Kast endurece política migratória e interrompe processo que beneficiaria 182 mil imigrantes no Chile

O presidente do Chile, José Antonio Kast, ordenou a suspensão da regularização de 182 mil imigrantes, interrompendo um processo iniciado por seu antecessor, o esquerdista Gabriel Boric. Uma das principais promessas de campanha de Kast era justamente expulsar imigrantes irregulares, em sua maioria venezuelanos, que viviam no país.

31 mar 2026 - 10h18

Com informações de Carlos Pizzarro, da RFI, e agências

Essa era uma de suas bandeiras eleitorais e uma das reformas consideradas mais urgentes pelo novo governo. A chegada de José Antonio Kast ao poder ocorre em um contexto de forte insatisfação popular com a criminalidade, percepções de insegurança e preocupações com a imigração irregular, temas que dominaram a campanha presidencial e que agora vão orientar as políticas do novo governo.

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"Há 338 mil pessoas que sabemos estar em situação irregular. Dessas, 182 mil se registraram, fornecendo endereço e dados biométricos. Muitos de nós agora nos perguntamos o que acontecerá com essas informações se essas pessoas não tiverem sua situação legal regularizada", afirma, em entrevista à RFI, Eduardo Cardoza, secretário-geral do Movimento de Ação Migrante.

"Isso traz consequências enormes. A migração contribui com 10% do Produto Interno Bruto do país, e essa decisão provoca danos significativos, porque estamos falando de pessoas trabalhadoras que, em 99,9% dos casos, vêm ao Chile para trabalhar e que, por estarem com a documentação irregular, acabam privadas de direitos básicos", destaca Cardoza.

Impedir entrada ilegal 

A questão migratória no Chile se tornou central no debate nacional. Dados de instituições regionais mostram que a população nascida no exterior cresceu significativamente nos últimos anos, impulsionada principalmente por fluxos vindos da Venezuela e de outros países da América Latina.

Além de suspender a regularização dos 182 mil migrantes, José Antonio Kast apresentará ao Congresso dois projetos de lei para restringir a entrada de imigrantes sem documentos: um para punir quem facilite a entrada irregular no país e outro que transformaria a entrada ilegal em crime.

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"Está acontecendo um fenômeno muito particular: as pessoas manifestam preocupação com essa situação, mas muitos imigrantes sem documentos, que trabalham e já criaram raízes no país, não querem — e não irão — embora. Isso pode gerar um cenário complexo, no qual se torna impossível deportar 338 mil pessoas em quatro anos", observa Cardoza.

"O máximo que qualquer governo conseguiu deportar foram 8 mil pessoas por ano, somando expulsões administrativas e judiciais. Portanto, ou implementamos políticas realistas, ou continuaremos alimentando uma situação que condena essas pessoas à pobreza. Esse é o desafio que o novo governo terá de enfrentar", conclui.

Apenas cinco dias após assumir o cargo, Kast lançou o chamado "Plano Escudo de Fronteira", uma das iniciativas mais emblemáticas de seu programa. O plano prevê a construção de barreiras físicas, trincheiras, sistemas de vigilância por câmeras e o envio permanente de forças de segurança para a fronteira com o Peru e para trechos considerados críticos na divisa com a Bolívia.

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