Alemanha pena para achar um depósito definitivo para seu lixo nuclear

2 nov 2026 - 18h46
Resumo
Enquanto a Finlândia aprovou o primeiro depósito definitivo de lixo nuclear do mundo, a Alemanha enfrenta desafios técnicos, políticos e sociais para isolar seus resíduos subterrâneos por 1 milhão de anos. Tendo desativado sua última usina em 2023, o país restringe a busca a 5% do seu território, com previsão de escolha até 2050. O processo, que custa 1,4 bilhão de euros anuais e gera resistência popular, busca uma solução definitiva e segura em solo nacional para 28 mil m³ de rejeitos.

Finlândia é o primeiro país a ter um depósito definitivo para resíduos nucleares. Maioria dos países, como a Alemanha, continua procurando.Poucos problemas políticos são tão difíceis de solucionar quanto a destinação dos resíduos altamente radioativos das usinas nucleares. Isso fica evidente pelo fato de que a questão continua, até hoje, em grande parte sem solução na maioria dos 31 países do mundo que possuem ou já possuíram usinas nucleares. E isso apesar de a primeira grande usina nuclear ter entrado em operação em 1954, na Rússia.

Depósito definitivo para resíduos nucleares em Olkiluoto, na Finlândia, fica 400 metros abaixo da terra
Depósito definitivo para resíduos nucleares em Olkiluoto, na Finlândia, fica 400 metros abaixo da terra
Foto: DW / Deutsche Welle

É nesse contexto que a Finlândia aprovou recentemente o primeiro depósito geológico definitivo para lixo nuclear altamente radioativo do mundo. Ele está localizado a 400 metros de profundidade, na ilha de Olkiluoto, no oeste do país, junto a uma das duas usinas nucleares finlandesas. Os finlandeses levaram cerca de 40 anos para concluir o projeto.

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Há anos Alemanha procura uma solução

Em todos os outros países continua existindo um problema que pode ser ilustrado por uma situação cotidiana que muitos conhecem: o lixo está lá, na calçada, pronto para ser recolhido, mas o caminhão de coleta não vem. E isso ocorre porque não há um local adequado para onde levar esse lixo. Ninguém, afinal, quer morar perto de um depósito de lixo nuclear.

Isso vale também para a Alemanha, que há décadas debate onde seria o local adequado. Só a Sociedade Federal para Depósitos Finais (BGE, na sigla em alemão), criada apenas para esse fim, já está há dez anos procurando um local como na Finlândia: subterrâneo.

Pois num ponto a maioria dos especialistas concorda há muito tempo: o lixo nuclear, especialmente os elementos combustíveis usados nas usinas nucleares que continuarão emitindo radiação por milhares de anos, precisa ser armazenado no subsolo.

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Apenas 5% do território

Na Alemanha, a busca está prevista para durar até 2050, mas o ministro do Meio Ambiente, Carsten Schneider, quer verificar se esse prazo pode ser encurtado.

"Rússia, Estados Unidos, Reino Unido e Japão não têm processos tão avançados quanto o nosso. A Finlândia certamente é o país que mais avançou no mundo. Mas a Alemanha faz parte do grupo dos pioneiros", disse um porta-voz do ministério.

A BGE anunciou que apenas 5% da área territorial da Alemanha ainda são considerados potenciais locais para um depósito definitivo, distribuídos por 11 dos 16 estados federados. O órgão dialoga com geólogos, especialistas em energia nuclear, físicos, cidadãos e políticos.

Há ainda uma outra decisão clara: o lixo nuclear produzido ao longo de décadas de operação de usinas nucleares alemãs permanecerá na Alemanha e não será enviado ao exterior.

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Os rejeitos ficam

Hoje os resíduos estão armazenados na área das 19 antigas usinas nucleares, atualmente em processo de desmontagem, e em algumas instalações de pesquisa.

A Alemanha decidiu abandonar gradualmente o uso comercial da energia nuclear em 2011, após o desastre nuclear de Fukushima, no Japão. A última usina foi desligada em 2023. O lixo radioativo, porém, ficou onde estava.

Um dos motivos para a demora em se encontrar um depósito definitivo é que é necessário provar que o local é seguro por um período extremamente longo: na Finlândia são 100 mil anos; na Alemanha, Suíça e França, 1 milhão de anos.

"Independentemente do horizonte temporal considerado, o esforço é sempre enorme", observa a porta-voz do BGE, Dagmar Dehmer.

Qual o local ideal?

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Os potenciais locais são avaliados segundo critérios geológicos rigorosos: a formação rochosa a 400 metros de profundidade é estável? Existe risco de contaminação das águas subterrâneas?

O objetivo é encontrar um local onde o depósito seja cercado por uma camada rochosa com aproximadamente 100 metros de espessura, funcionando como barreira natural. Entre as formações consideradas adequadas estão camadas de argila, granito ou sal-gema.

Os critérios são progressivamente ampliados e refinados, reduzindo cada vez mais o número de locais possíveis. Outros fatores, como a proximidade de grandes cidades, só passam a ser considerados em etapas posteriores.

Uma coisa é clara de antemão: a perspectiva de abrigar um depósito de resíduos radioativos não gera entusiasmo entre os moradores de nenhum lugar na Alemanha.

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Parte do trabalho de Dehmer consiste em criar confiança. Ela precisa explicar repetidamente por que é necessário lidar com o legado deixado pela era da energia nuclear, independentemente da opinião de cada um sobre essa tecnologia.

Ela diz que a Finlândia foi bem-sucedida nisso. "Na Finlândia existe uma grande confiança na atuação das instituições estatais. A autoridade reguladora e licenciadora do país, a Stuk, está entre as instituições mais respeitadas da Finlândia. A Alemanha pode aprender com os finlandeses por meio da continuidade, evitando mudanças constantes de direção e exercendo a paciência necessária ao longo de gerações para alcançar um bom resultado."

Uma solução extremamente cara

Além de indesejada, a destinação definitiva dos resíduos nucleares é cara. A busca por um depósito definitivo e o armazenamento provisório dos resíduos nos antigos locais das usinas custam cerca de 1,4 bilhão de euros por ano à Alemanha.

Os especialistas estimam que a construção e operação do depósito definitivo custarão cerca de 14 bilhões de euros.

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A expectativa é que, quando o projeto estiver concluído, 28 mil metros cúbicos de resíduos radioativos tenham finalmente encontrado um depósito permanente e seguro no subsolo.

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