Nas eleições legislativas dos EUA, o Partido Democrata conquistou a maioria no Congresso ao alcançar ao menos 53 cadeiras no Senado, impondo uma dura derrota a Donald Trump. O avanço foi impulsionado por viradas históricas em tradicionais redutos republicanos, como Texas, Iowa, Ohio, Maine e as duas Carolinas, além do Kansas, que não elegia um democrata há quase um século. A vitória dará à oposição poder para frear a agenda presidencial, travar indicações ao Judiciário e abrir investigações.
As eleições de meio de mandato nos Estados Unidos produziram derrotas importantes para Donald Trump e devem tirar do Partido Republicano o controle da maioria no Senado.
Segundo projeções da CBS News, parceira da BBC nos Estados Unidos, com a vitória de Josh Turek em Iowa, os democratas chegaram a 51 cadeiras no Senado, número suficiente para garantir a maioria. Posteriormente mais duas cadeiras foram projetadas para os democratas, chegando a 53 das 100 cadeiras no Senado.
O partido também deverá controlar a Câmara dos Representantes, já que a CBS também projetou uma vitória democrata na Casa.
Isso significa que, a partir de janeiro, o partido voltará a controlar o Congresso, o poder responsável por aprovar as leis do país.
Atualmente, as duas Casas são controladas pelo Partido Republicano, de Trump, que detém a maioria em ambas.
Com a retomada do Congresso, os democratas terão mais facilidade para aprovar projetos de lei e poderão contestar a agenda do presidente. Também poderão abrir investigações sobre integrantes do governo Trump.
Esse controle também dará ao partido poder para barrar indicações do presidente a cargos no Judiciário.
Entre as disputas mais acompanhadas nesta eleição estavam sete corridas pelo Senado que, durante boa parte da campanha, foram classificadas como indefinidas pela Cook Political Report, empresa independente de análise eleitoral.
Elas ocorreram nos Estados do Alasca, Maine, Texas, Michigan, Iowa, Kansas e Ohio.
Cinco dessas disputas já tiveram viradas democratas projetadas: James Talarico no Texas; Sherrod Brown em Ohio; Adam Hamilton no Kansas; Josh Turek em Iowa e Troy Jackson, em Maine.
O resultado no Kansas tem um caráter histórico: o Estado não elegia um democrata para o Senado havia quase 100 anos. A última vez foi em 1932, durante a Grande Depressão, quando Franklin D. Roosevelt venceu a eleição presidencial.
As projeções também apontaram vitórias democratas na Carolina do Norte e na Carolina do Sul, Estados que não estavam no radar para uma mudança de partido nas cadeiras do Senado.
A vitória de Annie Andrews na Carolina do Sul foi considerada por analistas como uma das grandes surpresas da noite.
As disputas no Alasca e em Michigan ainda não tinham resultado definido no momento desta atualização. Mesmo assim, as projeções já indicavam que os democratas manteriam a maioria no Senado, independentemente do resultado nesses dois Estados. A apuração poderia, no entanto, alterar o tamanho dessa maioria.
Confira onde essas viradas aconteceram e como se desenhava a disputa.
Texas: democratas encerram jejum de mais de 30 anos em eleições para o Senado
O deputado estadual James Talarico encerrou um período de décadas sem vitórias democratas nas eleições para o Senado no Texas. O resultado também mostrou que um dos principais redutos republicanos do país pode estar em disputa na eleição presidencial de 2028.
A corrida entre Talarico e o republicano Ken Paxton se tornou a eleição para o Senado mais cara da história.
Talarico é ex-professor e estudante de um seminário presbiteriano. Ele lecionava em uma escola de ensino fundamental em San Antonio, em um bairro que ele descreveu como um dos mais pobres do Estado. Ele estudou teologia e considera o papa Leão 14 um "herói espiritual".
Os republicanos do Texas enfrentaram uma combinação desafiadora de fatores desfavoráveis. O ambiente político nacional era difícil para os conservadores, e várias questões estaduais, como a construção de centros de dados e a aplicação rigorosa das leis de imigração, prejudicaram o partido. Soma-se a isso um candidato controverso: Paxton.
