Guerra sangrenta entre chimpanzés em Uganda revela padrões sociais que ecoam comportamentos humanos

Uma guerra civil rara entre chimpanzés se arrasta há anos no Parque Nacional de Kibale, em Uganda, dividindo uma comunidade antes unida em dois grupos rivais. O conflito, documentado ao longo de três décadas por pesquisadores internacionais, mostra como mudanças sociais, disputas territoriais e transformações internas podem desencadear violência organizada entre grandes primatas.

3 mai 2026 - 10h03

Juliette Pietraszewski, da RFI

Os resultados desse monitoramento foram publicados na revista Science em abril de 2026. Para compreender o fenômeno, a reportagem ouviu o antropólogo John Mitani, referência mundial no estudo de primatas. Para especialistas, entender essa ruptura ajuda a entender tanto o comportamento dos chimpanzés quanto aspectos profundos da nossa própria espécie.

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Segundo os pesquisadores, uma guerra civil rara, dentro de uma única comunidade, dividiu o grupo em facções rivais. Esses grupos passaram a se organizar em "clãs" no fim dos anos 1990, mas a separação se tornou mais clara a partir de 2015.

O marco simbólico desse afastamento foi o nascimento de um último filhote fruto de um cruzamento entre os dois grupos — algo que não voltou a ocorrer.

Desde então, os cientistas identificaram dois campos distintos: o "grupo central" e o "grupo ocidental". Ambos realizam patrulhas territoriais, comportamento comum entre chimpanzés, mas que ganhou intensidade conforme a divisão interna se aprofundou. As interações dentro de cada grupo aumentaram, enquanto os contatos entre os clãs diminuíram de forma acentuada.

Essa tendência acabou levando a confrontos violentos. Entre 2018 e 2024, o grupo ocidental realizou duas dezenas de ataques contra o grupo central, matando adultos e filhotes. Para uma espécie já vulnerável, trata-se de um impacto significativo. Os pesquisadores destacam que esse tipo de violência organizada é raro na natureza, mas não inédito entre chimpanzés.

Hipóteses para explicar a ruptura

Os cientistas trabalham com várias hipóteses para entender essa guerra civil. Uma delas envolve mudanças nos laços sociais entre os indivíduos. Outra considera fatores ecológicos, como a recusa em compartilhar áreas ricas em alimento. Há ainda a diferença de idade entre os machos de cada grupo, que pode alterar a dinâmica de poder. Mas nenhuma explicação isolada dá conta do fenômeno.

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"Não há uma resposta definida por enquanto", afirma John Mitani, professor emérito de antropologia da Universidade de Michigan, em entrevista à RFI. Ele lembra que a comunidade original atingiu um tamanho "incomumente grande", o que aumentou a competição interna. A chegada de novos indivíduos também alterou relações estabelecidas. "Houve ainda uma mudança no macho alfa", acrescenta.

A guerra civil se soma às ameaças já conhecidas que pesam sobre os chimpanzés, classificados como espécie "em perigo" pela União Internacional para a Conservação da Natureza (UICN).

Mitani ressalta que, embora o conflito interno não ajude na proteção da espécie, há riscos mais graves: destruição de habitat, epidemias que vêm reduzindo populações em várias regiões da África e a caça, especialmente na África Central e Ocidental.

Semelhança ou diferença com humanos?

Para os cientistas, acompanhar a evolução dos laços sociais e entender como eles podem gerar conflitos em grupos animais — algo raro na natureza — é fundamental. "O estudo destaca uma diferença importante entre eles e nós, humanos", diz Mitani. "Sabemos há anos que chimpanzés podem atacar e matar vizinhos, mesmo quando esses vizinhos já foram aliados."

O cientista sugere que humanos também podem fazer isso, mas que temos mecanismos culturais, institucionais e simbólicos que às vezes contêm esse impulso — como leis, mediação, diplomacia, normas sociais, punições e memória histórica, por exemplo.

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O antropólogo e seus colegas esperam manter as pesquisas, embora reconheçam que isso se tornou mais difícil. "A ciência está sob ataque nos Estados Unidos", afirma Mitani. "Os recursos para esse tipo de estudo podem desaparecer. Espero que possamos continuar por mais trinta anos, como fizemos até agora com financiamento federal. Mas temo que isso não seja mais possível."

Desde a publicação do estudo, veículos de imprensa do mundo inteiro passaram a se interessar pelo caso. Para Mitani, essa atenção é positiva — e compreensível. "Desafio qualquer pessoa a passar um tempo com os chimpanzés e não ver uma parte de nós mesmos neles. É impossível."

A comunidade de Ngogo é considerada a maior já documentada entre chimpanzés selvagens, chegando a ultrapassar duzentos indivíduos em seu auge. Esse tamanho incomum cria pressões internas que não aparecem em grupos menores, o que ajuda a explicar por que tensões sociais podem ter se acumulado ao longo dos anos até se transformar em conflito aberto.

Território vasto

Pesquisas citadas pelo New York Times e pela Science mostram que o território de Ngogo é excepcionalmente vasto, exigindo longas patrulhas e deslocamentos que podem ultrapassar dezenas de quilômetros. Esse padrão territorial, raro entre chimpanzés, reforça a importância estratégica de áreas ricas em alimento e pode intensificar disputas quando a comunidade cresce além do que o ambiente suporta.

Além disso, Ngogo já havia protagonizado episódios de violência organizada no passado. No início dos anos 2000, pesquisadores documentaram que o grupo eliminou gradualmente uma comunidade vizinha menor, expandindo seu território. Esse histórico, amplamente citado em veículos internacionais, é frequentemente lembrado como um dos casos mais claros de "guerra territorial" entre primatas, e ajuda a contextualizar a atual ruptura interna.

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