Milei retoma base naval no 'fim do mundo', aposta em apoio de Trump e endurece posição nas Malvinas

O presidente argentino Javier Milei reativou nesta semana o projeto da Base Naval Integrada em Ushuaia, ao anunciar que vai endurecer sanções contra a exploração petrolífera nas Malvinas na sexta-feira (11). A obra, iniciada em 2022 e hoje paralisada, ganha novo peso após Donald Trump indicar que pode rever a neutralidade dos EUA sobre o conflito. A região, estratégica para o acesso à Antártida, atrai interesse crescente de Estados Unidos e China.

12 set 2026 - 11h00
Resumo
Javier Milei reativou o projeto da Base Naval Integrada em Ushuaia visando reforçar a presença argentina na Antártida e nas rotas entre os oceanos Atlântico e Pacífico. A iniciativa coincide com o endurecimento de sanções contra a exploração britânica de petróleo nas Malvinas e com acenos de apoio de Donald Trump. O movimento ocorre em meio a disputas de influência entre EUA e China no extremo sul, embora as obras da base, considerada estratégica e controversa, estejam em estágio inicial.

O presidente argentino Javier Milei reativou nesta semana o projeto da Base Naval Integrada em Ushuaia, após anos de paralisação, ao anunciar que vai "endurecer sanções e penas" contra a exploração petrolífera nas ilhas Malvinas, sob controle britânico. A decisão ocorre dias depois de Donald Trump, presidente dos EUA, afirmar que poderia reconsiderar a neutralidade norte-americana sobre o conflito, reacendendo a disputa diplomática em torno do arquipélago.

Vista da cidade de Ushuaia, na Terra do Fogo, na Argentina, em 17 de maio de 2026.
Vista da cidade de Ushuaia, na Terra do Fogo, na Argentina, em 17 de maio de 2026.
Foto: AFP - JUAN MABROMATA / RFI

A retomada do projeto coincide com o avanço de iniciativas britânicas, como o plano petrolífero "Sea Lion", rejeitado por Buenos Aires. A base, segundo Milei, reforçaria a projeção argentina rumo à Antártida e ampliaria a presença militar em uma área estratégica próxima aos corredores marítimos que conectam os oceanos Atlântico e Pacífico — região que desperta crescente interesse de Estados Unidos e China.

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Apesar das declarações, o futuro complexo militar é, por ora, apenas uma plataforma de concreto de 2.500 m² em um terreno de 38 hectares sem acesso público. A obra, iniciada em 2022 durante o governo Alberto Fernández, avançou apenas 9,13% segundo dados oficiais. O local fica a cerca de 5 km do centro de Ushuaia e próximo ao aeroporto da capital de Tierra del Fuego.

Peso estratégico da região

Milei afirma que a base permitirá consolidar a presença argentina na Antártida, área de interesse científico, militar e econômico. Para analistas, a iniciativa busca reforçar a posição do país em um território que, embora regido por tratados internacionais, é alvo de disputas silenciosas entre potências. Daniel Guzmán, ex-combatente da guerra de 1982 e especialista em relações internacionais, avalia que a instalação poderia servir não apenas para patrulhamento, mas também para apoio logístico a outras marinhas.

Moradores de Ushuaia também enxergam oportunidade. "Por alguma razão, agora temos os olhos do mundo voltados para esta região", disse o médico Rubén Rafael, 69. A cidade, conhecida como "fim do mundo", tornou-se ponto de interesse global por sua proximidade com a Antártida e por estar situada no Canal Beagle, passagem natural entre os dois oceanos.

O governador de Tierra del Fuego, Gustavo Melella, opositor a Milei, apoia a construção, mas impõe limites. Ele afirma que a obra pode ampliar a presença argentina no Atlântico Sul, desde que não envolva participação de outros países. Melella recebeu na sexta-feira os ministros das Relações Exteriores e da Defesa, Pablo Quirno e Carlos Presti, para discutir o projeto.

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Relação com os EUA gera controvérsia desde 2024

A possível vinculação dos EUA à base gerou polêmica em 2024, quando Milei viajou a Ushuaia para se reunir com Laura Richardson, então chefe do Comando Sul. Na ocasião, o presidente afirmou que a instalação transformaria "nossos países" na porta de entrada para a Antártida, declaração que provocou críticas internas. Semanas depois, o governo esclareceu que não se tratava de uma base combinada.

A Casa Rosada voltou a reforçar essa posição recentemente. O porta-voz presidencial Adrián Ravier afirmou que o projeto é "cem por cento argentino". Apesar disso, visitas norte-americanas ao extremo austral continuaram. Em abril de 2025, Alvin Holsey, então chefe do Comando Sul, percorreu instalações navais de Ushuaia e recebeu relatórios sobre proteção de rotas marítimas e operações antárticas.

Em janeiro de 2026, uma delegação de 23 norte-americanos, incluindo sete congressistas, visitou a província. A presença frequente de autoridades dos EUA alimenta especulações sobre o interesse estratégico de Washington na região, especialmente diante da disputa global por influência no acesso à Antártida.

China avança com investimentos enquanto EUA ampliam presença militar

Para o cientista político Luis Castelli, diretor da consultoria Vox Pópuli, o interesse internacional pela região vai além da base naval. Ele afirma que Ushuaia tem valor geopolítico por estar sobre um canal que une os dois oceanos e pela proximidade com a Antártida — características que também tornam Malvinas e Punta Arenas, no Chile, pontos estratégicos.

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Castelli destaca que os EUA buscam conter o avanço chinês em áreas consideradas sensíveis para rotas marítimas e logística antártica. Segundo ele, "há um contexto internacional que potencializa os interesses das superpotências". As duas potências têm atuado por caminhos distintos: enquanto Washington marca presença com visitas oficiais, Pequim avança por meio de investimentos.

Em março, o embaixador chinês na Argentina, Wang Wei, visitou a obra de uma usina termoelétrica nos arredores de Ushuaia, financiada com capital chinês e investimento próximo a US$ 80 milhões. Castelli lembra que a China já instalou empresas e até bases no continente americano, movimento que, segundo ele, provoca resistência em Washington devido à doutrina Monroe, que orienta a política norte-americana para a região.

Disputa silenciosa molda futuro da presença argentina no sul

A reativação da base ocorre em meio a uma disputa silenciosa entre potências que buscam ampliar influência no extremo sul do continente. Para especialistas, a obra pode fortalecer a posição argentina em negociações internacionais sobre a Antártida e sobre o Atlântico Sul, áreas historicamente sensíveis para Buenos Aires.

A tensão com o Reino Unido por causa das Malvinas adiciona complexidade ao cenário. A promessa de Milei de endurecer sanções contra a exploração petrolífera no arquipélago reforça a postura confrontativa do governo, enquanto a possibilidade de mudança na posição dos EUA sobre o conflito — mencionada por Trump — amplia a imprevisibilidade diplomática.

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Por ora, a base permanece como uma estrutura de concreto exposta ao vento gelado de Ushuaia. O avanço das obras dependerá de decisões políticas, negociações internacionais e da capacidade argentina de equilibrar interesses estratégicos em uma região cada vez mais disputada.

Com AFP

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