Rosita nasceu em cima de uma árvore. Foi assim que veio ao mundo Rosita Pedro Mabuiango, no ano 2000, durante aquelas que até hoje eram consideradas as piores inundações da história de Moçambique. As imagens da bebê e sua história deram a volta ao mundo, mobilizando ajudas para que Rosita pudesse crescer forte e saudável.
Mas em 12 de janeiro deste ano, no meio das cheias que já estão sendo consideradas piores que as de 2000, Rosita morreu. De anemia. Com apenas 25 anos.
A breve existência de Rosita resume o que é o Moçambique de hoje, o que podia ser e o que não foi: um país alvo de contínuos fenômenos naturais extremos (ciclones Idai, Kenneth, Dai, Dikelede, Chido, Dzuzai e outros). Uma nação que, a partir da experiência das cheias do ano 2000, concentradas na província de Gaza (trágica homonímia com outra região martirizada do mundo), prometeu fazer de tudo para limitar as consequências nefastas de tais eventos. Mas que não conseguiu, nem mesmo com ajuda internacional.
Rosita, a "bebê milagre", simbolizou com sua morte o fim das esperanças de resgate deste país cheio de recursos, mas profundamente desigual e incapaz de garantir os serviços básicos às muitas jovens e aos muitos jovens como Rosita.
Depois da Rosita: muitos eventos extremos, nenhuma solução
O arco de tempo que coincide com a vida da Rosita passou em vão. Pelo menos do ponto de vista da gestão das calamidades naturais, cada vez mais frequentes e intensas em Moçambique. No passado recente, fenômenos naturais destrutivos se seguiram regularmente, ano após ano, abrangendo todas as regiões de Moçambique: sul, centro e norte.
Entre eles, o ciclone Idai (centro), em 2019:
…O ciclone Gombe em Nampula (norte) em 2022:
… e as cheias que inundaram a capital Maputo (sul) em 2023:
Apesar da frequência destes eventos, os passos para frente foram muito poucos, em boa verdade quase nenhum. Nesta época de verão também, no mesmo período de sempre (entre novembro e março), a força da natureza, associada à incúria do homem, desvendou os limites de uma governação ineficiente e incapaz de lidar com riscos extremos e sua prevenção.
As Nações Unidas estimaram que, entre o fim de 2025 e o início de 2026, as inundações (concentradas desta vez no sul e, em parte, no centro do país) abrangeram cerca de 3.000 km² de território moçambicano (de um total de 801.000 km²), com cerca de 125 mortos e mais de 700.000 pessoas afetadas pelas cheias.
A única saída, neste momento, é a assistência humanitária, principalmente internacional, pós-desastre. Uma saída que reflete a filosofia que, quer a nível nacional, quer em termos de cooperação bilateral e multilateral, se quis adotar depois dos desastres provocados, em 2019, pelo ciclone Idai.
Em 2020 foi aprovada uma nova lei (a L. 10/2020), reformando o instituto público que deveria pautar pela segurança e prevenção do risco em caso de fenômenos naturais extremos (de Instituto Nacional de Gestão de Calamidades Naturais - INGC - passou a denominar-se Instituto Nacional de Gestão e Redução do Risco de Desastres - INDG), com cada vez mais fundos internacionais para fazer face a uma situação, ao mesmo tempo, extrema e regular.
Foram pelo menos dois os elementos que contribuíram às falhas em termos de prevenção, aviso prévio atempado junto às populações, evacuação imediata das pessoas afetadas pelas cheias: em primeiro lugar, a L. 10/2020 - embora prevendo todas as medidas, conjunturais e estruturais necessárias nestes casos - enfatiza mais a parte relativa à assistência a posteriori do que os mecanismos de prevenção do risco.
Este princípio é válido não apenas nas proximidades do evento, mas sobretudo devido ao fato de a lei não estar integrada com as demais normas de ordenamento territorial e, ainda mais, com as práticas efetivas adotadas na larga maioria das instituições locais do país.