A campanha foi marcada por ataques duros, com Talarico mirando o impeachment de Paxton, em 2023, pela Câmara dos Representantes do Estado, controlada pelos republicanos, por suspeitas de corrupção, suborno e abuso de poder. Paxton negou as acusações e acabou absolvido pelo Senado estadual, chamando o impeachment de uma "farsa politicamente motivada desde o início".
Com o apoio de mais de US$ 170 milhões em recursos do magnata da tecnologia Elon Musk, Paxton tentou retratar Talarico como um liberal que não compreendia os texanos em questões como direitos das pessoas trans, segurança pública, imigração e política energética.
A vitória de Talarico mostrou que o Texas, tradicionalmente um dos principais redutos republicanos do país, pode se tornar competitivo para os democratas em 2028, na próxima eleição presidencial.
Iowa: atleta paralímpico derrota ex-âncora de telejornal
Trump foi a Iowa em seu último dia de comícios de campanha, tamanha a importância do Estado.
As pesquisas apontavam uma disputa indefinida entre a republicana Ashley Hinson, ex-apresentadora de telejornal, e o democrata Josh Turek, mas o ex-atleta paralímpico deve ser o vitorioso, segundo as projeções, e conquistará a cadeira no Senado.
O democrata, de 47 anos, nasceu com espinha bífida e passou por várias cirurgias antes de representar os Estados Unidos no basquete em cadeira de rodas em quatro edições dos Jogos Paralímpicos, conquistando medalhas de ouro em duas delas.
Agricultura, tarifas e Trump foram questões-chave nesta disputa eleitoral acirrada.
A republicana se distanciou ligeiramente do presidente, pedindo que ele encerrasse a guerra com o Irã e divergindo dele sobre a redução das tarifas sobre a carne bovina. Ao mesmo tempo, ela defendia as políticas tarifárias mais amplas de Trump, que considerava importantes.
Turek, por sua vez, argumentava que as tarifas de Trump haviam levado a um "apocalipse agrícola" no Estado, predominantemente rural. Ele também procurou convencer os eleitores de que a guerra no Irã resultou no aumento dos custos de combustível e fertilizantes.
Hinson retratou Turek como um candidato que votaria como um "liberal da Costa Leste".
Os dois também entraram em conflito em questões que iam de impostos e Previdência Social à imigração. A vitória de Turek encerrou um longo período sem que os democratas conquistassem uma eleição federal em Iowa.
Kansas: Estado que era considerado seguro para republicanos elege democrata após quase um século
O democrata Adam Hamilton derrotou, segundo as projeções, o senador republicano Roger Marshall no Kansas, encerrando 94 anos sem que o Estado do Meio-Oeste elegesse um senador democrata. A última vez que isso aconteceu foi em 1932.
Durante a campanha, tanto Marshall, de 66 anos, quanto Hamilton, de 62, destacavam que eram kansanos de quinta geração e que tinham profundo conhecimento das questões locais.
Marshall trabalhou por 25 anos como obstetra, realizando cerca de 5 mil partos, enquanto seu rival, Hamilton, fundou uma igreja que se tornou o centro da maior congregação metodista unida dos Estados Unidos.
O republicano se alinhou estreitamente a Trump, apresentando-se como um candidato favorável aos agricultores.
Já Hamilton, que chegou a considerar uma candidatura independente, se apresentou como alguém capaz de superar as divisões partidárias. Sua campanha se concentrou, em grande parte, na redução do custo de vida e na proteção do acesso à assistência médica.
A disputa acirrada foi vista como um possível sinal de alerta para os republicanos.
A vitória de Hamilton representa uma mudança histórica em um Estado considerado seguro para os republicanos e pode ser interpretada como um sinal de insatisfação com as políticas de Trump, particularmente na área econômica.
Ohio: ex-senador democrata volta ao cargo em disputa que pôs à prova políticas econômicas de Trump
O democrata Sherrod Brown venceu a disputa pelo Senado em Ohio, segundo projeção da CBS News, derrotando o republicano Jon Husted e recuperando a cadeira para o Partido Democrata.
A vitória representa uma virada de cadeira, dois anos depois de Brown perder a reeleição para o republicano Bernie Moreno.
