O crescimento da ultradireita em várias partes do mundo costuma ser visto apenas como uma ameaça à democracia. Mas há um argumento ganhando força: os excessos desses movimentos podem, paradoxalmente, abrir espaço para uma reorganização da esquerda. Essa foi a ideia central da cúpula progressista realizada em Barcelona, nos dias 17 e 18 de abril, que reuniu líderes europeus e latinoamericanos.
A hipótese é simples, mas exigente. Quando governos ou movimentos ultraconservadores prometem soluções rápidas e entregam instabilidade, conflitos ou aumento da desigualdade, parte da sociedade começa a reagir. O medo e a frustração, que antes alimentavam a ascensão desses grupos, podem passar a mobilizar setores que buscam alternativas. A pergunta é se a esquerda conseguirá transformar esse momento em força política real.
Contradições da ultradireita estão mais visíveis
Nos últimos anos, a ultradireita cresceu apoiada em problemas concretos: custo de vida elevado, insegurança econômica e cidadã, perda de confiança nas instituições e sensação de abandono em certas regiões. Esses fatores continuam presentes. Por isso, não se trata de um movimento em declínio automático. Ao contrário, ele segue forte em muitos países. O que muda agora é que suas contradições estão mais visíveis.
Foi nesse contexto que a reunião de Barcelona tentou relançar a cooperação entre forças progressistas. A lógica é clara: a direita radical já atua de forma articulada entre países, e a esquerda precisa fazer o mesmo. A presença de líderes da Europa e da América Latina sinaliza a tentativa de construir uma agenda comum com alcance global.
Um dos pontos centrais do debate foi a necessidade de reformar o sistema internacional. Muitos participantes defenderam que instituições como a ONU, o Fundo Monetário Internacional e o Banco Mundial precisam refletir melhor o equilíbrio atual de poder no mundo. A ideia é ampliar a participação de países do Sul Global e aumentar a legitimidade dessas organizações.
Outro tema importante foi o poder das grandes empresas de tecnologia. Plataformas digitais passaram a influenciar diretamente o debate público e, em alguns casos, processos eleitorais. Diante disso, ganhou força a proposta de criar regras mais claras e fortalecer infraestruturas digitais públicas, capazes de reduzir a dependência de grandes grupos privados.
Na economia, o debate girou em torno de um problema conhecido: o crescimento da riqueza concentrada em poucas mãos, sem que isso se traduza em melhoria para a maioria da população. Economistas presentes defenderam que o Estado deve ter um papel mais ativo, vinculando investimentos públicos a objetivos sociais e ambientais e buscando formas mais eficazes de tributar grandes fortunas.
Líderes progressistas fazem autocrítica
Um ponto que chamou atenção foi a autocrítica feita por líderes progressistas. Houve reconhecimento de que, em determinados momentos, governos de esquerda adotaram políticas que não conseguiram responder às demandas sociais, o que contribuiu para a perda de apoio popular. Esse reconhecimento é relevante, mas levanta outra questão: ele será seguido por mudanças concretas?
Além do plano internacional, a cúpula destacou o papel das cidades e dos governos locais. Em muitos países, prefeitos e administrações municipais têm funcionado como espaços de resistência política. Isso acontece porque políticas públicas como transporte, moradia e serviços urbanos afetam diretamente o dia a dia das pessoas. Quando essas políticas funcionam, aumentam a confiança nas instituições; quando falham, abrem espaço para discursos radicais.
A América Latina aparece como uma região-chave nesse cenário. O avanço de forças conservadoras convive com tentativas de articulação de uma alternativa progressista. Para o Brasil, isso tem um significado especial. O país voltou a desempenhar um papel ativo na política internacional e busca se posicionar como ponte entre diferentes regiões. Ao mesmo tempo, enfrenta desafios internos semelhantes aos de outras democracias: polarização, desigualdade e disputa por narrativas.
Diante desse quadro, falar em mudança de ciclo político ainda é arriscado. Há sinais de desgaste da ultradireita, mas eles são parciais e variam de país para país. Em muitos casos, a insatisfação popular continua sendo canalizada por forças conservadoras.
O fator decisivo, portanto, não está apenas nos erros da ultradireita, mas na capacidade da esquerda de apresentar soluções concretas. Questões como custo de vida, emprego, segurança e acesso a serviços públicos seguem no centro das preocupações dos cidadãos. Sem respostas claras nesses pontos, qualquer oportunidade tende a desaparecer rapidamente.
A cúpula de Barcelona mostra que existe uma tentativa de reorganização. Mas o sucesso dessa estratégia dependerá menos dos discursos e mais dos resultados. Em um cenário global marcado por incertezas, a disputa política continua aberta — e o resultado ainda está longe de ser definido.
Armando Alvares Garcia Júnior não presta consultoria, trabalha, possui ações ou recebe financiamento de qualquer empresa ou organização que poderia se beneficiar com a publicação deste artigo e não revelou nenhum vínculo relevante além de seu cargo acadêmico.