Modelo 3D revela complexa rede de nervos do clitóris

27 abr 2026 - 09h11

Imagens de alta resolução podem ser úteis em partos, redesignação de gênero e reconstrução genital. Estudo evidencia lacuna significativa no conhecimento sobre o corpo da mulher.Qual é o tamanho do clitóris? Onde exatamente ele fica? Como é sua estrutura? Quem não sabe responder não está sozinho. Mesmo para muitas médicas e médicos, essas perguntas são, até hoje, surpreendentemente difíceis de responder - apesar de serem essenciais para o prazer sexual das mulheres.

A falta de conhecimento se deve menos à falta de interesse do que a um problema estrutural: durante muito tempo, órgãos centrais do corpo feminino foram muito menos estudados pela medicina do que os masculinos.

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No caso do clitóris, por exemplo, o seu equivalente é o pênis. Ambos têm a mesma origem embrionária, possuem corpos cavernosos e ficam eretos durante a excitação sexual.

Um novo estudo em 3D realizado na Holanda ajuda agora a preencher um pouco essa lacuna. Uma equipe de pesquisa liderada por Ju Young Lee, do Centro Médico da Universidade de Amsterdã, analisou dois corpos doados à ciência por meio de um procedimento especial de raio X: a radiação síncrotron.

A técnica permite obter imagens de altíssima resolução e com um nível extremo de detalhe. Métodos convencionais, como a ressonância magnética, conseguem mostrar estruturas gerais, mas não permitem uma representação espacial dos trajetos nervosos mais finos.

Mapeamento de nervos sensoriais

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Nas imagens, torna-se visível pela primeira vez o quão complexo é o sistema nervoso do clitóris.

Os pesquisadores conseguiram acompanhar em três dimensões o trajeto do nervo dorsal do clitóris (principal nervo sensorial do órgão) desde a pelve até a glande clitoriana.

Dentro da glande, vários troncos nervosos espessos se ramificam como uma árvore até perto da superfície, alguns deles com até 0,7 milímetro de espessura.

Ao contrário do que se supunha, os nervos não vão se afinando, mas continuam se abrindo em ramificações.

Além disso, as imagens mostram que os ramos nervosos não abastecem apenas a glande, mas também seguem para o prepúcio do clitóris e até o monte púbico.

Negligência histórica

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O fato de o clitóris ter sido negligenciado por tanto tempo também se deve a ele ter sido reduzido, durante décadas, à sua parte visível.

Na realidade, a maior parte do órgão fica no interior do corpo. Essa realidade anatômica só foi descrita de forma sistemática no fim dos anos 1990 e no início dos anos 2000.

A urologista australiana Helen O'Connell teve um papel central nesse processo. Com o auxílio de exames de ressonância magnética, ela mostrou pela primeira vez que o clitóris não é um pequeno botão externo, mas um órgão grande e complexo. Ele pode atingir um comprimento de 8 a 12 centímetros.

A glande visível é apenas a parte externa de uma estrutura que se estende abaixo do osso púbico, envolve a entrada da vagina e é composta por corpos cavernosos, que se enchem de sangue durante a excitação.

Naquela época, representações comparavelmente detalhadas do pênis já existiam havia décadas.

Conhecimento útil para cirurgias

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Ju Young Lee é neurocientista de formação, e seu foco por muito tempo esteve no cérebro. Nos últimos anos, porém, a pesquisa passou a se voltar cada vez mais também para sistemas nervosos periféricos, como o intestino.

Numa grande conferência europeia, ela perguntou certa vez se alguém investigava como os nervos em órgãos ginecológicos se comunicam com o cérebro. Pelas respostas, ela percebeu que o tema não figurava entre as inquietações dos seus pares.

Lee não conseguiu deixar o tema de lado. Depois do doutorado, foi para o Centro Médico da Universidade de Amsterdã, que integra o projeto internacional Human Organ Atlas Hub (HOAHub). O objetivo é mapear sistematicamente o corpo humano com o uso de imagens por radiação síncrotron - uma espécie de Google Earth da anatomia.

"O conhecimento preciso da anatomia pode ajudar a evitar danos aos nervos em cirurgias na região da vulva", afirma. Os pesquisadores envolvidos consideram que os resultados podem ser especialmente úteis em partos, cirurgias de redesignação de gênero e cirurgias reconstrutivas após mutilação genital.

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Pela falta de conhecimento amplo entre médicos sobre os caminhos nervosos, alterações de sensibilidade ou problemas sexuais muitas vezes deixam de ser associados posteriormente a procedimentos cirúrgicos ou partos.

Lacuna de gênero na saúde

A médica ginecologista Mandy Mangler se depara cotidianamente com a distância que ainda existe entre a pesquisa e a prática. Quando viu as novas imagens, ficou entusiasmada - não porque tudo fosse novo, mas porque elas finalmente comprovavam hipóteses anteriores.

"Há pouquíssima produção científica sobre o clitóris", diz. "Que os nervos chegassem até o monte púbico e os lábios vulvares era plausível. Agora, finalmente, isso foi demonstrado."

Mangler faz uma comparação direta com a saúde masculina. No hospital, ela divide o espaço de trabalho com urologistas. "Eu vejo ao vivo o tamanho do esforço feito para preservar os nervos em cirurgias no pênis", diz ela. "Há muita pesquisa, treinamento e conscientização."

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Para ela, trata-se de um exemplo clássico da chamada lacuna de gênero na saúde. Padrões médicos que são considerados óbvios para os homens ainda faltam para as mulheres.

Clitóris não é caso isolado

O fato de órgãos centrais do corpo feminino terem sido subestimados por muito tempo também aparece em outras áreas.

Recentemente, uma pesquisa sobre o ovário mostrou que o tecido chamado rete ovarii pode contribuir para o equilíbrio hormonal e o desenvolvimento embrionário dos ovários. Ao que tudo indica, também existe uma relação com a formação de cistos.

Descrito há mais de cem anos, esse tecido foi depois considerado sem função e removido dos livros de anatomia.

A nova pesquisa sobre o clitóris não responde a todas as perguntas. "Uma imagem completa não é possível. Novas tecnologias sempre trarão novas descobertas", pondera Lee.

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Foram analisadas duas amostras post-mortem de mulheres idosas. A forma como a estrutura e a função do clitóris mudam ao longo da vida - na puberdade, na gravidez, na menopausa ou durante o ciclo menstrual - continua sendo amplamente desconhecida.

A Deutsche Welle é a emissora internacional da Alemanha e produz jornalismo independente em 30 idiomas.
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