Enquanto maioria dos jornais exalta filme de Kleber Mendonça Filho, há quem considere a obra confusa.O Agente Secreto, de Kleber Mendonça Filho, pode fazer história com o Brasil no Oscar. Caso vença a estatueta em melhor filme internacional, o país será laureado pela segunda vez consecutiva nesta categoria após o feito conquistado por Ainda Estou Aqui, de Walter Salles, em 2025.
Esse bicampeonato aconteceu apenas com Itália, França, Suécia e Dinamarca. A última ocorrência foi há quase 40 anos, com os dinamarqueses A festa de Babette (1987) e Pelle, o conquistador (1988).
Entre as diversas premiações da temporada, o longa-metragem se destaca ao ter recebido dois prêmios no Festival de Cannes e dois Globos de Ouro. No Oscar, que acontece no próximo domingo (15/03), ele concorre a melhor filme, melhor filme internacional, melhor seleção de elenco (nova categoria na premiação) e melhor ator, com a performance de Wagner Moura.
Na Europa, o filme tem sido bem recebido pelo público, e já arrecadou 6.361.813 de dólares (R$ 33 milhões) em bilheteria, o equivalente a 36% de toda receita mundial, segundo Box Office Mojo, principal serviço online de relatórios e análises de bilheteria. Na última semana, O Agente Secreto entrou para o catálogo da Netflix no Brasil.
Polêmicas
No ano passado, a crítica europeia se dividiu em relação a Ainda Estou Aqui, filme que representou o Brasil no Oscar. Uma delas ganhou um destaque desproporcional. O crítico do jornal francês Le Monde, Jacques Mandelbaum, reprovou a atuação de Fernanda Torres, porque "embora premiada pelo Globo de Ouro, pode ser percebida por alguns espectadores como relativamente monótona".
O artigo gerou uma grande repercussão no Brasil. Internautas invadiram as redes sociais do Le Monde para rebater a avaliação feita pelo jornalista. Em dois dias, o jornal revelou que teve de apagar cerca de 21.600 comentários ofensivos, principalmente no Instagram.
Curiosamente naquele mesmo artigo, Mandelbaum citava o cineasta Kleber Mendonça Filho, "como um intelectual e crítico" e ainda fazia uma previsão de que ele estaria "desenvolvendo lentamente seu próximo filme". O que de fato aconteceu.
Um ano depois, o mesmo Mandelbaum fez uma análise sobre O Agente Secreto e distribuiu elogios ao longa, como "thriller carnavalesco e magistral", "obra-prima e marco à história do cinema brasileiro". Esses elogios vieram ainda com alfinetadas ao filme de Walter Salles.
"Enquanto seu compatriota escolheu um caminho mais patético ao retratar a viúva de um 'desaparecido', Kleber Mendonça Filho utiliza uma riqueza polifônica e uma sensibilidade pop para construir uma espécie de tipologia - ao mesmo tempo solar e fantasmática, despreocupada e monstruosa - do fascismo tropical", escreveu.
E o resto da Europa
Na Inglaterra, o jornalista do The Guardian, Peter Bradshaw, assina um artigo defendendo que vencer a categoria de produção estrangeira é pouco para o filme de Kleber Mendonça Filho. Para ele, O Agente Secreto deveria ganhar o Oscar de melhor filme.
"Um filme incrivelmente sofisticado, indomável e falante vindo do Brasil, uma obra sobre amor e paternidade, tirania e resistência, e sobre enfrentar o passado. É um filme digressivo e espirituoso e, ainda assim, em seu ato final, evolui de forma impressionante de um mistério sombrio para uma tensão de causar suor frio e violência."
O crítico ainda chama de formidável Dona Sebastiana, personagem de Tânia Maria, e avalia a performance de Wagner Moura de inteligente e forte.
No artigo Um país e seus tubarões, publicado no alemão Süddeutsche Zeitung pela jornalista Aurelie von Blazekovic, O Agente Secreto é descrito como uma homenagem ao próprio cinema. A autora afirma que é um dos melhores filmes do outono cinematográfico.
"Fala da miséria de um país inteiro: do abismo social, da criminalidade, da corrupção, das pessoas e dos jornais que inventam tudo o que acham engraçado, dos empregados domésticos tratados como servos. E também da beleza profundamente cativante desse país", escreve Blazekovic.
O retorno negativo vem do artigo do espanhol El País, assinado pelo crítico Carlos Boyero. Com o título O agente secreto: o título é estimulante, o resto não, ele descreve as expectativas geradas pelo longa-metragem que não se concretizam na sala de cinema. "Chego até a precisar que algum de seus entusiasmados espectadores me conte o enredo, porque não consigo compreender quase nada", afirma.
Até o elogio à performance de Wagner Moura é acompanhado de críticas. "Admito que ele tem certa presença, naturalidade, e que sua gestualidade é sóbria, embora não me provoque nenhuma sensação especial."