Ilha do Caribe é foco de extremismo islâmico

25 mar 2017 - 17h01
(atualizado em 27/3/2017 às 13h07)

Conhecida como paraíso turístico a poucos minutos de voo dos EUA, Trinidad e Tobago tem elevado índice per capita de muçulmanos dispostos a se tornarem combatentes do "Estado Islâmico".

Paraíso turístico, Trinidad e Tobago fica a poucos minutos de avião dos Estados Unidos
Paraíso turístico, Trinidad e Tobago fica a poucos minutos de avião dos Estados Unidos
Foto: iStock

Da população de cerca de 1,3 milhão de Trinidad e Tobago, 6% são muçulmanos. De acordo com informações do Ministério de Segurança Nacional do país, 130 combatentes e seus familiares foram para a Síria nos últimos quatro anos. Comparando, dos EUA, com 320 milhões de habitantes, foram 250 cidadãos.

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"A situação econômica e social é fundamental. Eles não entram na guerra só por razões religiosas", avalia Umar Abdullah, presidente do grupo Frente Islâmica de Trinidad. "O governo castiga os muçulmanos, eles não conseguem emprego, são acusados de crime e terrorismo."

A população da ex-colônia britânica de Trinidad e Tobago inclui descendentes de escravos africanos, de trabalhadores ferroviários indianos e imigrantes europeus e latino-americanos. A maioria é cristã, 18% são hindus.

Observação dos EUA

Desde a partida de jihadistas do Caribe para a Síria não só a ilha está sob observação dos Estados Unidos, mas também a Frente Islâmica de Trinidad. No livro Guide to Islamist movements (Guia dos movimentos islâmicos), de Barry M. Rubin, o movimento é classificado como "ameaça potencial".

O líder do grupo, Umar Abdullah, é considerado um muçulmano linha-dura e crítico feroz da política dos EUA. Segundo o autor Rubin, a organização que ele chefia é um dos movimentos islâmicos que ganharam força na esteira de uma onda de crimes após a virada do milênio. Um elemento-chave que impulsionou o fundamentalismo islâmico em Trinidad e Tobago foi o movimento Black Power dos anos 70.

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Ilha caribenha é uma das maiores atrações turísticas da região
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Renda per capita elevada

Já há 27 anos, grupos islamistas radicais chamavam a atenção em Trinidad e Tobago: em agosto de 1990, rebeldes do movimento Jamaat al-Muslimeen ocuparam o Parlamento na capital, Port of Spain. "Alá derrubou o primeiro-ministro", afirmou na época o líder Yasin Abu Bakr na televisão, acrescentando que daria fim à corrupção, roubo, incestos e drogas. Depois de seis dias os rebeldes se entregaram.

Já na época, a tentativa de golpe em Trinidad parecia difícil de entender. O arquipélago é considerado um paraíso de férias no Caribe. Com uma renda per capita de 18 mil dólares, a população é considerada em situação relativamente confortável, para os padrões latino-americanos.

Mas o declínio recente dos preços dos combustíveis fósseis coloca o país em dificuldades. Em 2016, as exportações de petróleo caíram cerca de 70%, as de gás, 45%. As perdas de receitas baixaram o PIB em 6,7%, e o desemprego cresce.

"Se o governo fizesse a lição de casa, procuraria os jovens em suas comunidades e guetos, onde muitos levam uma vida sem perspectivas", comentou um leitor do jornal Daily Express, da cidade de Chaguanas. "Pois, para o 'Estado Islâmico', essas pobres almas são bem-vindas."

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Até agora, o foco do governo tem sido mesquitas ao invés de favelas. Em meados de fevereiro, o ministro da Segurança Nacional do país, general Edmund Dillon, convocou uma mesa redonda com vários representantes das comunidades islâmicas. Dillon exortou os líderes das comunidades a compartilharem com as autoridades informações sobre potenciais recrutadores de combatentes jihadistas ou de elementos dispostos a emigrar para se juntarem ao EI.

Ao mesmo tempo, o primeiro-ministro de Trinidad, Keith Rowles, anunciou que seu governo vai punir judicialmente quem aderir a organizações terroristas, e viagens a zonas de combate do EI passariam a requerer autorização prévia.

Cooperação difícil

Na altamente fragmentada comunidade muçulmana, as medidas anunciadas foram recebidas, em maior parte, com ceticismo e rejeição. Segundo a imprensa local, muitas comunidades temem que isso possa resultar numa imagem negativa dos muçulmanos.

"É estranho. Estamos sendo discriminados não por outros líderes religiosos, mas pelo próprio governo", reclama Umar Abdullah, da Frente Islâmica. Ele e muitos outros líderes muçulmanos não foram convidados para as reuniões oficiais com as autoridades do governo em fevereiro.

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Abdullah diz que não consegue imaginar uma colaboração com o governo no combate ao terrorismo e deixa deliberadamente em aberto se está disposto a passar as informações sobre combatentes jihadistas exigidas pelo governo.

"Não tenho nenhum problema se alguém quiser ir para a Síria. Mas se o meu irmão de fé quiser ouvir minha opinião, eu não recomendaria. Aqui em Trinidad e Tobago ainda há muito o que fazer para difundir o islã."

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