A espaçonave Orion foi construída pelas empresas norte-americanas Lockheed Martin, enquanto a Boeing e a Northrop Grumman lideram o desenvolvimento do SLS desde 2010 — um programa notório por seus custos, estimados entre US$ 2 bilhões e US$ 4 bilhões por lançamento.
O projeto norte-americano também conta com participação direta da Airbus Defence and Space, divisão da Airbus SE, responsável pela construção do Módulo de Serviço Europeu (ESM) entregue à NASA pela Agência Espacial Europeia (ESA). Sem esse módulo, "o veículo não existe, a missão é impossível", resume em entrevista à RFI Philippe Berthe, que coordena o programa europeu em colaboração com os Estados Unidos. Ele integra a equipe de gerenciamento da missão em Cabo Canaveral, na Flórida.
A ESA e a NASA colaboram no programa Artemis há vários anos. As duas agências projetaram juntas o veículo que, lançado pelo SLS, transportará os quatro astronautas em uma trajetória de grande arco ao redor da Lua antes de retornarem à Terra. Os norte-americanos construíram a cápsula, enquanto as equipes europeias forneceram o módulo de serviço produzido em Bremen, na Alemanha.
Segundo Berthe, a função principal do ESM é fornecer propulsão. Ele realiza as grandes manobras necessárias para alterar a órbita da Orion, além das correções intermediárias e do controle de altitude. Durante toda a missão, enquanto cápsula e módulo estão acoplados, é o ESM que fornece propulsão. Apenas na fase final, no retorno à atmosfera, a Orion funciona por conta própria.
Outra função crucial é a execução de procedimentos de emergência. A Orion possui uma torre de escape usada apenas na fase inicial da propulsão. Quando a nave ultrapassa a maior parte da atmosfera, a torre é descartada. Se ocorrer um problema na segunda fase do voo, já no estágio superior do SLS, o módulo europeu pode realizar uma manobra de abortagem. Esse procedimento pode impulsionar a cápsula de volta à atmosfera para um retorno imediato ou colocá-la em uma órbita segura, garantindo tempo para avaliar a situação.
O módulo europeu também fornece energia durante toda a missão por meio de quatro painéis solares, além do controle térmico por radiadores que dissipam o calor gerado a bordo. Ele fornece ainda água potável, recursos para higiene e reidratação de alimentos, além dos gases oxigênio e nitrogênio, necessários para respiração, compensação de vazamentos e manutenção da pressão na cabine.
No total, a missão deve durar cerca de nove dias e meio. Pela primeira vez em 54 anos, humanos voltarão a deixar a órbita terrestre baixa. A tripulação levará de três a quatro dias para chegar à Lua, sobrevoando o único satélite natural da Terra a uma altitude estimada entre 7.000 e 7.500 quilômetros acima da superfície do lado oculto.
A permanência na vizinhança lunar durará apenas algumas horas. Depois, mais três a quatro dias serão necessários para o retorno. Pouco antes da reentrada, o módulo de serviço será separado e destruído, enquanto a Orion entra na atmosfera a cerca de 40.000 km/h, com pouso previsto no Oceano Pacífico, perto da costa de San Diego.
O lançamento ocorrerá a partir de uma plataforma próxima àquela utilizada pelos últimos astronautas do programa Apollo, há mais de meio século.
Quem são os quatro astronautas da Artemis II
A missão, considerada particularmente perigosa, será realizada pelos astronautas da NASA Christina Koch, Victor Glover e Reid Wiseman, além do canadense Jeremy Hansen.
Reid Wiseman ganhou notoriedade ao se tornar o primeiro astronauta a compartilhar sua rotina no espaço de forma contínua nas redes sociais, durante os 165 dias em que viveu na Estação Espacial Internacional (ISS), em 2014. Na ocasião, realizou duas caminhadas espaciais.
Victor Glover, natural da Califórnia, passou 167 dias na ISS entre 2020 e 2021, atuando como engenheiro aeronáutico.
A mais experiente da tripulação é Christina Koch. Entre março de 2019 e fevereiro de 2020, ela passou 328 dias consecutivos na ISS — quase o mesmo tempo que Wiseman e Glover somados — e realizou seis caminhadas espaciais. Aos 47 anos, é a mais jovem da tripulação e a única sem carreira militar.
O canadense Jeremy Hansen, de 50 anos, é o único dos quatro que ainda não realizou um voo espacial.
Os tripulantes cumpriram duas semanas de quarentena antes do lançamento e passaram o fim de semana com suas famílias na residência à beira-mar do centro espacial, como determina a tradição.
Condições climáticas e cronograma
As condições meteorológicas são favoráveis, com apenas 20% de risco de impedir o lançamento dentro da janela de duas horas prevista. Em caso de cancelamento, novas tentativas poderão ocorrer diariamente até 6 de abril e, se necessário, apenas a partir de 30 de abril.
Inicialmente programado para 6 de fevereiro e depois para 6 de março, o lançamento foi adiado devido à detecção de um vazamento de hidrogênio, o que exigiu o retorno do foguete ao prédio de montagem para inspeções adicionais.
Com RFI e AFP