Trump havia vencido Ohio com facilidade em 2024, e, até um ano atrás, poucos imaginavam que o Estado estaria em disputa nas eleições de meio de mandato.
Brown, de 73 anos, representou Ohio no Congresso por mais de três décadas. Conhecido como defensor dos trabalhadores, ele defende políticas de populismo econômico desde antes de elas ganharem espaço entre outros integrantes do Partido Democrata.
Husted, de 59 anos, foi nomeado para o Senado em 2025, após J.D. Vance assumir a vice-presidência. Ele disputava o restante do mandato de Vance.
A disputa foi marcada pelo debate sobre as políticas econômicas de Trump, especialmente as tarifas comerciais, e seus efeitos sobre setores manufatureiro e automobilístico, importantes para a economia de Ohio.
Maine: democrata derrota republicana que apostava em distância de Trump para se reeleger
O democrata Troy Jackson venceu a disputa pelo Senado no Maine, segundo projeção da CBS News, derrotando a republicana Susan Collins, que ocupava a cadeira havia quase 30 anos.
A vitória representa uma virada para os democratas em um Estado que vota consistentemente no partido nas eleições presidenciais.
Collins, de 73 anos, era uma das poucas senadoras republicanas que votaram pela condenação de Donald Trump durante seu segundo processo de impeachment, em 2021. Ao longo da carreira, conseguiu superar o desempenho de seu partido no Maine, em parte por construir uma imagem de política independente e crítica ao próprio partido.
A republicana buscava seu sexto mandato e apostava em sua reputação de centrista para conquistar eleitores independentes. Sua campanha também testava se candidatos republicanos conseguiriam se eleger no atual cenário político mantendo distância de Trump.
Seu adversário, Troy Jackson, de 58 anos, é madeireiro e usou sua experiência no setor para tentar conquistar eleitores da classe trabalhadora. Ele também foi presidente do Senado estadual do Maine.
Jackson entrou na política depois de ajudar a liderar um protesto contra a contratação de trabalhadores canadenses com salários mais baixos no Estado.
A campanha foi marcada ainda por divergências sobre imigração e comércio. Os dois candidatos se opunham às tarifas de Trump sobre o Canadá, que têm impacto particular no Maine, Estado que faz fronteira com o país. Jackson também defendia a extinção da agência federal de Imigração e Alfândega dos Estados Unidos (ICE, na sigla em inglês), posição rejeitada por Collins.
A disputa democrata também foi afetada por uma controvérsia envolvendo Graham Platner, que inicialmente concorria à vaga, mas acabou substituído por Jackson.
As Carolinas: democratas viram cadeiras no Senado em dois Estados vencidos por Trump em 2024
Os democratas conquistaram vitórias nas disputas pelo Senado na Carolina do Norte e na Carolina do Sul, segundo projeções da CBS News. Os resultados representam duas viradas de cadeira em Estados que Donald Trump venceu na eleição presidencial de 2024.
Na Carolina do Norte, o democrata Roy Cooper, ex-governador do Estado, derrotou o republicano Michael Whatley, que presidiu o Comitê Nacional Republicano e teve papel importante na campanha de Trump em 2024.
Cooper, de 69 anos, governou a Carolina do Norte por dois mandatos e também foi procurador-geral do Estado. Sua campanha enfatizou temas como economia e custo de vida.
Whatley, de 57 anos, contou com o apoio de Trump e concorreu pela primeira vez a um cargo eletivo. A cadeira estava vaga após o republicano Thom Tillis decidir não disputar a reeleição, em meio a divergências com o presidente.
Na Carolina do Sul, a democrata Annie Andrews também conquistou uma vitória projetada pela CBS News, derrotando a republicana Annie Graham.
Pediatra, Andrews construiu sua campanha em torno de temas como acesso à saúde e custo de vida. A disputa chamou atenção por ocorrer em um Estado tradicionalmente republicano, onde Trump venceu por ampla margem em 2024.
A vitória representa uma das surpresas da noite eleitoral. A Carolina do Sul não elege um senador democrata desde 1998.
As duas disputas mostram o desempenho dos democratas em Estados onde Trump venceu a eleição presidencial de 2024, mas nos quais candidatos do partido conseguiram conquistar apoio suficiente para virar cadeiras no Senado.