Agnès Levallois, presidente do Instituto de Pesquisa e Estudos sobre o Mediterrâneo e o Oriente Médio (iReMMO), afirma que o risco de o conflito se espalhar já era conhecido.
"Eu não diria que a situação está fora de controle, já que sabíamos que, nesta operação lançada por Israel e pelos americanos, havia o risco de o conflito se estender para além do país em questão. Os iranianos sempre disseram que não ficariam passivos diante deste ataque. E é exatamente isso que está acontecendo, com o Irã demonstrando sua capacidade de retaliar. Portanto, retaliará onde puder, o que significa nos países vizinhos do Golfo", disse à RFI.
Para ela, talvez o elemento mais surpreendente, dada a situação, seja o que ocorre no Líbano. "O Hezbollah havia sido parcialmente desarmado após a guerra travada por Israel em setembro de 2024", lembra. "A impressão geral era de que o Hezbollah tinha interesse em se manter fora desta guerra para evitar uma resposta muito forte contra o Líbano. No entanto, entrou na guerra."
No domingo, o Hezbollah lançou drones e mísseis contra Israel, que retaliou atacando alvos em todo o Líbano, levando novamente o país a se envolver em uma guerra regional.
"O fato de o Hezbollah ter decidido retaliar ou apoiar o Irã por meio dos mísseis lançados contra Israel significa que hoje o Líbano se encontra, mais uma vez, como um dos principais atores nesse conflito", afirma a especialista.
Ela acrescenta que isso é surpreendente porque "o Hezbollah corre o risco de perder tudo no Líbano neste momento", já que a maioria dos libaneses se opõe a ser arrastada para uma guerra "com a qual sentem que não têm nada a ver".
Capacidades iranianas
A especialista reconhece que o conflito assumiu uma dimensão regional que preocupa muito os Estados do Golfo e representa um risco de desestabilização duradoura. A grande questão, no entanto, é se o Irã tem capacidade militar para sustentar uma intervenção prolongada.
"Será que eles têm reservas suficientes para sustentar essa guerra por muito tempo? Ou será que os iranianos estão usando todo o equipamento que possuem para demonstrar sua capacidade? Não tenho certeza de que eles conseguiriam fazer isso por muito tempo", questiona.
O presidente americano, Donald Trump, estimou que as operações no Irã devam durar entre quatro e cinco semanas. Ele também afirmou que a ofensiva está progredindo muito bem e mais rápido do que o esperado. Mas, para Levallois, é necessário cautela.
"Continuo muito cautelosa em relação às suas declarações. Em todo caso, o que isso indica é que alguns pensavam que haveria ataques muito direcionados ao Irã e que depois seguiríamos em frente. Mas temo que não seguiremos em frente tão rapidamente. E, novamente, que isso terá consequências duradouras para toda a região", afirma.
Cedo para mudança de regime
Sobre a morte do líder iraniano Ali Khamenei, Levallois acredita que ainda é cedo para falar em mudança de regime.
"O regime acabará caindo; estou convencida disso há meses. Este é um grande golpe. Mas ele ainda existe e se mantém no poder. Sobrevive, se organiza. Portanto, tudo dependerá, mais uma vez, da capacidade dos israelenses e americanos de continuarem matando autoridades. E dependerá também de como a população iraniana reagirá ao que está acontecendo", diz.
Para a especialista, seria necessária uma intervenção militar terrestre para acelerar a queda do regime iraniano, no poder há 47 anos.
"Mas sabemos muito bem que, em todas as operações anteriores na região — e penso no Iraque — a presença de tropas terrestres não significou uma transição tranquila para a população", alerta. Até hoje, esse tipo de intervenção sempre representou "um desastre para populações e sociedades", sublinha.
Apesar das negativas de Teerã, Levallois não descarta a possibilidade de que alguns membros do regime decidam, em algum momento, negociar com Trump para preservar seus interesses, percebendo que o governo está condenado.
Trump afirma ter "três ótimas opções para liderar o Irã", sem especificar quais seriam. "Eu me preocuparia com a escolha de Trump, porque sabemos muito bem que aqueles que recebem apoio estrangeiro não representam, de forma alguma, uma alternativa real", comenta, sem citar nomes.
"Em última análise, tudo dependerá do grau de autonomia concedido a essa pessoa e de até que ponto os americanos tentarão controlar tudo. Porque, novamente, acredito que essa seria a pior coisa que poderia acontecer aos iranianos", conclui.