Foram dias de humilhação para Donald Trump, mesmo que o presidente americano relute em reconhecê-lo.
Em uma série de contratempos, Trump enfrentou adversidades em questões grandes e pequenas; duas delas lhe são muito caras e uma pode determinar seu destino político e de seu partido pelos dois anos restantes de seu mandato presidencial.
Desde uma tentativa fracassada de renovar um marco histórico de Washington até questionamentos sobre sua escolha para chefiar o Departamento de Justiça, passando por esforços cada vez mais complicados para encerrar a guerra no Irã, o presidente tem lidado com questões delicadas — muitas delas criadas por ele mesmo.
A resposta de Trump tem sido a mesma de sempre. Uma acusação recorrente em seu primeiro mandato — de que o presidente cria a sua própria realidade com "fatos alternativos" — continua sendo feita. Ele mantém as suas crenças mesmo diante de provas contrárias.
Ao contrário do seu primeiro mandato, em que muitos dos seus conflitos mais notáveis foram com dissidentes dentro do seu próprio governo, desta vez ele entrou em conflito até mesmo com aqueles que se provaram os mais leais a ele.
Na semana passada, a procuradora federal Jeanine Pirro — ex-apresentadora da Fox News e aliada fiel de Trump — solicitou o arquivamento do processo de destruição de propriedade contra o ex-atleta olímpico David Hearn, que havia sido acusado por promotores federais de danificar intencionalmente o espelho d'água em frente ao Memorial Lincoln em Washington.
David Hearn enfrentava uma possível pena de 10 anos de prisão caso fosse condenado após sua prisão no mês passado. Ele foi detido depois de afirmar que se abaixou para tocar a água do espelho d'água após um passeio de bicicleta pela região.
Ele e outras pessoas tinham sido acusadas de vandalismo e responsabilizadas pelo estado de degradação da piscina. O espelho d'água tinha passado por uma reforma, com repintura e nova vedação, orçado em milhões de dólares. O monumento vinha sofrendo há muito tempo de falhas estruturais e vazamentos, e Trump defendeu a reforma como parte de sua iniciativa para embelezar a capital.
No entanto, apesar da reforma — que custou cerca de US$ 16 milhões —, o espelho d'água continuou a sofrer com a proliferação de algas; e pedaços do revestimento azul se desprenderam poucos dias após a aplicação.
"Os danos foram resultado de uma instalação malfeita e não de vandalismo", escreveu Jeanine Pirro em um documento judicial de 20 páginas anunciando a decisão de seu departamento. Ela atribuiu sua decisão de processar Hearn ao fornecimento de informações enganosas pelo Departamento do Interior.
Trump pode até defender fatos alternativos, mas as evidências que Pirro encontrou — aquelas que ela teria que defender em tribunal, perante um juiz e um júri potencialmente cético — ofereciam pouco respaldo à sua tese de acusação. E por isso ela a abandonou.
Trump, no entanto, endossou entusiasticamente a explicação do vandalismo e manteve-se convicto. Em uma publicação no Truth Social no sábado, ele criticou a decisão de Pirro de arquivar o caso e reiterou a crítica em comentários feitos do Salão Oval na segunda-feira (03/08).
"Ela se dobrou como se fosse um guarda-chuva", reclamou ele.
Se o caso do espelho d'água foi um exemplo de Trump sendo forçado a encarar uma realidade jurídica, no Capitólio ele foi confrontado com uma realidade política desagradável.
Um dos aliados mais próximos de Trump - seu ex-advogado de defesa criminal Todd Blanche — estava enfrentando forte resistência em sua tentativa de se tornar procurador-geral em caráter permanente.
Dois senadores republicanos, John Cornyn, do Texas, e Thom Tillis, da Carolina do Norte, juntaram-se aos democratas para bloquear a nomeação de Blanche. Eles exigiam que Blanche fornecesse uma carta repudiando formalmente qualquer tentativa de reativar o fundo proposto de US$ 1,8 bilhão (R$ 8,5 bilhões) para indenizar indivíduos que alegassem ter sido alvos de processos governamentais politicamente motivados.
