Como civis em Teerã estão sofrendo os impactos da guerra: 'Minha filha está sob os escombros'

Para ter uma ideia de como é viver em uma Teerã sob ataque de bombas israelenses e americanas, a BBC reuniu depoimentos de testemunhas oculares e analisou imagens de redes sociais e de satélite.

27 mar 2026 - 11h06
Equipes de resgate escavam os escombros de um prédio residencial em Teerã destruído por um ataque de Israel
Equipes de resgate escavam os escombros de um prédio residencial em Teerã destruído por um ataque de Israel
Foto: BBC News Brasil

Uma mãe está em pé junto aos escombros, clamando por sua filha. Há dias ela espera que equipes de resgate comecem a escavar os restos destruídos do que antes era o apartamento de sua filha em Resalat, um bairro residencial na zona leste de Teerã, no Irã.

"Eles não têm pessoal suficiente para tirá-la de lá", diz a mulher. "Ela tem medo do escuro."

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Há um mês, o Irã está em guerra com os Estados Unidos e Israel, que têm realizado ataques em todo o país contra alvos ligados ao regime.

Mas esses ataques também estão tendo um impacto devastador sobre os civis que vivem nas proximidades. Eles estão presos entre bombardeios aéreos e um regime repressivo que respondeu aos protestos contra o governo com uma repressão brutal em janeiro.

Desde o início da guerra, a BBC Eye coletou imagens exclusivas de jornalistas independentes dentro de Teerã.

A BBC raramente tem permissão para entrar no Irã e não teve acesso desde o início da guerra. Reunimos depoimentos de testemunhas oculares, filmamos consequências dos ataques e analisamos imagens de redes sociais e de satélite.

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Nossa análise mostra que houve uma série de ataques contra alvos ligados ao Estado, localizados em bairros civis de Teerã, com consequências mortais para os moradores das redondezas.

Imagens de satélite de antes e depois mostram a destruição de um prédio da Basij e três edifícios residenciais. Os prédios são visíveis na imagem à esquerda e foram reduzidos a escombros na imagem à direita.
Foto: BBC News Brasil

Dezenas de famílias moravam no prédio de apartamentos de vários andares em Resalat antes de ele ser destruído por um ataque aéreo israelense em 9 de março.

A mulher presa nos escombros morava no complexo com o marido e a filha pequena. Dias após o ataque, ela e a filha foram encontradas mortas sob os escombros. O marido sobreviveu.

Outro prédio de apartamentos, do outro lado da rua, também foi destruído no ataque aéreo. Um homem de 55 anos, que morava lá, disse que o ataque foi "tão repentino", que ele foi "arremessado para o outro lado do cômodo".

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Ele diz que tudo o que tem agora está enterrado sob os escombros. "Não tenho mais nada. Todos os meus documentos, tudo, se foi."

Autoridades locais e moradores dizem que entre 40 e 50 pessoas morreram neste único ataque. Os desabrigados estão hospedados em um hotel próximo. "Esta era a nossa vida", acrescenta o homem.

As Forças de Defesa de Israel disseram ao Serviço Mundial da BBC que tinham como alvo um prédio militar usado pela Basij iraniana, uma força paramilitar ligada à Guarda Revolucionária do Irã.

Mas a análise das consequências sugere que o impacto se estendeu muito além desse único local.

As pessoas que antes moravam neste prédio perderam tudo e agora estão hospedadas em um hotel
Foto: BBC News Brasil

Imagens de satélite capturadas nos dias seguintes ao ataque mostram pelo menos quatro edifícios destruídos em rápida sucessão. Embora um deles fosse notoriamente associado à Basij, as estruturas ao redor parecem ter sido residenciais.

Imagens do local, verificadas pela BBC Eye, mostram destruição generalizada em toda a vizinhança. Nossa análise indica que edifícios a até 65 metros de distância foram gravemente danificados pela explosão.

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Moradores também descrevem múltiplas explosões em questão de segundos. "A explosão atingiu o local três vezes", diz um sobrevivente. "Talvez com três ou cinco segundos de intervalo. Tentei me levantar, mas os escombros caíram sobre a minha cabeça."

Especialistas militares disseram à BBC Eye que a Força Aérea Israelense provavelmente está usando bombas particularmente grandes da série Mark 80 em Teerã, que geralmente são equipadas com sistemas de orientação de precisão.

Eles acrescentaram que a escala e a extensão dos danos observados em Resalat são consistentes com o uso da Mark 84, a maior da série, pesando 907 kg.

Bombas não detonadas que correspondem a esses tipos foram fotografadas na cidade.

A ONU já havia instado países e grupos armados em guerra a evitarem o uso de bombas potentes em áreas densamente povoadas devido ao perigo para a vida de civis.

