A eleição na Saxônia-Anhalt pode levar o partido de direita radical AfD ao poder estadual inédito no pós-Segunda Guerra. Liderada por Ulrich Siegmund, a sigla cresce impulsionada pela insatisfação econômica e anti-imigração, apesar de classificada como extremista e acusada de proximidade com a Rússia. Seu programa prevê medidas rígidas contra migrantes e pautas conservadoras, desafiando a tentativa de isolamento político pelos demais partidos e fragilizando o governo federal do chanceler Friedrich Merz.
Todos os olhos da Alemanha estão voltados para o leste do país neste domingo (06/09), onde ocorrerá uma eleição de grande impacto.
O partido Alternativa para a Alemanha (AfD) pretende garantir a maioria no parlamento regional da Saxônia-Anhalt.
Uma vitória absoluta marcaria a primeira vez que um partido de direita radical assumiria o poder em nível estadual na Alemanha depois da Segunda Guerra Mundial (1939-1945).
Para os oponentes do AfD, este é um grave perigo. Já o partido vê as eleições locais como um trampolim rumo ao seu sonho de alcançar o poder em todo o país.
O resultado também pode trazer novos problemas para o chanceler conservador (CDU) Friedrich Merz, que enfrenta dificuldades e dúvidas se conseguirá concluir seu mandato.
Vaiado em aparições públicas recentes, Merz dificilmente é visto como um trunfo eleitoral.
Talvez o chanceler se arrependa da promessa de deter a ascensão da direita radical, visto que aconteceu exatamente o contrário.
Em contrapartida, o carismático candidato principal do AfD no estado, Ulrich Siegmund, parece ter dominado as discussões e a cobertura da mídia.
Apelidado de "Homem Mais Perigoso da Alemanha" pela revista Der Spiegel, ele descartou as notícias de que seu círculo íntimo inclua homens que já fizeram parte do movimento neonazista.
O ator de 35 anos pode ser visto frequentemente, inclusive em suas muitas postagens nas redes sociais, em meio a multidões de fãs ou pilotando alegremente uma scooter retrô da Alemanha Oriental.
Uma nostalgia persistente pelo passado, juntamente com uma profunda insatisfação com o presente, alimentou a popularidade do partido em seus redutos no leste.
Eleitores expressam frustração com a imigração, a segurança pública, a economia alemã em dificuldades, os altos custos de energia e a ajuda enviada para países como a Ucrânia.
Algumas pessoas com quem conversei acreditam fervorosamente que o AfD está oferecendo uma chance real de mudança radical. Elas dizem que Ulrich Siegmund lhes deu esperança.
Outros apoiadores estão menos convictos, mas afirmam ter perdido a fé nos partidos tradicionais que dominaram a política por décadas.
Um parlamentar do AfD me disse certa vez que, se eles tivessem a chance de governar uma região, as pessoas veriam que "o céu não vai cair".
Mas o programa do partido para a Saxônia-Anhalt é altamente controverso.
A sigla quer segregar as crianças refugiadas em classes especiais: "As crianças refugiadas devem receber a mensagem de que sua estadia na Alemanha é apenas temporária."
O manifesto afirma que "desvios sexuais e estilos de vida não reprodutivos" têm sido promovidos agressivamente em detrimento das estruturas familiares "normais".
O partido argumenta que as bandeiras do arco-íris LGBT devem ser proibidas nas escolas e que as crianças devem aprender menos sobre os nazistas e mais sobre os aspectos positivos da história alemã.
Em relação à imigração, seria criada uma força-tarefa para deter e deportar migrantes que não têm mais o direito de estar no estado. O partido também pede o fim da imigração em massa "ilegal e culturalmente estrangeira".
A posição pró-Rússia do AfD também suscita alegações de que o partido não é confiável para lidar com informações sensíveis.
Quando uma caneca do exército russo foi vista no escritório de Hans-Thomas Tillschneider, figura proeminente do AfD na Saxônia-Anhalt, ele afirmou que era apenas uma lembrança e que "essa guerra não é nossa".
Isso ocorreu depois que Berlim culpou publicamente Moscou por um ataque fracassado com drones ao aeroporto de Leipzig/Halle. O Kremlin negou envolvimento.
Entretanto, fontes da área de segurança alemãs alertam que campanhas de desinformação apoiadas pela Rússia, frequentemente contra rivais do AfD, têm se intensificado — algo que os representantes de Moscou descrevem como "histeria anti-Rússia".
Os governos estaduais detêm poderes significativos em áreas como educação, policiamento e cultura, enquanto seus representantes ocupam assentos na segunda câmara do governo federal, o Bundesrat.
Um governo do AfD na Saxônia-Anhalt seria capaz de implementar mudanças localmente e obter uma voz mais forte no cenário nacional.
O partido continua mais poderoso na antiga Alemanha Oriental comunista, mas também lidera as pesquisas em todo o país.
Isso apesar dos alertas de que o partido, fundado em 2013 com uma agenda contrária à União Europeia, hoje flerta com, ou atrai, apoio extremista.
Num comício do AfD, vimos um homem vestindo uma camiseta com a palavra Arisch — a palavra alemã para "ariano" que os nazistas usavam para promover suas falsas teorias de uma raça superior.
Não sabemos se o homem era um simpatizante do partido ou um membro da sigla. Ele não quis falar conosco.
A Saxônia-Anhalt é um dos vários estados, a maioria deles no leste, onde o partido é oficialmente classificado como extremista de direita.
Órgãos de inteligência interna acusam a filial local de estar imbuída de uma "ideologia racista" e de objetivos anticonstitucionais.
O AfD, que se define como um movimento conservador e libertário, rejeita essas designações, classificando-as como difamações politizadas.
Ulrich Siegmund não descarta a possibilidade de extinguir o serviço de inteligência interna (BfV) caso o AfD conquiste a maioria.
Outros partidos não entrarão em coligação com o AfD, como parte do que é conhecido como o "Brandmauer" ou "muralha de proteção", uma tentativa de impedir a direita radical de chegar ao governo.
Para isso, é preciso conquistar uma maioria parlamentar.
A concretização desse objetivo provavelmente dependerá de outros partidos menores conseguirem votos suficientes para ultrapassar o limite de 5% que lhes permite entrar no parlamento.
A política é matemática, e na Alemanha não é diferente, mesmo que a matemática envolvida possa ser bastante complexa.
Mas se o AfD conseguir uma vitória decisiva, o partido, que usa uma retórica antissistema, enfrentará um desafio inédito.
As queixas ainda poderiam ser dirigidas ao governo federal em Berlim, mas o AfD não seria mais o único partido a criticar os que estão no poder, pois ele próprio estaria no poder.
Embora a Saxônia-Anhalt seja um estado relativamente pequeno em termos de população, está prestes a sediar uma eleição memorável.