Seja como estratégia de diminuição da violência entre os estudantes, seja por priorizar metas quantitativas de ensino, ou até pela ausência de estrutura espacial de qualidade nas escolas públicas, o fato é que o recreio está constantemente sendo reduzido e até extinto do cotidiano escolar.
Esse é um dos resultados da pesquisa que coordenei, intitulada Fazendo Comuns: a escola como projeto intra e co-geracional, vinculado ao Núcleo Interdisciplinar de Estudos da Infância, Adolescência e Juventude (NIAJ), da Universidade Federal do Rio de Janeiro.
O projeto investiga a escola como um contexto particular e relevante para a emergência de "comuns" das crianças, aquilo que elas, em conjunto, coletivizam como experiências marcantes e significativas.
Um dos "comuns" mais importantes que se descobriu nessa pesquisa foi a demanda das crianças pelo recreio escolar: justamente porque elas não dispõem de tempo e espaço suficientes para a recreação.
A pesquisa foi realizada com cerca de 2.500 crianças em 110 turmas diferentes e 34 escolas do município do Rio de Janeiro ao longo de 2019 e de 2022, após a reabertura das escolas depois da pandemia.
Utilizamos um conjunto de seis livretos, cada um mostrando através de texto e imagem, uma situação escolar diferente vivida pelas crianças, em que elas deveriam discutir sobre tal situação e combinar uma resposta entre elas.
Esse dispositivo de pesquisa buscou aproximar-se das posições que as crianças podem tomar sobre o que acontece na escola: a escola vista da sua perspectiva.
Ao longo do processo de pesquisa, de várias maneiras, e de forma orgânica, consistente e convincente, os estudantes apontaram como a inexistência do recreio, ou sua duração diminuta, e outras tantas dificuldades, impedem seus momentos de brincadeiras, conversas e liberdade dentro da escola.
Experiência que cerceia a criatividade e a liberdade
A experiência escolar é avaliada de forma marcante como cerceando a criatividade e a liberdade, e os movimentos de expansão vital.
Usufruir do recreio escolar se coloca como um "comum" dos estudantes. Mesmo em escolas muito distantes uma da outra, a principal reivindicação das crianças é igual: ter o recreio como tempo livre e lugar para brincarem, relaxarem e conversarem.
Com os resultados acumulados, buscou-se pensar maneiras de tornar públicas as discussões acerca da infância e de suas formas de participação social.
O projeto ampliou a discussão sobre o recreio escolar nos setores da sociedade organizada: Conselhos de Direitos das Crianças, Defensoria Pública, Poder Judiciário, Câmara de Vereadores, organizações estudantis, culminando em um evento na Escola de Magistratura do Rio de Janeiro que se intitulou "As crianças falam? - Mobilizações Públicas acerca do recreio escolar", em novembro de 2024.
O projeto evoluiu para o livro "Fazendo comuns na escola", que será lançado em evento aberto ao público a ser realizado no dia 8 de maio de 2026 no Colégio Brasileiro de Altos Estudos (UFRJ).
O livro reflete sobre este percurso de pesquisa e argumenta a favor das demandas políticas das crianças, como estudantes de escolas municipais cariocas. Busca-se apresentar como as crianças e adolescentes narram suas experiências escolares e "combinam", em conjunto, formas de agir coletivamente e de pôr em pauta suas demandas por transformação.
Também se discute como o discurso de professoras e professores da rede pública responde a tal demanda: sob a forma de um manifesto escrito em conjunto com os/as pesquisadoras do projeto.
O recreio escolar se coloca como um significante central na análise do livro, uma vez que representa, além de importante demanda estudantil, uma possibilidade da vida para além do trabalho produtivo. O leitor é convidado a imaginar um mundo outro, democrático, coletivo e a favor das políticas de vida a partir das demandas das crianças.
Mais do que nunca, é fundamental pensar os valores da "recreação" como essenciais para a regeneração do mundo e a construção de projetos alternativos de sociedade.
Lucia Rabello de Castro não presta consultoria, trabalha, possui ações ou recebe financiamento de qualquer empresa ou organização que poderia se beneficiar com a publicação deste artigo e não revelou nenhum vínculo relevante além de seu cargo acadêmico.