não nos diz respeito", continua o jovem. Mesmo estando, portanto, fora da lei, a maioria dos haredim acredita servir a Israel "por meio de suas orações".
Esse discurso, porém, encontra cada vez menos respaldo na opinião pública, sobretudo depois do ataque de 7 de outubro de 2023. Shlomit Ravitsky Tur‑Paz, pesquisadora do Instituto Israelense para a Democracia, um centro de estudos de perfil progressista, descreve um quadro de exaustão social.
"O chamado aos reservistas é enorme. Antes, a mobilização era de um mês por ano e não atingia todo mundo. Agora, é uma população muito mais ampla, convocada às vezes por até 300 dias por ano", explica a responsável pelo programa Religião e Estado do instituto. "Tudo está se desintegrando. As pessoas, suas famílias, seus negócios, simplesmente não estão aguentando mais. Precisamos, de forma urgente, de mais soldados", conclui a pesquisadora.