Para dar um exemplo: em Boane, localidade a cerca de 30 Km da capital Maputo, o chefe do distrito mandou abater as casas de 2500 pessoas por ocupar cursos de água necessários para que as cheias sigam o seu percurso natural, sem encontrar obstáculos que iam agravar a situação no território.
Trata-se de habitações não apenas abusivas, mas construídas, sem que as autoridades locais nada objetassem, numa evidente situação de risco, nunca assinalado.
O outro elemento é que alimentar a lógica da assistência a posteriori movimenta muito dinheiro, dentro da "indústria do desenvolvimento" e, consequentemente, muitos mecanismos de corrupção. Como um especialista da matéria tem escrito, na revista "Veredas de Direito" do Centro Universitário Dom Helder, "O país passou a receber muita ajuda material e financeira para fazer face à assistência humanitária, bem como para a recuperação pós-desastres socioambientais. Como resultado, começaram a surgir atos de corrupção, má gestão e desvio de fundos", pelo que o INDG teve de devolver ao Banco Mundial mais de US$ 500.000 alocados, mas usados indevidamente.
Um governo sem legitimidade com as costas contra a parede
Em ocasião da primeira, verdadeira emergência, o governo de Daniel Chapo deu prova, como escreveu o semanário privado "Preto & Branco", de uma "gestão amadora", que mereceu o cartão amarelo. A legitimação muito baixa com que Chapo foi eleito presidente, fruto de eleições manipuladas, reconhecidas inclusive num relatório recente da Ordem dos Advogados, não está ajudando o presidente da república a lidar com as inundações ocorridas neste verão.
Assim, os muitos inimigos do executivo do partido-estado FRELIMO vão ao ataque. A imprensa não vinculada ao governo defende que "não faz sentido que, em pleno século XXI, a resposta institucional continue a depender quase exclusivamente de apelos tardios à ajuda internacional e de improvisações logísticas" (Preto & Branco, 22/01/2026, p. 5), e que - segundo o "Savana", o jornal independente mais antigo de Moçambique - trata-se, pura e simplesmente, de uma "catástrofe anunciada" (edição de 23 de janeiro de 2026, p. 2) e de "Gaza condenada".
Por seu turno, as oposições políticas também atacam, em vista de conseguir dividendos eleitorais: Venâncio Mondlane, líder do partido Anamola, realça as responsabilidades do governo, que não preparou nenhum plano de contingência, apesar de as previsões meteorológicas terem sido conhecidas desde agosto de 2025. RENAMO e MDM enfatizam a ineficiência do INGD, devido à sua politização e falta de pessoal técnico especializado; finalmente, Nova Democracia tem privilegiado ações de assistência humanitária às vítimas das cheias.
Do lado da maioria, a FRELIMO concentrou-se em auxiliar as populações afetadas com doações de gêneros alimentares, chamando todas as forças políticas a um esforço conjunto para ultrapassar a situação de crise que muitas famílias estão vivenciando nesses dias.
O balanço político destas cheias está se tornando o enésimo pesadelo para o partido de governo e o executivo liderado por Daniel Chapo. Apesar da violência das inundações, o que sobressaiu foi a imagem de um país colapsado, incapaz de gerir eventos sim extremos, mas largamente previstos e previsíveis, com um ordenamento territorial desastroso, uma capacidade de resposta modesta, e com uma corrupção que está erodindo qualquer possibilidade de iniciativa organizada e eficiente.
Se, como assinala a imprensa privada, a resposta será limitada ao usual apelo à solidariedade internacional, significa que, com a Rosita, o que morreu foi também a capacidade de reação organizada e racional de um país anêmico e gravemente enfraquecido pelas suas próprias doenças internas.
Luca Bussotti não presta consultoria, trabalha, possui ações ou recebe financiamento de qualquer empresa ou organização que poderia se beneficiar com a publicação deste artigo e não revelou nenhum vínculo relevante além de seu cargo acadêmico.