Tillis chamou isso de "fundo de indenização para delinquentes" em meio a preocupações de que pudesse ser usado para compensar apoiadores de Trump processados por conta do tumulto no Capitólio dos EUA em 2021.
Em outra postagem no Truth Social no sábado, Trump escreveu que manteria Blanche como procurador-geral interino e que "pressionaria bastante" para que o Congresso aprovasse uma legislação autorizando o fundo.
"O assunto voltará imediatamente à mesa de negociações e eu o resolverei", escreveu ele, sugerindo que, independentemente do resultado final da nomeação de Blanche, é improvável que Trump deixe o assunto de lado.
A matemática política no Senado, no entanto, era inegável. No dia seguinte, Blanche cedeu ao pedido dos senadores, divulgando duas cartas que, segundo Tillis e Cornyn, satisfizeram suas demandas.
Em declarações feitas na Casa Branca na segunda-feira, Blanche escapou da reprimenda que Pirro, a procuradora, recebeu. Trump disse que "não olhou" os documentos de Blanche.
"Entendo que houve uma aprovação, mas não sei o que foi acordado", disse Trump.
Guerra contra o Irã
Embora o processo judicial referente ao espelho d'água de Washington e o caso do fundo possam ser tópicos caros ao presidente, eles mal entram no radar de preocupações do público americano em geral.
Esse definitivamente não é o caso da guerra com o Irã, em que Trump mais uma vez acusa Teerã de mentir em meio a outra rodada de negociações intermitentes e ameaças de uma ação militar americana esmagadora.
Na segunda-feira, depois de afirmar no dia anterior que havia cancelado "um ataque que teria sido o maior desde a Segunda Guerra Mundial" a pedido de autoridades iranianas e intermediários árabes, Trump usou o Truth Social para condenar o que chamou de duplicidade iraniana, após o Irã negar qualquer nova negociação direta.
"Eles pedem uma reunião, alguns diriam 'imploram', as conversas começam, com mais agendadas para um futuro próximo, e eles dizem, aberta e orgulhosamente, que não estão tendo nenhuma discussão", escreveu Trump.
Não seria a primeira vez que os iranianos estariam distorcendo o andamento das negociações — mas também não seria a primeira vez que Trump aparentemente aceitou suas garantias como verdadeiras e anunciou um novo avanço diplomático.
Autoridades americanas disseram à CBS News na segunda-feira que não havia planos para novas negociações com o Irã. Um funcionário iraniano afirmou que as únicas conversas em andamento no país eram com Omã, sobre o futuro da navegação no Estreito de Ormuz.
As últimas reviravoltas na guerra tornaram-se um padrão familiar, com pouco progresso, à medida que as pesquisas continuam a mostrar a desaprovação dos americanos em relação ao conflito e a preocupação de que Trump não esteja atingindo seus objetivos de guerra.
Pesquisas de opinião recentes sugerem que a guerra tem se tornado um entrave crescente para a popularidade geral do presidente.
Uma pesquisa recente da Associated Press coloca a aprovação de Trump em 33%, em linha com resultados semelhantes da CNN, Quinnipiac e YouGov. Esse índice é igual ou inferior aos índices de aprovação de Trump após a revolta no Capitólio e só supera o de Richard Nixon — que renunciou ao cargo depois de cair em desgraça — entre os presidentes americanos em seu segundo mandato na história moderna dos EUA.
Trump, no entanto, desacredita as pesquisas que sugerem sua impopularidade em nível histórico.
"Meus números REAIS de pesquisas, não aqueles inventados pela imprensa de notícias falsas, são os melhores que já vi", ele publicou no Truth Social na segunda-feira.
Daqui a três meses, os eleitores irão às urnas para as eleições de meio de mandato para o Congresso. E Trump já demonstrou uma força surpreendente nas urnas no passado, mesmo diante de números aparentemente desfavoráveis nas pesquisas.
Embora Trump possa estar enfrentando — e, por vezes, negando — adversidades recentes, essa será a medida definitiva de seu destino político. E se os republicanos tiverem dificuldades, isso poderá representar mais uma realidade que Trump terá que encarar.