Ao rejeitar guerra justa, papa Leão acaba com "permissão" católica para conflitos

28 mai 2026 - 10h47

O papa Leão 14 ‌repudiou esta semana um importante ensinamento usado pela Igreja Católica desde pelo menos o século 5 para avaliar quando os países podem usar justificativas para travar guerras, em uma medida que, segundo especialistas, pode ter um impacto de longo alcance para as potências globais.

A rejeição à doutrina veio no primeiro grande documento ⁠do papa, publicado na segunda-feira, que também pediu a regulamentação global dos sistemas de ‌IA e fez o pedido de desculpas mais claro até agora pelo papel histórico da Igreja Católica no apoio à escravidão transatlântica.

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"A teoria da 'guerra justa', que ‌tem sido usada com muita frequência para justificar ‌qualquer tipo de guerra, agora está ultrapassada", escreveu Leão na encíclica, intitulada "Magnifica ⁠Humanitas".

"A humanidade possui ferramentas muito mais eficazes e capazes de promover a vida humana e resolver conflitos, como o diálogo, a diplomacia e o perdão", disse ele.

O cardeal de Chicago Blase Cupich, um aliado próximo de Leão que estava no Vaticano para a apresentação do texto na segunda-feira, afirmou à Reuters que o ‌papa está preocupado com a forma como a teoria tem sido usada pelos líderes ‌mundiais para justificar a ⁠guerra.

"Temos que deixar claro ⁠que a teoria da guerra justa sempre foi concebida para ser uma restrição, não uma ⁠permissão que, infelizmente, alguns estão usando indevidamente ‌para justificar suas decisões de ‌ir à guerra em vez de buscar os caminhos da paz", declarou Cupich.

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Leão, que adotou um tom mais enérgico nos últimos meses e atraiu a ira do presidente dos EUA, Donald Trump, depois de criticar a guerra ⁠no Irã, criticou o número de guerras que assolam o mundo em seu texto e alertou que os lucros da indústria de armas são uma força motriz por trás dos conflitos.

A teoria da guerra justa, que em geral diz que as guerras só devem ser ‌travadas para se defender contra agressões, foi invocada por autoridades do governo Trump, incluindo o vice-presidente JD Vance, um católico, para defender a guerra no Irã.

Em ⁠abril, depois que a conta oficial do papa no X postou que Deus "nunca está do lado daqueles que já empunharam a espada", Vance mencionou a teoria da guerra justa em um evento no Estado da Geórgia e pediu que o papa "tivesse cuidado ao falar sobre questões de teologia".

Anna Rowlands, uma acadêmica britânica que participou da apresentação do documento do papa no Vaticano na segunda-feira, afirmou à Reuters que Leão está expressando preocupação com "uma nova era de conflitos em transformação, agora cada vez mais impulsionados pela tecnologia".

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"É uma declaração forte sobre a necessidade de (a teoria da guerra justa) ser colocada em um contexto mais amplo e renovado de critérios para construir a paz e resolver conflitos", disse ela sobre a afirmação do papa de que a teoria está desatualizada.

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