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A BBC Eye conversou com dois especialistas em direito humanitário internacional. Eles acreditam que o uso de uma bomba tão pesada em uma área densamente povoada seria desproporcional, considerando os danos potenciais aos civis, e possivelmente ilegal.

Especialistas militares afirmam que a escala e a extensão dos danos observados em Resalat são compatíveis com o uso de uma bomba poderosa chamada Mark 84
Foto: BBC News Brasil

Resalat não é um caso isolado.

Desde o início do conflito, as Forças de Defesa de Israel afirmaram ter lançado mais de 12 mil bombas em todo o Irã e 3.600 bombas somente em Teerã.

O Comando Central dos EUA afirma ter atingido mais de 9.000 alvos em todo o Irã.

Muitos desses ataques americanos e israelenses tiveram como alvo delegacias de polícia, prédios da milícia Basij, quartéis-generais da polícia, universidades militares e policiais, casas seguras, residências da Guarda Revolucionária Islâmica, bem como possíveis depósitos de munição e postos de controle.

Frequentemente, esses alvos estão localizados em bairros civis movimentados.

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Em 1º de março, um ataque israelense atingiu a delegacia de polícia de Abbasabad, perto da praça Niloufar, onde famílias estavam reunidas após quebrar o jejum do Ramadã.

Testemunhas oculares descreveram ter visto pelo menos 20 pessoas mortas, embora a BBC não tenha verificado esse número.

Testemunhas descreveram uma "luz aterrorizante" seguida por múltiplas explosões. "Corremos para a rua", disse um homem. "Um homem e uma mulher tinham acabado de sair de uma loja e foram atingidos imediatamente."

Moradores relataram múltiplos ataques em rápida sucessão ao mesmo alvo. "Não se passaram nem dois minutos", disse outra testemunha. "Quando voltamos, atacaram novamente."

As Forças de Defesa de Israel confirmaram a responsabilidade pelo ataque, afirmando que "atingiram um alvo militar".

A análise da BBC Eye sobre a zona de impacto sugere que, assim como em Resalat, os danos se estenderam muito além do alvo identificado.

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De acordo com o direito internacional humanitário, todas as partes em um conflito devem distinguir entre bens civis e objetivos militares.

O dano esperado a civis ou edifícios civis deve ser proporcional à vantagem militar esperada obtida com aquela ação específica. Também exige que as partes evitem, na medida do possível, posicionar alvos militares dentro ou perto de áreas densamente povoadas.

Imagens de satélite de antes e depois mostram a destruição de uma delegacia de polícia na praça Niloufar e um raio de 70 metros ao redor, onde outros edifícios foram danificados pela explosão.
Foto: BBC News Brasil

A agência de notícias HRANA (Human Rights Activists News Agency), sediada nos EUA, afirma que 1.464 civis, incluindo pelo menos 217 crianças, foram mortos no Irã no primeiro mês do conflito.

Moradores disseram à BBC Eye que os ataques a áreas residenciais podem agravar o ressentimento, mesmo entre aqueles que antes criticavam o regime iraniano.

A BBC questionou as Forças de Defesa de Israel sobre os incidentes relatados nesta reportagem. Elas confirmaram os ataques, mas não fizeram mais comentários. O Departamento de Defesa dos EUA não respondeu.

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O Irã também atacou infraestrutura civil e prédios residenciais em países vizinhos durante a guerra, como aeroportos e hotéis, principalmente em nações do Golfo aliadas a Washington.

Em Teerã, moradores criticaram as autoridades iranianas por sua resposta à guerra. Eles disseram à BBC que houve pouca provisão visível de medidas básicas de segurança, incluindo abrigos públicos, apoio à evacuação ou acomodação temporária para os deslocados.

Várias pessoas com quem conversamos disseram que não receberam nenhuma orientação sobre para onde ir ou como se proteger durante os ataques. "Não há sirenes, nem avisos", disse um morador. "Só se ouve a explosão."

Na ausência de comunicação clara e em meio a um apagão contínuo da internet, muitos descreveram sentir-se expostos e incertos, sem saber quando ou onde o próximo ataque poderia ocorrer.

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O governo iraniano não divulgou publicamente nenhum protocolo nacional de defesa civil em resposta aos ataques.

Os Estados Unidos e Israel afirmam estar visando a infraestrutura do Estado iraniano.

Mas em uma cidade onde essa infraestrutura convive lado a lado com casas, lojas e escolas, as consequências são sentidas muito além dos alvos declarados.

Para aqueles que estão vivenciando isso, a pressão se mede em casas perdidas, famílias destruídas e uma crescente sensação de que nenhum lugar é realmente seguro.

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