O presidente Mahmoud Abbas adiou em um ano as eleições gerais palestinas, alegando entraves de Israel que impedem a votação em Gaza e Jerusalém Oriental, além da falta de segurança. O pleito, o primeiro desde 2006 e fruto de acordo entre Fatah e Hamas, era cobrado pela comunidade internacional. A decisão frustra a diplomacia da França, que via na renovação democrática um passo vital para a solução de dois Estados, enquanto Israel acusa Abbas de enganar os parceiros globais.
Nos últimos dias, os sinais de um adiamento se intensificaram, até a publicação, neste sábado, de um decreto do presidente Mahmoud Abbas convocando a realização simultânea das eleições presidenciais e legislativas.
Em comunicado divulgado pela agência oficial Wafa, a presidência palestina ressaltou que o novo cronograma foi decidido devido a "obstáculos impostos por medidas israelenses que impedem a realização das eleições na data inicialmente prevista, bem como pela necessidade de criar condições políticas, de segurança e concretas adequadas para garantir eleições livres, justas e inclusivas".
As autoridades palestinas afirmaram, nesta semana, que Israel estava negando aos responsáveis eleitorais palestinos o acesso a Jerusalém Oriental e à Faixa de Gaza.
As eleições legislativas palestinas fazem parte das reformas exigidas pela comunidade internacional e estavam previstas para 28 de novembro de 2026, enquanto a eleição presidencial era esperada para o início de 2027. O pleito seria a primeira eleição legislativa desde 2006.
Realizar um "diálogo nacional"
Durante uma reunião no Cairo, em 7 de outubro, quatro facções palestinas, incluindo o Fatah, de Mahmoud Abbas, e o Hamas, concordaram em realizar um "diálogo nacional" e, segundo uma fonte próxima às discussões, em solicitar o adiamento da votação.
O chefe da diplomacia israelense, Gideon Saar, acusou na sexta-feira (9) a Autoridade Palestina de "enganar a comunidade internacional" ao prever esse adiamento.
Em 2021, Mahmoud Abbas já havia convocado eleições legislativas e presidenciais, que acabaram sendo adiadas por tempo indeterminado devido à falta de garantias para sua realização em Jerusalém Oriental, território anexado por Israel.
As últimas eleições legislativas nos territórios palestinos foram vencidas pelo Hamas, que controla Gaza, superando o Fatah, que controla a Autoridade Palestina, responsável por partes da Cisjordânia ocupada. O resultado acentuou as divergências entre os dois movimentos rivais.
Revés para França
O adiamento das eleições legislativas palestinas representa um sério revés para a diplomacia francesa, que havia feito da renovação democrática da Autoridade Palestina um dos pilares de sua estratégia em favor da solução de dois Estados.
O reconhecimento de um Estado palestino, anunciado no ano passado pelo presidente francês Emmanuel Macron, não estava formalmente condicionado à realização do pleito. No entanto, as autoridades francesas haviam apresentado essas eleições como uma etapa fundamental e reiterado diversas vezes, nos últimos meses, que se tratava de um compromisso de Mahmoud Abbas.
O Ministério das Relações Exteriores da França não se manifestou de imediato. Há semanas, porém, o primeiro-ministro francês, Jean-Noël Barrot, vinha defendendo a realização dessas eleições, avaliando que uma liderança palestina renovada contribuiria para a solução de dois Estados.
Além disso, Paris saudou nesta semana o envio de uma missão europeia de observação para acompanhar o bom andamento das eleições.
Com AFP