Em cúpula em Nova Délhi, os Brics pediram "cautela máxima" ante a guerra no Oriente Médio, marcando a primeira posição conjunta do bloco desde o início do conflito. O presidente chinês, Xi Jinping, defendeu que o grupo atue como mediador internacional e fortaleça o comércio multilateral contra o protecionismo. O encontro também promoveu a reaproximação diplomática entre China e Índia para conter disputas fronteiriças e serviu para atenuar tensões regionais entre Irã e Emirados Árabes Unidos.
O texto da declaração conjunta marca a primeira convergência do bloco sobre o tema desde o início da guerra em fevereiro, quando ataques dos Estados Unidos e de Israel contra o Irã dividiram os membros. A manifestação ocorre no mesmo dia em que o presidente chinês, Xi Jinping, defendeu que o grupo assuma papel de mediador na região, afirmando que a guerra "não serve aos interesses comuns da comunidade internacional". O Brasil é representado na cúpula pelo ministro das Relações Exteriores, Mauro Vieira, enviado em nome do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, que permaneceu no país.
A declaração dos Brics foi divulgada na abertura do encontro de dois dias em Nova Délhi, reunindo os onze países do bloco, incluindo Índia, China, Rússia, Irã e Emirados Árabes Unidos. O texto pede que todas as partes evitem ações que possam agravar o conflito, que já provocou impactos econômicos globais e tensões diplomáticas entre países do Golfo. O apelo ocorre após meses de divergências internas: em maio, os ministros das Relações Exteriores não conseguiram aprovar um documento comum sobre o tema.
A guerra aberta em fevereiro aprofundou fissuras no bloco. China e Rússia mantêm comércio com o Irã, apesar das ameaças de sanções repetidas pelo presidente norte-americano Donald Trump. Já os Emirados Árabes Unidos suspenderam em agosto suas transações comerciais e financeiras com Teerã após terem sido alvo de mísseis iranianos. Em Nova Délhi, o presidente iraniano Massoud Pezeshkian e o príncipe herdeiro de Abu Dhabi, Khaled ben Mohamed ben Zayed Al Nahyane, conversaram à margem do encontro para tentar reduzir tensões.
Segundo a imprensa oficial dos Emirados, os dois dirigentes defenderam "esforços de desescalada" e a necessidade de "retomar a estabilidade na região". Pezeshkian afirmou que o Oriente Médio "não precisa de polícia", numa referência aos Estados Unidos, e insistiu que a segurança regional deve ser garantida pelos países que a compõem. O presidente iraniano também alertou que pressões políticas e militares sobre comércio, energia e infraestrutura têm "repercussões sem fronteiras".
O bloqueio do estreito de Ormuz, imposto pelo Irã em resposta aos bombardeios em fevereiro, continua a afetar o mercado global de petróleo. Antes da guerra, cerca de 20% do petróleo mundial transitava pelo local. A interrupção prolongada mantém os preços do petróleo em alta e pressiona economias dependentes do fluxo energético. O tema foi citado pelos Brics como exemplo de impacto global de conflitos regionais.
A declaração conjunta não mencionou a guerra na Ucrânia, tema que divide o bloco desde 2022. No plano econômico, os países reafirmaram apoio ao sistema comercial multilateral "não discriminatório, aberto, equitativo, transparente, justo, inclusivo, previsível e baseado em regras", com a Organização Mundial do Comércio no centro. Xi Jinping pediu que o grupo rejeite "todas as formas de protecionismo" e defendeu o fortalecimento da OMC.
Xi defende papel de mediação e reforça ambições globais do bloco
Em discurso em Nova Délhi, Xi Jinping afirmou que os Brics devem atuar como mediadores no conflito do Oriente Médio, argumentando que a guerra "não serve aos interesses comuns da comunidade internacional". Segundo a rede estatal chinesa CCTV, Xi disse que a China trabalhará com os demais membros para apoiar esforços de estabilização e diálogo. O presidente chinês qualificou o bloco como "grupo de primeiro plano" entre países do Sul e modelo de autonomia entre economias emergentes.
O acrônimo Brics designa originalmente Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul (incorporada posteriormente), grupo criado em 2009 para reunir grandes economias emergentes fora das instituições dominadas pelos Estados Unidos e potências ocidentais. O bloco se ampliou nos últimos anos, incorporando Egito, Etiópia, Indonésia, Irã e Emirados Árabes Unidos. Segundo Narendra Modi, os países representam metade da população mundial, 40% do PIB global e mais de um quarto do comércio internacional.
Xi anunciou que a China assumirá a presidência dos Brics no próximo ano e sediará o 19º encontro do grupo. O discurso reforça a ambição chinesa de ampliar a influência do bloco em temas de governança global, comércio e segurança. Analistas afirmam que o posicionamento de Xi busca fortalecer a imagem da China como mediadora internacional, especialmente num momento de tensões com os Estados Unidos.
A presença de Xi em Nova Délhi marcou a primeira visita do presidente chinês à Índia em sete anos, sinalizando um lento degelo diplomático entre os dois países. As relações bilaterais foram seriamente afetadas após o confronto militar de 2020 na fronteira do Himalaia, que deixou 20 soldados indianos e quatro chineses mortos. Desde então, Índia e China têm retomado gradualmente o diálogo, embora a desconfiança persista.
Modi e Xi discutem fronteira
Em encontro bilateral à margem do summit, Narendra Modi e Xi Jinping afirmaram que pretendem resolver questões fronteiriças de forma "honesta e razoável", segundo comunicado do Ministério das Relações Exteriores da Índia. Modi disse que os dois países devem ser guiados por "respeito, sensibilidade e interesse mútuo", e que diferenças não devem se transformar em disputas. Xi afirmou que Índia e China podem "complementar suas forças, se apoiar e avançar juntas".
A relação entre os dois países é marcada por décadas de tensões. Índia e China travaram uma breve guerra em 1962, origem de disputas territoriais que persistem até hoje. O confronto de 2020 agravou a crise, levando os dois governos a reforçar presença militar na região. A visita de Modi à China no ano passado ajudou a reabrir canais diplomáticos, mas analistas afirmam que não há sinais claros de melhora nas relações comerciais.
A aproximação entre Índia e China ocorre num momento em que ambos enfrentam relações instáveis com os Estados Unidos. Para especialistas, o diálogo bilateral é essencial para evitar novos confrontos na fronteira e para preservar a estabilidade regional. A presença de Xi no encontro dos Brics foi interpretada como gesto político calculado, destinado a reforçar a imagem de cooperação entre os dois gigantes asiáticos.
Bloco tenta ampliar influência global em meio a disputas regionais
A ampliação dos Brics para incluir novos membros reforça a ambição do grupo de se consolidar como alternativa às instituições dominadas por potências ocidentais. A presença de países do Oriente Médio e do Norte da África amplia o alcance geopolítico do bloco, mas também traz novos desafios, como divergências internas sobre segurança regional e política externa.
A reunião em Nova Délhi mostrou que, apesar das tensões, os Brics buscam apresentar imagem de unidade e capacidade de mediação. O apelo por "retenção máxima" e o discurso de Xi sobre papel mediador refletem tentativa de posicionar o bloco como ator central na gestão de crises internacionais. A expectativa é que a presidência chinesa no próximo ano intensifique esforços de coordenação diplomática.
Com AFP