A crise elétrica na Venezuela já atinge bairros de Caracas e intensifica a revolta no interior do país, onde moradores enfrentam apagões de até 26 horas e protestam contra o desvio de energia local para a capital. Com a produção nacional insuficiente para suprir a demanda, o governo interino de Delcy Rodríguez tenta firmar acordos externos para recuperar o setor e impulsionar o petróleo, enquanto a população sofre com prejuízos econômicos e o colapso da infraestrutura após anos de abandono.
Os apagões que atingem Caracas começaram a se espalhar para bairros da capital, apesar das medidas anunciadas em agosto pelo governo interino de Delcy Rodríguez para mitigar a crise elétrica, como a redução da jornada de trabalho no setor público. A deterioração do fornecimento ocorre enquanto regiões do interior, especialmente o estado de Táchira, acumulam semanas de cortes prolongados e protestos noturnos. Em Barinas, no oeste do país, e em Valencia, a 170 km de Caracas, moradores também foram às ruas em meados de agosto, sob calor e umidade intensos, para reclamar da falta de energia.
Durante visita recente ao país, o secretário de Energia dos Estados Unidos, Chris Wright, afirmou que a Venezuela possui "uma enorme capacidade de geração elétrica que não está funcionando" e que parte dessa infraestrutura poderia ser reativada "bastante rápido", adicionando gigawatts ao sistema. A avaliação reforça alertas internos sobre o colapso do setor. Segundo o deputado opositor Ezio Angelini, o país produzia 20.000 megawatts diários e consumia cerca de 12.000 antes da chegada do chavismo ao poder, em 1999. Hoje, a produção média é de 12.000 megawatts, insuficiente para atender a demanda atual de 14.000.
A crise energética se agravou no momento em que o governo tenta atrair capital estrangeiro para o petróleo e a mineração, setores que também consomem grandes volumes de eletricidade. Rodríguez enviou ao Legislativo uma reforma elétrica ainda não aprovada e firmou acordos com empresas transnacionais, como a GE Vernova, para recuperar 5.000 megawatts em quatro anos. A mandatária também estabeleceu um convênio com os Estados Unidos que cede 20% das reservas petrolíferas venezuelanas, além de contratos com grandes petrolíferas.
Interior reclama de apagões
Em Táchira, na fronteira com a Colômbia, a revolta cresce diante dos cortes diários e da percepção de que a energia produzida no estado é enviada à capital. Moradores de San Cristóbal afirmam que a situação se tornou insustentável. "Estou realmente exausta, cansada, e agora percebo que nós poderíamos ter luz o tempo todo, mas é preciso enviar energia para a 'bolha' para que os bairros de lá não saiam às ruas para protestar.", disse a secretária Josner Herrera, de 38 anos, irritada com o que considera uma estratégia para manter Caracas iluminada e evitar protestos.
A indignação aumentou após declarações do ex-deputado opositor Heriberto Labrador, que afirmou que a termoelétrica de Táchira gera cerca de 70 megawatts — volume suficiente para abastecer a demanda interna —, mas grande parte é desviada ao sistema interconectado nacional. "Se sobra, então que seja enviado, mas o que falta aqui é um governo que queira o melhor para o estado de Táchira", disse à AFP, ao tornar pública sua posição. Segundo ele, há localidades que chegam a ficar 26 horas sem eletricidade.
Labrador afirma que os apagões prolongados "colapsam a atividade comercial e afetam gravemente a cadeia de frio dos produtores agropecuários", provocando perdas significativas. O governador chavista Freddy Bernal, há quatro anos no cargo, evitou comentar o assunto quando questionado pela imprensa local, o que ampliou o descontentamento entre moradores.
Protestos noturnos e desgaste econômico
Os cortes cotidianos levaram moradores a bloquear, durante as noites desta semana, a estrada que liga Táchira ao estado de Barinas. As manifestações, marcadas por buzinaços, refletem o esgotamento da população. "Por nos castigar com esses cortes de luz?", questiona Irma Villasmil, 48, subgerente de um banco em San Cristóbal. Ela relata que sua geladeira já queimou duas vezes. "Isso é inadmissível e que afronta contra nós, tachirenses, que sofremos com isso há anos e ainda enfrentamos racionamentos só porque Caracas não pode ficar sem eletricidade", afirmou.
Villasmil diz que a sensação de injustiça é generalizada. "Já é tempo de parar com a ideia de que, só porque são a capital, a província tenha que pagar pela falta de energia. Que injustiça!", enfatizou. A percepção de que o interior sustenta a estabilidade da capital, enquanto enfrenta prejuízos econômicos e deterioração de serviços básicos, tornou-se um dos principais motores das mobilizações.
A crise elétrica também afeta a tentativa do governo de reerguer o setor petrolífero, essencial para a economia venezuelana. A necessidade de ampliar a geração de energia para sustentar refinarias e operações de extração coincide com a pressão social por melhorias imediatas no fornecimento doméstico. O desafio é equilibrar investimentos de longo prazo com demandas urgentes de regiões que acumulam anos de racionamento.
Infraestrutura degradada e pressão política
A deterioração do sistema elétrico venezuelano é resultado de décadas de falta de manutenção, corrupção e investimentos insuficientes. Especialistas afirmam que a dependência de grandes complexos hidrelétricos, somada à incapacidade de modernizar termoelétricas, deixou o país vulnerável a falhas em cascata. A situação se agravou após a captura de Nicolás Maduro em janeiro, quando Delcy Rodríguez assumiu o governo sob forte pressão de Washington.
A mandatária tenta reorganizar o setor energético enquanto enfrenta críticas de opositores e desconfiança de parte da população. A reforma elétrica enviada ao Legislativo é vista como tentativa de atrair investimentos e recuperar capacidade instalada, mas ainda não há consenso político para sua aprovação. A parceria com empresas estrangeiras, embora considerada crucial por especialistas, gera receios sobre dependência externa e impacto social.
Enquanto isso, moradores de Táchira e outras regiões convivem com calor, perdas materiais e interrupções constantes. A crise elétrica tornou-se símbolo das desigualdades regionais e da fragilidade institucional do país. A expansão dos apagões para Caracas, ainda que limitada, indica que a estratégia de preservar a capital pode estar chegando ao limite.
Com AFP