Maradona: morte do 'Deus' do futebol argentino volta à Justiça com suspeita de 'negligência'

Seis anos e meio depois, as circunstâncias da morte de Diego Maradona voltam a ser analisadas pela Justiça argentina, com a abertura, nesta terça-feira (14), de um segundo julgamento. A retomada ocorre dez meses após a anulação do primeiro processo, envolvido em um escândalo ligado à produção secreta de um documentário com a participação de uma juíza.

14 abr 2026 - 13h47

Sete profissionais de saúde - entre médico, psiquiatra, psicólogo e enfermeiros - serão julgados em San Isidro, ao norte de Buenos Aires, por pelo menos três meses, com duas audiências semanais. Eles são acusados de negligência que pode ter contribuído para a morte do ídolo do futebol.

O "Deus" Maradona - ainda idolatrado por muitos argentinos, nem mesmo ofuscado por Lionel Messi - morreu porque seu corpo, desgastado por excessos e dependências, não resistiu? Ou houve falhas, talvez até deliberadas, da equipe médica responsável por seus cuidados? Essas dúvidas voltam agora ao centro do processo.

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Os acusados respondem por "homicídio com dolo eventual", ou seja, quando se assume o risco de provocar a morte. As penas previstas variam de oito a 25 anos de prisão.

A audiência desta terça contou com a presença das três filhas de Maradona e de suas irmãs. Logo no início, houve um breve debate sobre a transmissão ao vivo de todo o julgamento - e não apenas da abertura e do encerramento. O pedido, feito por um advogado de defesa, foi rejeitado pelo tribunal.

Maradona morreu aos 60 anos, em 25 de novembro de 2020, em decorrência de uma crise cardiorrespiratória associada a edema pulmonar. Ele estava sozinho, em um quarto de uma residência privada onde se recuperava de uma cirurgia neurológica para tratar um hematoma na cabeça.

"Abandonado à própria sorte"

Na exposição inicial, o promotor Patricio Ferrari afirmou que a acusação pretende demonstrar uma série de omissões durante uma internação domiciliar que classificou como "cruel, precária e desprovida de recursos". Segundo ele, a equipe médica, descrita como "improvisada", teria "abandonado Diego Maradona à própria sorte, condenando-o à morte".

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Os réus negam qualquer responsabilidade e alegam que atuaram dentro dos limites de suas funções.

"Meu papel e minha responsabilidade foram compatíveis com minha profissão, a de psiquiatra, e sempre agi convicta de que fazia o correto no interesse do paciente", afirmou Agustina Cosachov durante o primeiro julgamento.

Esse processo foi anulado em maio de 2025, após mais de 20 audiências e o depoimento de 44 testemunhas, também em meio a controvérsia. A juíza Julieta Makintach havia participado, sem o conhecimento das partes, da produção de uma minissérie documental sobre o caso, na qual aparecia como personagem central.

Ela foi afastada do cargo, e o novo julgamento passou a ser conduzido por outro colegiado de magistrados.

"Nada disso deveria estar acontecendo", disse Jana, uma das filhas de Maradona, antes da retomada do caso. "O fato de não ter sido resolvido antes foi, para mim, como viver o luto uma segunda vez", afirmou ao site Infobae.

Uma "outra face" do caso?

Do lado de fora do tribunal de San Isidro, pequenos grupos de admiradores se reuniram na manhã desta terça, com bandeiras e cartazes pedindo "Justiça por D1OS" - referência ao apelido que combina "Deus" e o número 10.

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Entre eles estava Francisco Tesch, 34, morador da região metropolitana de Buenos Aires, que espera "que tudo seja esclarecido". "Desde que ele morreu, muita gente se pergunta quem estava ao lado de Diego e por que ele não foi protegido. Acho que essa dúvida é de muitos", disse.

O primeiro julgamento já havia revelado falhas importantes no acompanhamento médico na fase final da vida do ex-jogador. Entre os pontos levantados estão a decisão de mantê-lo em casa, e não em uma clínica, a falta de equipamentos adequados - como oxigênio, soro e monitor cardíaco - e o nível de supervisão médica.

A autópsia concluiu que Maradona agonizou por "ao menos 12 horas" antes de ser encontrado morto em sua cama.

Também vieram à tona dúvidas sobre quem tomava decisões no entorno do ex-jogador. Suas filhas e uma ex-companheira afirmaram que foram mantidas à margem e mal informadas pela equipe médica.

Com qual objetivo? Em 2025, Fernando Burlando, advogado de Dalma e Gianinna, falou em "assassinato" e sugeriu a existência de interesses financeiros de terceiros na morte de Maradona - o que chamou de a "outra face" do caso.

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Com AFP

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