Comissão da ONU acusa Israel de visar crianças palestinas e denuncia 'genocídio' em Gaza

Em 23 de junho, uma comissão internacional de inquérito mandatada pela ONU acusou Israel de ter como alvo crianças em Gaza. Em um relatório de cem páginas, os especialistas documentam violações e crimes cometidos por Israel contra menores palestinos no território desde 7 de outubro de 2023 até 31 de março de 2026 e concluem, com base em "fundamentos razoáveis", que Israel está cometendo genocídio.

25 jun 2026 - 14h56

Mais de 20.000 crianças foram mortas na Faixa de Gaza entre 7 de outubro de 2023 e 7 de outubro de 2025, cerca de 40.000 ficaram feridas e mais de 58.500 perderam pelo menos um dos pais ou ficaram órfãs.

No relatório, os especialistas destacam que "o ataque deliberado às crianças é um dos principais elementos que estabelece a intenção genocida das autoridades e forças de segurança israelenses de destruir o 'grupo palestino', no todo ou em parte, em Gaza". Para a comissão, as crianças personificam o futuro do grupo, e destruí-las compromete sua capacidade de sobreviver.

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Segundo o documento, as forças israelenses têm como alvo crianças de maneira direta e indireta, ao bombardear sistematicamente áreas residenciais, escolas e campos de refugiados superlotados.

Israel também perturba sistematicamente a capacidade de aprendizagem das crianças: 97% das escolas foram destruídas e 95% das universidades foram atingidas em Gaza; 22 dos 38 centros de estudos superiores foram completamente destruídos. Para a comissão, o desmantelamento das estruturas de proteção e educação comprometeu o desenvolvimento dos menores e enfraqueceu "os alicerces da sociedade palestina".

O Estado israelense também tem como alvo os serviços neonatais e de maternidade, provocando, entre outros efeitos, aumento de abortos espontâneos e malformações congênitas. Além disso, a fome imposta em Gaza causou mortes infantis. Em 1º de outubro de 2025, 151 mortes de crianças por subnutrição haviam sido registradas.

Mas Israel também ataca diretamente as crianças. Tel Aviv usa armas de precisão como quadricópteros, drones e rifles, visando especificamente menores de idade na cabeça e na parte superior do corpo "para infligir o máximo dano", diz Srinivasan Muralidhar, presidente da comissão.

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O relatório cita o caso de um bebê atingido na cabeça por um drone com câmera infravermelha enquanto era amamentado em uma barraca. Outro caso que ganhou destaque internacional foi o da menina Hind Rajab, morta quando tentava deixar a Cidade de Gaza com sua família.

O carro em que viajavam foi atingido durante os combates. Vários parentes morreram e Hind ficou presa no veículo. Durante horas, manteve contato telefônico com operadores do Crescente Vermelho Palestino pedindo socorro. Uma ambulância enviada para resgatá-la também foi atingida, e os socorristas morreram. Dias depois, o corpo de Hind foi encontrado junto aos de seus familiares.

Duas crianças palestinas brincam em um acampamento improvisado que abriga palestinos deslocados no campo de refugiados de Maghazi, no centro da Faixa de Gaza, em 25 de novembro de 2025.
Duas crianças palestinas brincam em um acampamento improvisado que abriga palestinos deslocados no campo de refugiados de Maghazi, no centro da Faixa de Gaza, em 25 de novembro de 2025.
Foto: RFI

Ataques a crianças impedem palestinos de existir

Para o magistrado indiano Srinivasan Muralidhar, presidente da comissão, "ao visar as crianças, Israel ataca a própria capacidade do povo palestino de existir e determinar o seu futuro".

"Graves lesões físicas e psicológicas, traumas coletivos, separações, deficiências, deslocamentos repetidos, fome e o colapso dos sistemas de educação e saúde destruíram a infância destas crianças e continuarão a marcá-las ao longo das suas vidas em Gaza", detalha o documento.

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As crianças feridas não apenas permanecerão mutiladas ao longo da vida, como também traumatizadas. "Para as crianças de Gaza, o medo e a violência tornaram-se tão regulares, tão diários, tão constantes que, na verdade, o trauma que vemos nas nossas operações já não é um simples episódio das suas vidas, está intrinsecamente ligado à sua vida cotidiana, à própria estrutura da sua infância", afirma Baptiste Chapuis, chefe da Advocacy e programas internacionais da Unicef.

Após a publicação do relatório, Israel reagiu rapidamente, classificando-o como "difamatório" e afirmando que ele "ignorava as tácticas brutais do Hamas, que ataca as crianças israelenses e usa as crianças palestinas como escudos humanos".

O documento, porém, sustenta suas conclusões com fatos e enumera, por exemplo, divisões, brigadas e unidades israelenses suscetíveis de estarem envolvidas nas mortes de crianças em Gaza e na Cisjordânia. "Sabemos quem são", afirma um dos membros da comissão, Chris Sidoti.

