'Assédio por pelos': por que campanha para incentivar homens a usar bermuda no trabalho causa polêmica no Japão

Governo metropolitano de Tóquio incentiva homens a trocar terno e gravata por camisetas, tênis e bermudas no ambiente de trabalho; medida tem dividido opiniões.

22 jul 2026 - 06h08
Homens usando bermuda no escritório
Homens usando bermuda no escritório
Foto: Getty Images / BBC News Brasil

Com o aumento das temperaturas este verão no Japão, o governo metropolitano de Tóquio está incentivando os homens a trocarem o tradicional terno e gravata por roupas mais casuais — camisetas, tênis e, agora, bermudas — no ambiente de trabalho.

A governadora de Tóquio, Yuriko Koike, lançou em abril a iniciativa Tokyo Cool Biz, com o objetivo de ampliar sua campanha de combate ao calor, que já se tornou uma tradição anual no verão japonês.

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Quase quatro meses depois, a medida que tornou aceitável o uso de bermudas no escritório divide opiniões.

Alguns funcionários aprovam as regras mais flexíveis, que permitem trabalhar com mais conforto. Outros dizem que a política é injusta com as mulheres, já que delas ainda se espera o uso de meia-calça quando deixam parte das pernas à mostra.

E algumas mulheres descrevem a situação como sunehara, termo criado na internet que significa "assédio por pelos nas pernas" e descreve o desconforto que elas sentem ao serem obrigadas a ver os pelos das pernas dos colegas homens.

"Queremos oferecer às pessoas mais opções durante o calor intenso, não dizer o que elas devem vestir. Não deve haver problema desde que a roupa de trabalho não seja ofensiva para ninguém", afirmou à BBC Noboru Watanabe, funcionário da área ambiental do governo metropolitano de Tóquio.

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Quatro homens usando bermuda em um escritório em Tóquio, no Japão. Três deles estão de pé, e um está sentado com os cotovelos apoiados na mesa.
Foto: Getty Images / BBC News Brasil

Uma pesquisa realizada em junho pela Gorilla Clinic — especializada em tratamentos estéticos, entre eles, remoção de pelos — mostrou que 53,5% dos entrevistados são contra o uso de bermudas no trabalho durante o verão, enquanto 46,5% apoiam a nova recomendação.

Entre os que são contra o uso, o principal motivo apontado — tanto por homens quanto por mulheres — foi a preocupação com a aparência do corpo e com os pelos.

A clínica afirma que o número de mulheres contrárias foi significativamente maior, indicando que elas podem ser mais resistentes a ver as pernas dos colegas homens.

Nos últimos anos, mais trabalhadores japoneses — especialmente aqueles que atuam em startups e empresas de tecnologia — passaram a usar roupas mais informais no trabalho. Mas a recomendação do governo de Tóquio neste ano tornou esse estilo mais socialmente aceito.

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Ainda assim, alguns homens passaram a se sentir constrangidos em relação aos pelos das pernas.

Akifumi Funatsu, diretor da Gorilla Clinic, afirma ter percebido um aumento de clientes que procuram a clínica não apenas por motivos estéticos, mas também por uma questão de "etiqueta social ao usar bermudas".

Segundo ele, algumas mulheres acreditam que "os homens deveriam ter menos pelos nas pernas", o que levou alguns trabalhadores a buscar depilação a laser para evitar causar desconforto às pessoas ao redor.

Medidas contra o calor extremo

Koike introduziu pela primeira vez a mudança no vestuário de verão em 2005, quando era ministra do Meio Ambiente do Japão. Ela lançou uma campanha nacional de economia de energia chamada Cool Biz, que incentivava funcionários de empresas a optarem por camisas de manga curta.

Líderes do governo aderiram à iniciativa. O então primeiro-ministro Junichiro Koizumi era frequentemente visto em público sem gravata ou paletó, ajudando a popularizar a campanha.

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Alguns anos depois, após o terremoto e tsunami de Tohoku, em março de 2011, o governo lançou o Super Cool Biz, ampliando as recomendações para reduzir o consumo de energia tanto no trabalho quanto em casa.

Assim como outros países, o Japão vem enfrentando temperaturas recordes nos últimos meses, enquanto lida com o aumento dos preços da energia provocado pela instabilidade no Oriente Médio.

Meteorologistas alertaram para um verão de calor extremo e a Agência Meteorológica do Japão tenta aumentar a conscientização da população com o termo kokusho-bi, que significa "dia de calor extremo", quando a temperatura ultrapassa os 40°C.

Os dados mais recentes divulgados semanalmente mostram que sete pessoas morreram no Japão por insolação e 4.580 foram internadas em hospitais entre 6 e 12 de julho, segundo a Agência de Gestão de Incêndios e Desastres.

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Além de manter a hidratação e ligar o ar-condicionado — medidas básicas frequentemente recomendadas pelas autoridades —, moradores têm recorrido a novos produtos e tecnologias para enfrentar o calor.

Itens como roupas com ventiladores embutidos, toalhas úmidas descartáveis, guarda-chuvas com proteção contra raios ultravioleta e calor, além de ventiladores portáteis, se tornaram populares e passaram a ser vendidos em lojas de todo o país.

Especialistas da Rede Acadêmica Japonesa para Redução de Desastres destacam a importância da aclimatação ao calor, já que o corpo leva várias semanas para se adaptar às altas temperaturas.

Segundo eles, o ideal é começar a se preparar para o calor e adotar medidas de prevenção contra a insolação ainda durante a temporada de chuvas, antes da chegada do verão mais intenso.

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O Japão também enfrenta altos níveis de umidade, o que dificulta a evaporação do suor e reduz a capacidade do corpo de se resfriar.

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