Uma menina palestina é examinada por um médico no Hospital dos Mártires de Al-Aqsa, em Deir Al-Balah, na região central da Faixa de Gaza, em 18 de agosto de 2024.
Foto: RFI

Cessar-fogo mortal

O cessar-fogo de outubro de 2025, violado diariamente, não alterou a situação. A comissão observou que crianças continuaram sendo mortas e gravemente feridas. Elas representam 30% de todas as vítimas fatais no enclave palestino.

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Desde o início da trégua entre Israel e o Hamas, em outubro passado, pelo menos 265 crianças foram mortas, uma média de uma por dia.

"Raghad, uma jovem embaixadora da Unicef de 17 anos, foi morta em Gaza nesta segunda-feira, 22 de junho, enquanto seguia para seu exame final do ensino médio", aponta Baptiste Chapuis, enfatizando que as vítimas têm nomes.

"A realidade é que palestinos continuam sendo mortos e feridos em Gaza mesmo após o anúncio do cessar-fogo em outubro passado, e a quantidade de ajuda humanitária permitida em Gaza permanece muito abaixo dos níveis necessários", observa Srinivasan Muralidhar.

"Essas crianças não foram mortas em uma zona de guerra", observou o porta-voz do UNICEF, James Elder, em 19 de junho. "Elas foram mortas em casa. Em suas escolas. Enquanto jogavam futebol. Enquanto pescavam. Elas foram baleadas, bombardeadas e alvo de drones", sublinha.

Além dessas mortes, mais de 400 crianças ficaram feridas nos últimos oito meses. "Médicos estão tratando hemorragias cerebrais e lesões graves na cabeça, no tórax e no abdômen, bem como traumas que deixarão marcas para toda a vida."

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As taxas de mortalidade infantil permanecem muito altas, muitas crianças aguardam evacuação médica de emergência e a escassez de medicamentos continua crítica. Os danos são tanto físicos quanto psicológicos.

A menina palestina Eman Al-Kholi, que teve um membro amputado após ser ferida em um ataque israelense que matou seus pais, recebe ajuda de um parente para beber água enquanto é tratada no Hospital Europeu, em Rafah, no sul da Faixa de Gaza, em 28 de dezembro de 2023.
Foto: RFI

Menores mortos também na Cisjordânia

A comissão internacional de inquérito também destacou o tratamento dispensado a crianças na Cisjordânia ocupada e em Jerusalém Oriental. A violência de colonos e soldados contra os mais jovens aumentou — incluindo tortura, violência sexual e privação de alimentos —, tendo como alvo principalmente meninos. Segundo o direito internacional, o tratamento infligido durante prisões ou detenções constitui crime contra a humanidade. Israel, porém, justifica suas ações citando o contexto de uma "ameaça terrorista constante".

Mais da metade das crianças palestinas mantidas em prisões israelenses no final do ano passado estavam detidas sem acusação ou julgamento, segundo a ONG Defence for Children International.

"Costuma-se dizer que 100% das crianças em Gaza, e a maioria das crianças na Cisjordânia hoje, enfrentam problemas de saúde mental, seja devido a traumas, medo ou extrema vulnerabilidade", afirma o representante do UNICEF responsável por defesa de direitos e programas internacionais.

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Como potência ocupante, Israel é legalmente obrigado a garantir a proteção, o cuidado e a sobrevivência das crianças palestinas. Nunca antes, em guerras israelenses anteriores na Faixa de Gaza, tantas crianças foram mortas. "As autoridades israelenses desrespeitaram todas as normas do direito internacional no tratamento de crianças palestinas e devem ser responsabilizadas", insiste Chris Sidoti.

Nas conclusões do relatório, a comissão observa que uma "parcela significativa dos danos sofridos pelas crianças palestinas não foi incidental, mas visava destruir a existência dos palestinos de Gaza como grupo". As crianças palestinas estão no centro do argumento jurídico sobre a existência de genocídio. Além disso, "soldados israelenses filmando a si mesmos destruindo e zombando de brinquedos infantis levantam sérias preocupações éticas, disciplinares e legais, simbolizando a desumanização da própria infância palestina".

No relatório mais recente do Secretariado da ONU sobre a proteção da infância em conflitos armados, Israel e o Território Palestino Ocupado ocupam o primeiro lugar, à frente da República Democrática do Congo.

Baptiste Chapuis insiste que, para romper esse ciclo mortal, a comunidade internacional e os Estados devem utilizar todos os instrumentos diplomáticos à disposição para pôr fim às violações e garantir a responsabilização dos autores. Além disso, é preciso permitir a livre circulação de ajuda humanitária para Gaza, que permanece em situação de extrema necessidade.

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"Enquanto essas violações persistirem de forma sistemática, as mortes e mutilações de crianças continuarão sem trégua", conclui o chefe de Advocacy e Programas Internacionais do Unicef. "Acreditamos hoje que a vida de uma criança palestina vale menos do que a de uma criança em outro país? O que justifica este dois pesos e duas medidas? A dimensão das violações do direito internacional humanitário e das violações graves dos direitos das crianças nos últimos dois anos e meio foi documentada. Ninguém poderá alegar desconhecimento", diz.

 

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